“Noboa busca confrontar Colômbia para evitar vitória de Cepeda”, afirma deputado equatoriano

“Política de enfrentamento tem nos trazido o respaldo de setores mais democráticos das forças armadas que não querem a escalada do conflito”, afirmou Cedeño

Deputado Fernando Cedeño, da Revolução Cidadã (RC), dirigente da principal força opositora do Equador, denuncia que o governante Daniel Noboa se reuniu com o dirigente neofascista colombiano Álvaro Uribe com interesses contrários à democracia. Em entrevista exclusiva ao HP, o parlamentar alerta para que a articulação de ultradireita, “com o apoio militar dos EUA, visa obstaculizar o avanço das conquistas sociais e a eleição do candidato do Pacto Histórico” na Colômbia, país que vive agora uma escalada de atentados terroristas em benefício das forças narcofascistas.

Em relação ao crescimento do rechaço a Noboa, Cedeño avalia que é “resultado da aplicação das políticas neoliberais, com medidas que atentam contra setores estratégicos, como a saúde e a educação, penalizando a qualidade de vida dos equatorianos”.

Alertando que “vivemos um momento de confrontação com o neofascismo”, o parlamentar defende “que as forças progressistas têm que estar unidas no continente e no mundo frente ao trumpismo internacional”

LEONARDO WEXELL SEVERO

A Revolução Cidadã historicamente tem assumido uma postura de frente ampla, defendendo um projeto soberano, de desenvolvimento nacional. O que fazer agora que este principal partido de oposição foi proscrito para as próximas eleições?

Bem, continuamos com a resistência cívica. Estamos procurando organizações para que nossos membros possam participar das eleições locais. Esta é uma luta séria porque estamos competindo. Somos oposição dentro dos mecanismos que a democracia permite. Em outras palavras, nós respeitamos as normas constitucionais, respeitamos a lei, que esses governos neofascistas desacatam sistematicamente.

Como Revolução Cidadã não poderemos participar, mas estamos buscando acordos, alianças com outras organizações políticas. Somente dessa maneira é que consequiremos concorrer até mesmo com prefeitos como Pablo Muñoz, de Quito, que está fazendo um excelente trabalho na capital da República. É isso que está em jogo neste momento, as eleições.

Vale lembrar que recentemente foram retirarados da disputa outros dois partidos, supostamente por “não cumprirem os requisitos” para manter seu status legal: o Constrói, de extrema-direita, da ex-ministra María Paula Romo Rodríguez, de Lenin Moreno (2017-2021) e o Unidade Popular, de tendência maoísta, com base na União Nacional dos Educadores.

Isso tudo está ligado novamente às eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, em 3 de novembro, quando o equilíbrio de poder poderá ser alterado em Washington, com reflexos diretos em todos os governos neofascistas do continente. Afinal estarão em disputa todas as 435 cadeiras da Câmara dos Deputados, um terço dos 100 membros do Senado, 34 dos 50 governadores, além de prefeitos, legisladores estaduais e autoridades locais norte-americanas.

De que forma os altos índices de criminalidade no Equador têm repercutido na crescente impopularidade de Noboa?

A aplicação de políticas neoliberais, particularmente em setores estratégicos como saúde e educação, tem repercutido em uma queda brusca da qualidade das condições de vida da população. Isso tem tornado ainda mais importante a manutenção de uma Constituição progressista, que garante direitos.

Por isso tentaram atacá-la tantas vezes nos últimos oito anos, seja durante o governo Moreno (2017-2021), o de Lasso (2021-2023) ou o de Noboa. Para reformá-la, eles convocaram uma Assembleia Constituinte e, no fim, não conseguem apoio popular para isso, como o eleitorado reafirmou em novembro passado. É uma rejeição retumbante ao retrocesso neoliberal que querem impor e isso os perturba.

Veja bem, estamos falando de pessoas que não são democratas, que não acreditam na democracia. Sua atitude é extremamente arrogante e a Constituição se torna um obstáculo. É por isso que querem adulterá-la. O que eles têm feito durante todo esse tempo são emendas, alterações em certos artigos, o que conseguiram fazer, esvaziando-a gradualmente de seu conteúdo.

Não existe um obstáculo legal para que possam realizar tais atropelos?

Temos uma instituição chamada Tribunal Constitucional, que são juízes que garantem o cumprimento da Constituição. Os governistas estão incomodados com isso e, neste momento, vêm dirigindo toda a sua artilharia midiática contra os magistrados do Tribunal para forçá-los a se submeter. Assim, desde quando iniciou este período legislativo, em 24 de maio de 2025, propuseram uma série de “reformas econômicas urgentes” – que recebem um processo mais acelerado – das quais lucram e são inconstitucionais, contra as quais há processos judiciais no Tribunal. São leis que têm vários objetivos como afrouxar os níveis de controle e implementar uma reforma tributária que beneficie com anistias fiscais os seus grupos econômicos.

Imagine que o Grupo Noboa devia ao Serviço de Receita Interna, ao Tesouro Equatoriano, quase 92 milhões de dólares, noventa e dois! E com aquela lei que eles mesmos aprovaram na Assembleia Nacional acabam pagando pouco mais de duas dezenas de milhões e os 70 milhões restantes foram perdoados por essas “leis de anistia”. Eles governam para favorecer o grupo econômico ao qual pertencem.

Cite exemplos do dano praticado ao Tesouro pela família do presidente Daniel Noboa.

O Grupo Noboa é um grupo que opera em todos os segmentos, atuando não apenas na produção, mas também no setor especulativo. O Banco do Litoral, por exemplo, que era relativamente pequeno, em 2025 teve lucros de quase 500% em comparação com o ano anterior.

Eles são agroexportadores, historicamente ligados à indústria da banana. Lembremos que o atual presidente é da terceira geração de um império econômico. É bom lembrar que carregamentos de drogas foram descobertos em Rotterdam, nos principais portos europeus de banana, provenientes de algumas empresas ligadas ao Grupo Noboa. Não estou acusando, estou dizendo que foram infectados em algum momento durante o transporte. Essas são as realidades. O ruim é que temos um sistema de justiça que está sendo cooptado.

Há uma cooptação e um silenciamento da Justiça equatoriana, que compromete o julgamento e fortalece a impunidade do Grupo Noboa.

Não vivemos em um regime constitucional de direitos como afirma a Constituição. Há uma falta de respeito pela lei. Há um processo de perseguição política em que nós, como organização política, neste caso falando em nome da Revolução Cidadã, estamos sendo novamente considerados ilegais. Acabamos de ser sancionados, porque em fevereiro do ano que vem haverá eleições para a renovação de prefeitos, das autoridades locais, mas eles estão antecipando as eleições.

Bem, imagine o nível de perversidade e desrespeito às regras no Código da Democracia que diz que nenhuma mudança nas regras, em qualquer regulamento, na lei, pode ser feita por meio de eleições.

Em março deste ano eles anteciparam as eleições, que deveriam ocorrer em fevereiro de 2027 e marcaram para 29 de novembro de 2026.  Antes disso, o Tribunal de Disputas Eleitorais sancionou a Revolução Cidadã, com uma suspensão de nove meses, nos tirando da disputa. Em outras palavras, nós como organização, a principal força de oposição, aquela que tem um número significativo de legisladores, a primeira grande minoria e o único partido que está verdadeiramente contra este governo, não poderá participar das eleições locais de novembro.

No mesmo momento em que todas as pesquisas realizadas conferem ao governo níveis muito baixos de credibilidade e popularidade, somos retirados do processo.

Como você avalia o papel dos grandes conglomerados de comunicação no Equador?

Bem, a grande mídia historicamente sempre esteve a favor de grupos poderosos. E isso não acontece apenas no Equador, mas na América Latina e no mundo. Ela está a serviço e, portanto, ligada às grandes corporações transnacionais e ao setor financeiro.

Apesar dos conflitos, há um jornal em Guayaquil chamado El Expreso, que está sendo seriamente ameaçado pelo governo. Há a pressão sob alguma forma de controle acionário e também da compra dos veículos de comunicação. No final do ano passado houve a venda de todo o pacote de ações do El Universo, cujas origens ainda não estão muito claras, mas agora você vê a linha editorial descaradamente a favor do governo e, claro, a perseguição dos opositores. Neste caso, ficou abertamente contra nós.

Eles também têm comprado vários meios de comunicação e programas alternativos. Há o caso de um deputado da Ação Democrática Nacional (ADN) [aliança política criada para apoiar a candidatura de Noboa à presidência em 2023], que adquiriu vários veículos de comunicação. A esposa dele faz parte da bancada governista e não há justiça investigando e nem se sabe de onde essa pessoa tirou tanto dinheiro, já que em sua declaração de bens não consta ter dois ou três milhões de dólares para comprar os meios vendidos nos últimos dias.

Felizmente, agora existem meios de comunicação alternativos, a mídia digital que acaba se tornando um contrapeso ao poder estabelecido, permitindo-nos acessar espaços.

Neste contexto, qual o papel da integração de nossos países e povos?

Bom, acredito que as forças progressistas têm que estar unidas no continente e no mundo frente ao trumpismo a nível internacional. No caso da relação com a Colômbia, não descartaria a possibilidade do governo Noboa estar provocando uma confrontação bélica que, felizmente, o presidente Petro não se deixou influenciar.

As relações da direita da Colômbia e do Equador sempre têm sido muito ativas. Em 2021, quando estávamos em pleno processo presidencial, veio o próprio fiscal colombiano dizer que havia indícios muito fortes de que a campanha de Andrés Arauz (ministro do Conhecimento e Talento Humano durante a presidência de Rafael Correa) tinha sido “financiada por grupos guerrilheiros”.

Esta narrativa não vem de agora, vem da campanha de 2006, quando Rafael Correa ganhou pela primeira vez. Falaram em financiamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), depois do Exército de Libertação Nacional (ELN), todas essas acusações graves e infundadas.

No caso de 2021, o forte é que o próprio fiscal colombiano veio ao nosso país para formalizar a denúncia trazendo supostos vídeos que posteriormente se comprovaram terem sido gravados na Amazônia equatoriana, como atestaram ornitólogos (responsáveis pelo estudo de pássaros). As imagens desmentiram porque eram de uma ave que havia somente no Equador.

Há sequências de viagens do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe (2002-2010) ao Equador e reuniões com Noboa em que acabam incorrendo em uma política exterior de confrontação, com o apoio militar dos Estados Unidos, a fim de evitar que Iván Cepeda ganhe as eleições na Colômbia e avancem as conquistas sociais. Essa posição tem nos trazido o respaldo de setores mais democráticos das forças armadas que não querem a escalada do conflito.

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