DAVI MOLINARI
Não há nada que me incomode mais do que encontrar o meu lugar à mesa ocupado por terceiros.
Não é apego. É geopolítica da psicanálise.
Naquele dia, porém, quem ocupava minha cadeira diante do Doutor era Laranjinha, filho reconhecido tardiamente pelo Laranjão, o Trump da nossa vizinhança.
A ausência do pai preenchia o Fale Mais Sobre Isso com uma dignidade que sua presença jamais conseguiu oferecer. Até o chope parecia mais gelado. Os estudantes discutiam as ameaças à democracia, os bancários desconfiavam da Faria Lima e os advogados explicavam que atacar o STF não é liberdade de expressão, embora algumas famílias insistam em tratar golpe de Estado como reunião de condomínio.
Juvenal me interceptou na entrada antes que eu reivindicasse minha cadeira com base no direito internacional.
– Não se aborreça, meu analisado. O garoto sofre de um vazio existencial provocado pela ausência paterna. O Doutor está tentando aliviar a dor.
– Eu compreendo, Juvenal. Mas os raros minutos do happy hour do Doutor já estão reservados por mim. Tenho posse por usucapião, pacífica e devidamente regada a chope.
Juvenal baixou a voz:
– Foi Dia dos Pais. E o pai sumiu novamente.
Olhei para Laranjinha. Estava curvado diante do Doutor, reproduzindo os trejeitos do pai sem possuir o mesmo alcance de devastação. Herdara o sobrenome, mas não o software.
– Juvenal, é possível ensinar alguém a amar?
A pergunta o surpreendeu. Ficamos em pé, esperando que Laranjinha desocupasse minha cadeira e devolvesse o divã imaginário ao seu legítimo invasor.
Não esperei pela resposta.
Caminhei até a mesa. Laranjinha levantou-se desajeitado. Cumprimentei-o com a cabeça e disparei:
– Se aprendemos a amar pelo exemplo de quem ama, por que não seria possível ensinar o amor?
Laranjinha ficou imóvel. O Doutor ergueu uma sobrancelha e tentou esconder um sorriso de soslaio. Em seguida, retirou do bolso o indefectível bloquinho e fez uma anotação. Desconfiei que estivesse registrando meu primeiro pensamento inteligente desde a inauguração do boteco.
Juvenal chegou trazendo uma travessa de manjubinhas preparadas por João e Maria e a pousou no centro da mesa durante uma tempestade diplomática.
– O amor é compaixão – disse ele. – Mas há quem o confunda com poder, posse e controle. Principalmente quem acredita que amar é obrigar os outros a obedecer.
Laranjinha respirou fundo.
– Eu sei o que vocês falam do meu pai. Mas transfiro meu amor para ele voluntariamente e pagando taxas altíssimas. Só queria preencher esse vazio que continua aqui.
A sessão, que já era pública, tornou-se coletiva.
Alguns estudantes se aproximaram. Um professor de filosofia abandonou a mesa ao lado. Uma bancária virou a cadeira. Até um operador do mercado financeiro, que normalmente só reconhecia vazios quando apareciam na conta bancária alheia, prestou atenção.
Laranjinha voltou a se sentar na minha cadeira. Dessa vez, não protestei. Meu ego protocolou uma reclamação, mas foi derrotado por maioria simples.
Naquela semana, o mundo inteiro parecia estar tentando preencher algum vazio com uma ameaça. Washington consolidava o poder, as guerras empurravam o preço da energia, o clima extremo lembrava que a humanidade continua brincando com fósforos dentro de um depósito de gasolina e, no Brasil, a disputa política começava a adquirir a serenidade de uma briga de torcida em elevador.
De um lado, Lula, mais uma vez o alvo do PowerPoint dos jornais. Do outro, Flávio tentando transformar o clã em projeto nacional. Ao redor, forças conservadoras tentando amealhar a riqueza que pertence a todos.
– Talvez o problema seja a teimosia – arrisquei. – O sujeito insiste numa crença, numa injustiça, mesmo depois que a realidade apresenta documentos, provas, testemunhas.
Juvenal serviu nova rodada.
– Isso não é teimosia, meu analisado. Teimosia ainda pode ser resistência. É Sísifo empurrando a pedra, mesmo sabendo que ela vai cair. O problema começa quando o sujeito empurra a pedra sobre os outros e chama isso de liberdade.
O professor de filosofia aprovou com a cabeça.
– E a obsessão? – perguntou Laranjinha.
– É quando a pessoa escolhe uma ideia, um homem, uma causa ou um inimigo e transforma aquilo em sentido absoluto – respondi. – Funciona por algum tempo. Mas, quando o objeto falha, o vazio volta com juros, correção monetária.
Laranjinha olhou para a porta, talvez esperando que o pai surgisse. Ninguém apareceu.
– O vazio não aceita qualquer inquilino – prosseguiu Juvenal. – Alguns colocam amor. Outros, uma causa. Há quem coloque teimosia. O problema é que também existem os que descobrem o vazio dos outros, despejam ódio lá dentro e depois apontam quem deve ser odiado.
– E fazem isso por quê? – perguntou Laranjinha.
– Porque uma pessoa vazia procura sentido – respondi. – Mas uma pessoa ensinada a odiar recebe também um inimigo, uma missão e um comandante. A partir daí, pensa que está defendendo as próprias convicções, quando apenas trabalha para o objetivo de quem escolheu o alvo.
O Doutor fechou o bloquinho, ajustou os óculos e finalmente falou:
– Quem transforma o vazio alheio em ódio não pretende preenchê-lo: pretende governá-lo.
O silêncio tomou a mesa.
Laranjinha baixou os olhos. Juvenal pousou uma manjubinha em seu prato, sem pressa. Não era uma cura, uma doutrina nem um propósito pré-fabricado. Era apenas um pequeno gesto de cuidado.
Compreendi, então, que talvez o vazio não possa ser eliminado. Pode apenas ser habitado. A teimosia o enfrenta. A obsessão o disfarça. O ódio o transforma em guerra. O amor não o preenche completamente, mas permite que ninguém precise atravessá-lo sozinho.
Puxei uma cadeira da mesa ao lado e me sentei.
Perdi meu lugar para Laranjinha.
Mas, pela primeira vez, não me senti roubado.
Juvenal olhou para nós dois e recolheu a travessa vazia.
– Pronto. O amor talvez não encha o vazio, mas hoje dividiu a conta.
Publicado originalmente em Divã no Boteco – CIV. Enviado pelo autor.











