As famílias de 25 pessoas que foram assassinadas pela ditadura militar no Rio de Janeiro, como Stuart Angels e Edson Luís, receberam receber, na terça-feira (30), as certidões de óbito retificadas indicando a violência e perseguição política do regime como causa das mortes.
Em todo o Rio de Janeiro, foram disponibilizadas 95 certidões para as famílias. Durante o ato, foram entregues 25.
Com a 8ª cerimônia de entrega de certidões retificadas, passou de 400 o número de documentos que foram entregues. O ato foi realizado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) no teatro do BNDES, no Rio de Janeiro.
As certidões de óbito que foram retificadas registram que cada morte foi “não natural, violenta, causada pelo estado brasileiro no contexto de perseguição sistemática à população identificada como dissidente política do regime ditatorial instaurado em 1964”.
A ministra dos Direitos Humanos e Cidadania, Janine Mello, afirmou que a ditadura foi um regime “sustentado pela censura, perseguição política, prisões arbitrárias, tortura, assassinatos e desaparecimentos forçados”.
“Marcas da violência do estado permanecem presentes nas famílias que perderam seus entes queridos e nas ausências que jamais puderam ser reparadas”, disse.
A entrega de certidões retificadas possibilita que famílias, “após décadas de espera, recebam documentos que registrem oficialmente aquilo que durante tanto tempo lhes foi negado: a verdade sobre a circunstância da morte de seus familiares”.
Stuart Edgar Angel Jones, que era dirigente do Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR8) teve sua certidão retificada e seu assassinato reconhecido pelo estado brasileiro. Ele foi assassinado em 1971 na Base Aérea do Galeão e seu corpo nunca foi encontrado.
Francis Bogossian, esposo de Hildegard Angel, que é irmã de Stuart, recebeu a certidão e disse que “essa é mais uma vitória conquistada. E a gente não pode só pensar na tristeza, temos que lutar para evitar que isso volte a acontecer”.
Ele contou ter vivenciado a luta de Zuzu Angel, mãe de Stuart, que tentava encontrar o filho. “A Zuzu também foi assassinada pela ditadura em um acidente de carro”, destacou.
Francis também comentou que o Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) vai conceder a Stuart o diploma póstumo. O ato ocorrerá na próxima terça-feira (7).
O presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, lembrou que, em 1973, quando estudava na Universidade de São Paulo (USP), o estudante Alexandre Vannuchi Leme foi assassinado. “Suspendemos o trote para ir fazer um evento na Catedral da Sé”, contou. Dois anos depois, o professor e jornalista Vladimir Herzog também foi assassinado e a Catedral da Sé foi palco de um dos mais importantes atos contra a ditadura.
Mercadante comentou que “a primeira coisa que o Brasil deve aos familiares é desculpa por demorar tanto tempo para ter o mínimo, que é um atestado de óbito dizendo exatamente o que aconteceu”.
Para ele, “a memória é uma forma de resistência”. “Vocês [os parentes] estão lutando não só pelo direito de vocês, mas também para que outras famílias não vivam o que vocês viveram”.
A presidente da Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), Eugênia Augusta Gonzaga, comentou que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi reconhecido “como vítima da ditadura militar”.
Ela ainda leu uma nota oficial pedindo desculpas à família do motorista, Josias de Oliveira, “pela inverdade que durou décadas de que o acidente de JK foi causado por uma colisão traseira em seu carro – colisão essa que nunca aconteceu”.











