Irã apresenta proposta para encerrar guerra e Trump insiste em rejeitar

Barcos e navios aguardam o fim da intransigência de Trump para que a passagem em Ormuz seja livre e segura (Al Jazeera)

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, afirmou que a proposta de Teerã para encerrar a guerra desencadeada pelos EUA em 28 de fevereiro é “legítima e generosa”, enquanto Washington insiste em “exigências irracionais e unilaterais”

“Não exigimos concessões. A única coisa que exigimos são os direitos legítimos do Irã”, disse Baghaei, na sua coletiva semanal nesta segunda-feira (11), segundo a PressTV. A resposta ao texto proposto pelo lado americano foi entregue no domingo formalmente aos EUA através do mediador, Paquistão.

“É irrazoável que o Irã exija o fim da guerra na região, a suspensão da pirataria marítima contra navios iranianos e a liberação de bens pertencentes ao povo iraniano que vêm sendo injustamente bloqueados há anos?”, perguntou Baghaei.

“Nossa proposta para passagem segura pelo Estreito de Ormuz é irrazoável? Estabelecer paz e segurança em toda a região é irresponsável?”, ele acrescentou.

“Tudo o que propusemos no plano foi razoável e generoso, e é para o bem da região e do mundo”, enfatizou Baghaei.

Pela proposta iraniana, as negociações têm de focar em acabar com a guerra no Golfo Pérsico, nas garantias de paz e na reabertura do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo e gás, 30% dos fertilizantes e o gás hélio, insumo para a fabricação de chips, de que o mundo necessita com urgência.

Só depois entrariam no dossiê nuclear – que só existe porque o próprio Trump no seu primeiro mandato rasgou o acordo de 2015 sobre a questão assinado pelo antecessor Obama, respaldado pelo Conselho de Segurança da ONU e rigorosamente cumprido pelo Irã.

“INACEITÁVEL”, GRUNHIU TRUMP

No domingo, teatralmente o presidente Trump reagiu à proposta iraniana, chamando-a de “completamente inaceitável”.

Anteriormente, Teerã havia assinalado que era possível um acordo com “America First”, mas não com “Israel First”. Assim que a proposta do regime Trump chegou a Teerã, o porta-voz da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa, Ebrahim Rezaei, classificou-a como uma “lista de desejos” de Washington.

O envio da proposta de Trump na semana passada havia cumprido, também, a função de interromper a alta do barril do petróleo para US$ 126 depois do fracasso, em 48 horas, do assim chamado ‘Projeto Liberdade’ de reabertura à força do Estreito de Ormuz sob “escolta” da Marinha ianque.

Antes do envio da contraproposta iraniana, o ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi visitou o Paquistão, Omã, a Rússia e a China, além de discutir por telefone com a Arábia Saudita, Catar, Egito e Turquia.

Quanto às acusações que Washington lança contra o Irã, o porta-voz Baghaei questionou: “Basta olhar para o histórico do Irã. Fomos nós que enviamos tropas? Somos nós que estamos intimidando países do Hemisfério Ocidental? Fomos nós que cometemos assassinatos duas vezes durante as negociações?”.

PRINCIPAIS PONTOS

Os principais pontos da contraproposta do Irã são: Garantia de não agressão; retirada das forças militares dos EUA das proximidades do Irã; fim do bloqueio naval; liberação de ativos iranianos congelados; pagamento de indenização; levantamento das sanções; fim da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano; e novo mecanismo de trânsito pelo Estreito de Ormuz.

O Irã também se recusa a submeter seu programa de mísseis aos ditames dos EUA, bem como à proibição de apoio aos que combatem o apartheid e genocídio promovidos por Israel no Oriente Médio, e especialmente contra os palestinos.

Embora o Irã só admita discutir o dossiê nuclear após as garantias de paz e da soberania no Estreito de Ormuz, segundo o The Wall Street Journal Teerã estaria disposta a “diluir parte de seu urânio altamente enriquecido e o restante ser transferido para um terceiro país”.

Na coletiva de imprensa do Dia da Vitória, o presidente Putin disse que a Rússia estava pronta a repetir o procedimento do acordo de 2015, decisivo então. A Rússia também está promovendo a proposta de que o Oriente Médio seja transformado em uma zona livre de armas nucleares. A redução do enriquecimento de urânio para 0% e o desmantelamento de suas instalações nucleares foram terminantemente rechaçados pelo Irã.

ESCOLHA ESTÁ COM WASHINGTON

À rede árabe Al Jazeera, uma autoridade iraniana disse que “nossa resposta está focada em terminar a guerra através da região, especialmente no Líbano, e em resolver as diferenças com Washington”.

A mesma fonte defendeu que a resposta iraniana era “realista e positivas”, acrescentando que “uma resposta positiva de Washington à nossa resposta irá mover as negociações para a frente rapidamente. A escolha agora está com Washington”.

Quanto a isso, Trump vem postando freneticamente que a contraproposta iraniana é “estúpida” e que o cessar-fogo está em um “suporte de vida”, como um paciente hospitalar “com 1% de chance de sobrevivência”.

O que é quase ‘moderado’, levando em conta que na semana passada ameaçara “acabar tudo num clarão” – e foi prontamente zombado nas redes sociais como uma reencarnação do Dr. Strangelove, do emblemático filme do auge da Guerra Fria. E, antes, de ter ameaçado “destruir esta noite uma civilização, que não ressuscitará”

Para analistas, Trump está encalacrado entre uma guerra que não tem como vencer, dada a resiliência da resistência iraniana e a oposição doméstica à guerra, ou aceitar um acordo a que se recusa, em ressonância com Israel.

A oposição à guerra de Trump contra o Irã já alcançou o patamar da era do Vietnã: 61%. Percentual análogo culpa o presidente que alta da gasolina, em decorrência da guerra. De acordo com The Washington Post, a devastação provocada pela retaliação iraniana nas 15 bases americanas no Golfo Pérsico foi muito maior do que previamente admitido. As agências de notícias também relatam são críticos os estoques de vários dos principais mísseis dos EUA, devido à intensidade da guerra.

A pedido dos jornalistas, Baghaei também comentou a viagem de Trump à China, que considerou um “parceiro estratégico”. Para o porta-voz Pequim sabe que a agressão dos EUA e Israel contra o Irã não é apenas um incidente, mas sim parte de um processo global para escalar o unilateralismo dos Estados Unidos.

SEGURANÇA NO GOLFO PÉRSICO

“A segurança no Golfo Pérsico e na Ásia Ocidental é tão importante para a China quanto para nós”, disse ele, acrescentando que os amigos chineses certamente sabem como usar oportunidades para alertar contra a ilegalidade.

Baghaei advertiu os europeus a não cairem nas tentações do eixo EUA-Israel. “Transmitimos muito claramente que a Europa não deve permitir que as tentações dos EUA e do regime israelense os arrastem involuntariamente para uma crise da qual não ganharão nada.”

Ele ainda afirmou que qualquer país que acredite em um comportamento responsável em relação à paz e segurança internacionais deve direcionar a pressão contra a parte que perturbou a navegação no Estreito de Ormuz.

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