“As tarifas dos EUA sobre o Brasil são um erro estratégico”, destacou o presidente brasileiro na edição deste domingo (26) do jornal norte-americano
Em artigo publicado neste domingo (26) no jornal norte-americano The Washington Post, o presidente Lula deixou claro ao presidente Donald Trump que o Brasil jamais vai abrir mão de sua soberania e que mentiras não derrotarão a democracia brasileira.
O presidente brasileiro demonstrou que as medidas tarifárias impostas ao Brasil pela Casa Branca não se baseiam em dados de comércio e sim em questões políticas e ideológicas.
“Ignorando dezenas de reuniões entre nossas equipes, argumentos técnicos sólidos e documentos que entreguei pessoalmente ao presidente Trump, o governo dos EUA impôs novas tarifas ao Brasil variando de 12,5% a 37,5%”, denunciou Lula.
Ele fez ver ao mundo que “Brasil e Turquia são agora os segundos países mais fortemente tarifados pelos Estados Unidos, atrás apenas da China. Isso apesar do superávit dos EUA com o Brasil no comércio bilateral de bens e serviços, que totalizou US$ 428 bilhões em 15 anos consecutivos”. Confira o artigo na íntegra!
Lula para Trump: ‘Ninguém vai nos derrotar com mentiras’
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA, PRESIDENTE DO BRASIL
Há um ano, fiquei surpreso com a publicação, em uma plataforma digital, de uma carta do presidente Donald Trump impondo uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. Seu primeiro parágrafo fazia referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro — que foi condenado no ano passado por tentar um golpe de Estado no Brasil e agora está em prisão domiciliar — tornando explícita a motivação política por trás da medida.
Em minhas conversas com o presidente Trump desde então, enfatizei que não precisamos compartilhar a mesma visão de mundo para buscar uma relação mutuamente benéfica entre nossos países. Afinal, lideramos as duas maiores democracias e economias das Américas.
As negociações entre nós, junto com decisões da Suprema Corte dos EUA, desmontaram a versão inicial das amplas medidas tarifárias. No entanto, neste mês, ignorando dezenas de reuniões entre nossas equipes, argumentos técnicos sólidos e documentos que entreguei pessoalmente ao presidente Trump, o governo dos EUA impôs novas tarifas ao Brasil variando de 12,5% a 37,5%.
Como resultado, a Global Trade Alert, uma organização independente sediada na Suíça, estima que Brasil e Turquia são agora os segundos países mais fortemente tarifados pelos Estados Unidos, atrás apenas da China. Isso apesar do superávit dos EUA com o Brasil no comércio bilateral de bens e serviços, que totalizou US$ 428 bilhões em 15 anos consecutivos.
Além de serem injustas, as novas tarifas são um erro estratégico: elas prejudicarão a economia dos EUA e a parceria entre os EUA e o Brasil. Vários setores industriais dos EUA dependem de insumos brasileiros. Alimentos, calçados, têxteis, móveis, peças automotivas e muitos outros produtos se tornarão mais caros para os consumidores dos EUA.
As exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram para o nível mais baixo desde 1997. Comparando os primeiros seis meses de 2025 e 2026, o comércio bilateral com os EUA caiu 12,8%, enquanto o comércio do Brasil com a União Europeia cresceu 6,1% e o comércio com a China aumentou 15,9%.
No médio prazo, essas tarifas vão desestabilizar cadeias de suprimentos que atualmente estão profundamente integradas, e as empresas brasileiras substituirão seus fornecedores nos EUA por parceiros em outros lugares.
Isso diz muito sobre a inconsistência entre os interesses que os Estados Unidos proclamam em sua estratégia de segurança nacional e as políticas que adotam em relação ao Hemisfério Ocidental.
América Latina e o Caribe não precisam de porta-aviões patrulhando suas águas nem de tarifas punitivas. O que nos falta são parceiros confiáveis e previsíveis. Em um momento em que os EUA estão fechando seu mercado, outros países se apresentaram como alternativas, oferecendo uma agenda positiva capaz de fomentar o desenvolvimento econômico e social.
Estou convencido de que unir forças em torno de iniciativas concretas envolvendo investimento, comércio e a luta contra o crime organizado é o caminho a seguir para superar os males que afligem um hemisfério que pertence a todos nós.
Dividir o mundo em esferas de influência e buscar empreendimentos neocoloniais por recursos estratégicos são gestos anacrônicos e passos para trás.
Apesar da longa história dos Estados Unidos de intervenções políticas e militares na América Latina e no Caribe, houve momentos em que Washington se mostrou capaz de ser um parceiro digno de nossos interesses de desenvolvimento.
O presidente Franklin D. Roosevelt implementou a Política do Bom Vizinho, que buscava substituir o uso da força pela diplomacia na política externa dos EUA em relação à região. Essa abordagem contribuiu de forma decisiva para os estágios iniciais da industrialização do Brasil. Ao enfrentar a crise financeira de 2008, o presidente George W. Bush incluiu três países latino-americanos na cúpula inaugural do Grupo dos 20 líderes.
Para o Brasil, a única guerra que precisamos travar nesta parte do mundo é a guerra contra a fome, a pobreza e a desigualdade. E as únicas armas que devemos usar são investimento, transferência de tecnologia e comércio justo e equilibrado.
Tentativas de impor restrições ideológicas à parceria bilateral, ou de instrumentalizá-la para fins eleitorais, não serão permitidas. Nunca antes um secretário de Estado dos EUA declarou que o Brasil não é amigo dos Estados Unidos. Ninguém vai nos derrotar com mentiras.
As alegações do presidente Trump contra o Brasil, tentando justificar tarifas, são infundadas. A liberdade de expressão não é um passe livre para atividades criminosas nas redes sociais — não vamos desistir de proteger nossas famílias e crianças da ganância de um punhado de oligarcas da tecnologia. Nosso sistema de pagamento, PIX, não discrimina empresas americanas e é um padrão internacional para infraestrutura pública digital. O mundo inteiro sabe que, a partir de 2023, começamos a combater agressivamente os crimes ambientais e a reduzir drasticamente o desmatamento em todos os biomas brasileiros.
Respeitamos a soberania de outros Estados e negociamos com todos que sabem respeitar a nossa. A reciprocidade é a base de toda relação entre nações, e temos os mecanismos apropriados para garanti-la.
Estamos prontos para continuar engajados em um diálogo aberto e construtivo, conforme a relação entre dois países como Brasil e Estados Unidos exige. Mas o destino do Brasil é apenas dos brasileiros a decidir — sem interferência ou subserviência estrangeira.









