Noca da Portela deixa legado histórico no samba e na luta pela democratização

Foto: Reprodução

O cantor e compositor Noca da Portela, que estava internado desde o dia 30 de abril, faleceu na noite de domingo (17), no Rio de Janeiro, aos 93 anos, por complicações de uma pneumonia.

Integrante histórico da ala de compositores da Portela, o mineiro de Leopoldina que chegou ainda criança ao Rio atuou na escola desde a década de 60, onde compôs sambas-enredos memoráveis. Noca também foi autor de grandes sucessos gravados por importantes nomes da nossa música, como “Virada” (em parceria com o filho Noquinha), mais conhecido como “Hora da Virada”, imortalizado na voz de Beth Carvalho e que se tornaria um dos hinos da luta pela democratização do país e dos comícios das Diretas Já.

Sozinho ou em parcerias compôs sucessos como “Portela querida” (c/ Picolino e Colombo), “É preciso muito amor” (c/ Tião da Miracema), “Vendaval” (c/ Délcio Carvalho), “Dinheiro vem, dinheiro vai” (c/ Vovó Ziza), “Alegria continua” (c/ Mauro Duarte), “Ausência” (c/ Délcio Carvalho e Barbosa Silva), “Mãos dadas” (c/ Daniel Santos) e “Libertação” (C/ Rico Doriléo), músicas consagradas nas vozes de artistas como a já citada Beth Carvalho, Paulinho da Viola, Clara Nunes, Martinho da Vila, Dona Ivone Lara, Elza Soares, Walter Alfaiate, Alcione e Maria Bethânia.

Sua história com a Portela é um caso à parte. Levado para a ala de compositores da escola por Paulinho da Viola na década de 60, foi o compositor que mais venceu disputas de samba-enredo na escola. Foram sete vitórias, entre os quais, os sambas “Pelos caminhos de Minas Gerais”, “Recordar é viver”, “Gosto que me enrosco”, “Os olhos da noite”, e “ImaginaRIO, 450 Janeiros de uma Cidade Surreal”. Além disso, conquistou duas vezes o prêmio estandarte de Ouro com “Gosto que me enrosco” e “Pelos caminhos de Minas Gerais”.

“O G.R.E.S. Portela lamenta, com profundo pesar, o falecimento do cantor, compositor e instrumentista Noca da Portela, um dos grandes nomes da nossa história. […] Integrante da Velha Guarda Show da Portela, Noca construiu uma obra com centenas de sambas e se tornou uma das personalidades mais respeitadas do Carnaval carioca. Neste momento de dor, a Portela se solidariza com familiares, amigos, parceiros de composição, admiradores e toda a comunidade do samba”, disse a Portela em nota.

Atuante em vários projetos culturais, Noca lançou diversos discos, integrou grupos musicais, participou de inúmeros shows importantes, esteve à frente de casas de samba como a Casa de Noca, inicialmente funcionando no bairro da Gávea e depois assumindo um papel itinerante, passando por vários bairros, e também compôs para blocos de peso do carnaval carioca, como o Cacique de Ramos (“Caciqueando”), Simpatia é Quase Amor (“Leila Diniz amor e liberdade”) e Barbas.

Ao longo de sua carreira sempre atuou politicamente. O samba “Virada”, que se tornaria tema da campanha das Diretas Já, e o levou a participar dos comícios ao lado de nomes como Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, fora inicialmente composto e cedido para a campanha vitoriosa de Leonel Brizola ao governo do Estado do Rio. Também compôs jingles para a campanha de Lula à presidência.

O artista foi militante do Partido Comunista do Brasil (PCB) por cerca de 40 anos; na década de 90, abriu sua casa e se empenhou na organização de uma reunião de sambistas como Luiz Carlos da Vila, Délcio Carvalho, Nelson Sargento e Monarco, entre outros, quando este jornal (Hora do Povo) promovia um evento de celebração e campanha de apoio; concorreu à Câmara Municipal do Rio pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) em 2008, e em 2006, foi secretário de Cultura do Estado do Rio de Janeiro no governo de Rosinha Garotinho.

Em suas contas nas redes, o presidente Lula lamentou a morte do artista: “Perdemos ontem o grande Noca da Portela, compositor de vários sambas-enredo que sua escola levou para a avenida e de canções gravadas por alguns de nossos maiores artistas. Homem de muita poesia e de muita luta, sempre sonhou com um Brasil mais justo. Sua composição ‘Virada’ se tornou, na voz de Beth Carvalho, parte da trilha sonora do movimento pela redemocratização e dos comícios das Diretas Já no início dos anos 1980”, escreveu o presidente.

“Noca dizia em sua canção ‘Peregrino’ que o samba é uma eterna semente solta pelo ar, fecundando de felicidade por onde for. E estou certo de que as sementes que ele lançou em vida têm também esse destino: seguirão voando livres, encantando quem teve a alegria de conviver com esse grande artista brasileiro e todos que seguirão ouvindo os seus belos sambas”, completou o presidente.

Para o compositor Moacyr Luz, “parece um lugar-comum, mas o Noca é um daqueles compositores injustiçados na música brasileira. Basta ver, na sua discografia, músicas que compôs com o Candeia e o Paulinho da Viola. Deixou sua marca de forma contundente no carnaval carioca, contribuindo com a cultura popular com sambas-enredos, e fortalecendo também as alas de compositores de importantes blocos da cidade do Rio”.

Para o cantor e compositor Diogo Nogueira, Noca da Portela foi “mais um sambista que pavimentou toda uma estrada para a gente estar aqui, sustentando essa bandeira e mantendo a chama acesa. Eu quero lembrar desse homem assim, sorrindo e cantando”.

“Uma referência para todos nós mais jovens. Um exemplo de grande sambista e portelense nato”, afirmou o compositor Mauro Diniz, filho de Monarco.

O artista deixa dois filhos, sete netos e três bisnetos. A Portela decretou três dias de luto oficial. O velório do compositor acontece na Quadra da Portela, na terça-feira (19), das 8h às 14h, e será aberto ao público.

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