A cantilena eleitoreira de Flávio Bolsonaro foi apresentada aos prefeitos, em Brasília, ocasião em que ele atacou o fim da jornada 6X1 e a redução da jornada de trabalho, tão importantes para quem trabalha e sua família
Flávio Bolsonaro, depois de ter protagonizado um affair com o banqueiro-presidiário Daniel Vorcaro, pedindo-lhe mais de R$ 130 milhões para patrocinar um filme sobre o pai, Jair, agora, veio à público para condenar o fim da jornada 6X1 e a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas, reivindicação que tem o apoio da grande maioria do povo brasileiro, com o respaldo do governo do presidente Lula.
Basta recorrer aos dados de recente pesquisa da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, apontando que 73% dos brasileiros apoiam a medida.
O “01” de Bolsonaro, cujo clã sempre esbravejou, cinicamente, em defesa da família brasileira, não quer que o trabalhador fique mais um dia da semana com seus entes queridos, através da implantação da semana de 5 dias de trabalho e 2 de descanso, uma tendência mundial consagrada em vários países. Onde foi implantada a medida, inclusive em algumas categorias profissionais no Brasil, verificou-se de forma acentuada o aumento da produtividade laboral, a redução das doenças, especialmente as mentais, nos ambientes de trabalho, com a ampliação do espaço de tempo para a convivência familiar.
“Com relação ao fim da escala 6×1, o Brasil se atualizou o mundo que nos vivemos hoje não é mais o de 1943, na época da CLT. Todos nós queremos trabalhar menos e ganhar mais, só que é uma legislação que está atrasada, engessada, que vai causar um impacto nos municípios de 50 bilhões reais por ano se for aprovada dessa forma”, disse o presidenciável no início de sua cantilena eleitoreira, durante a XXVII Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios, nesta terça-feira (19),
Acrescentou o embusteiro:
“O trabalhador é quem tem que escolher quanto tempo trabalha e não o governo. O salário mínimo será por horas trabalhadas sem redução e com todos os direitos constitucionais garantidos: décimo terceiro, férias, fundo de garantia e INSS. É assim que temos que olhar para o trabalhador moderno”, acrescentou.
Alguém da equipe do candidato precisa avisar a ele que a CLT, desde que foi criada, surgiu para proteger o trabalhador em uma sociedade em que o capital prevalece sobre a força do trabalho e ela só não protege mais porque foi retalhada ao longo do tempo, inclusive com o apoio de ultraliberais declarados como o senador.
Segundo ele, o trabalhador, no Brasil, pode decidir por si mesmo quantas horas quer trabalhar e quantas pretende descansar, ignorando, propositadamente, que a legislação trabalhista estabelece o limite máximo da jornada, sendo a negociação livre entre as partes para a sua redução, com o objetivo de garantir o justo descanso semanal, destinado ao lazer e à família, que o bolsonarista diz proteger.
Defendeu, abertamente, na esteira da maldita contrarreforma de Micher Temer, de 2017, a “flexibilização para permitir o pagamento por hora trabalhada, cabendo ao próprio empregado definir seu período de atuação, como se isso fosse possível na realidade nacional.
Caso ele se desse ao trabalho de sair de seu conforto para perguntar a um motorista de Uber ou a um atendente de call center, ambos privados de empregos seguros e decentes amparados pela CLT, em decorrência do brutal e perverso processo de desindustrialização que o país atravessou nas últimas décadas, se eles têm “liberdade” para definir o tamanho de sua jornada, se deparará com a dura realidade de brasileiros e brasileiras que chegam a trabalhar 12 horas por dia, inclusive nos feriados e fins de semana, não por opção, mas como única solução para sustentar suas famílias.
Na atual realidade do mercado de trabalho no Brasil, na qual o país e o governo Lula ainda lutam para superar a precarização e promover a reindustrialização, a proposta do candidato do Master reimplantaria a semi-escravidão em vários segmentos econômicos.
Tal é o modelo de trabalhador “moderno” que Flávio Bolsonaro considera ideal para o país.
Essa é “liberdade” propugnada por quem pretende ser presidente da República, segundo ele, para beneficiar principalmente as mulheres, exatamente as que mais ganharão com o fim da escala 6X1, pois, com isso, poderá se dedicar mais aos cuidados com seus filhos.
A sugestão contraria entendimento do governo Lula, que considera o fim da escala 6×1 prioritário, entre outros motivos, para promover a equidade entre homens e mulheres no mercado de trabalho e aliviar parte da sobrecarga assumida pelas mulheres, sujeitas à dupla jornada.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), demonstram que as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicam 11,7 horas. Quando consideradas somente as mulheres pretas e pardas, o trabalho doméstico não remunerado é 1,6 hora a mais por semana, se comparado ao de mulheres brancas.
Para a secretária nacional de Articulação Nacional, Ações Temáticas e Participação Política do Ministério das Mulheres, Sandra Kennedy, o fim da jornada 6×1 pode impactar positivamente na divisão de tarefas em casa.
Não por acaso que a redução da jornada de trabalho, no Brasil, nesse momento, também é considerada uma medida promotora da infância, período em que a criança mais precisa da presença da mãe.
“Por que não é o trabalhador que, conforme as suas necessidades, é quem pode escolher sua jornada de trabalho? É mais do que justo. Muitas pessoas querem trabalhar mais, e a PEC [proposta pelo governo] pode engessar quem quer trabalhar mais”, blasfemou Flávio, quando se sabe que ninguém em sã consciência “quer trabalhar mais”. Esse trabalhador, vigarista, precisa trabalhar mais para alcançar o salário ou a renda necessária à sua sobrevivência e de sua família.
Na proposta do fim da escala 6X1 e a redução da jornada está contida a proibição de redução salarial, dentro da lógica apurada em experiências exitosas: trabalhar menos, produzir mais, não adoecer e melhorar a condição de vida, com mais tempo para o lazer e a família. Essa é a tendência que está sendo consagrada em várias partes do mundo que caminham no sentido civilizacional – e não da barbárie apregoada pelo presidenciável .
Ao fim e ao cabo, a manifestação do candidato da extrema-direita não representa, rigorosamente, nenhuma surpresa, principalmente quando se trata de uma causa e de um direito do trabalhador, até porque as recentes maquinações dele com o banqueiro-presidiário já falaram por si só de que lado se encontra.
MARCO CAMPANELLA











