“Houve um estrondo repentino . Veio de um drone. Corri para o andar de cima e vi o barco destruído… O navio inteiro estava completamente destroçado”, relatou Jhonny Sebastián Palacios, um dos 20 pescadores sobreviventes da agressão Don Maca
O que era para ser mais um final de tarde de pesca no Pacífico virou um pesadelo para 20 equatorianos que, sem qualquer motivo ou aviso, tiveram seu barco bombardeado por militares dos Estados Unidos. Embarcação de pesca de 35 toneladas que operava em conjunto com seis barcos menores, o Don Maca estava a cerca de 320 km a noroeste das Ilhas Galápagos quando desapareceu em 26 de março, deixando suas famílias e amigos em desespero.
“Estávamos apenas trabalhando, esperando o último barco de pesca voltar. Tudo estava perfeitamente bem”, descreveu Jhonny Sebastián Palacios, um dos pescadores. Foi quando do nada uma explosão atingiu o barco: “Houve um estrondo repentino – bum! Veio de um drone”.
Conforme esclareceu Palacios, em entrevista ao jornal The Guardian, a explosão devastou a embarcação, estilhaçando vidros e ferindo vários tripulantes. “Corri para o andar de cima e vi o barco destruído… O navio inteiro estava completamente destroçado”, relatou.
Embora tenha repercutido internacionalmente a partir da reportagem do The Guardian desta terça-feira (21), o fato traz à tona ações criminosas e ilegais do governo Trump no Caribe e no Pacífico desde o início de setembro. Uma prática sanguinária que já contabiliza 178 pessoas assassinadas em ataques aéreos militares dos EUA, conforme levantamento do Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos (Wola).
Contradizendo especialistas jurídicos e grupos de direitos humanos, as execuções extrajudiciais visam civis que não representam nenhuma ameaça imediata, como os equatorianos testemunharam. À margem do direito, a Casa Branca insiste que as execuções são legais – e que vão continuar – pois visam um pretenso combate ao narcotráfico.
PESCADORES DO DON MACA SÃO EXEMPLO DA FARSA DE TRUMP
O fato é que os EUA não apresentaram qualquer prova contra os pescadores do Don Maca, que sobreviveram casualmente a um duplo ataque e, em seguida, detidos sob a mira de armas por soldados em uma embarcação de patrulha com bandeira norte-americana.
Mais cedo naquele dia, disse Palacios, eles tinham visto um navio militar ostentando a bandeira dos EUA, mas não deram importância: “Eles não nos deram sinal, então continuamos pescando”.
“O barco tinha acesso à internet, então gravei um vídeo e mandei para o meu pai, dizendo: ‘Pai, tem um drone nos seguindo'”, recorda Erick Fabricio Coello Saltos, um dos pescadores, em entrevista à rádio Dinâmica. E foi em 26 de março de 2026 que o sinal de satélite e a comunicação foram perdidos. A tripulação era formada por pescadores de San Mateo, Santa Marianita e Jaramijó.
O primeiro ataque com drone atingiu a proa do barco, e o segundo atingiu a antena, interrompendo todas as comunicações, narrou.
Os destroços da explosão atingiram a tripulação. “Assim que tive a explosão meus tímpanos se romperam terrivelmente e fiquei coberto de sangue”, descreveu Erick Fabricio Coello Saltos, de 27 anos, que perdeu 90% da visão esquerda e sofreu danos irreparáveis nos dois tímpanos: o esquerdo perfurado e o direito está perdido.
A TRIPULAÇÃO ATERRORIZADA DIANTE DE UM NOVO ATAQUE
Os pescadores afirmam que drones continuaram sobrevoando a área após as explosões, diante da ameaça de um novo ataque. “Imagens de celular do período posterior ao ataque mostram a tripulação aterrorizada reunida na popa do navio, com um alarme soando enquanto um deles acena com uma camisa branca. Um homem parece estar limpando sangue do nariz”, registra o The Guardian.
Palacios recorda que, quando a tripulação estava a bordo da embarcação de patrulha, seus telefones foram confiscados e a maioria das fotos e vídeos dos ataques foram apagados pelos norte-americanos, que também roubaram toda a comida e a cerveja.
“VIMOS O NAVIO QUEIMAR”
Quando Palacios olhou para trás, para o Don Maca, ele já estava em chamas. “Vimos o navio queimar”, lamenta.
A tripulação da lancha de patrulha falava inglês entre si e usava um tradutor para se comunicar com os equatorianos. “Desde o momento em que chegamos à lancha de patrulha estadunidense, eles apontavam armas para nós, gritando: ‘Entrem, entrem’”, disse Palacios, de 54 anos. “Eles nos algemaram, colocaram capuzes sobre nossas cabeças e nos empurraram. Estávamos apavorados, com medo de que nos matassem”.
Segundo o testemunho dos pescadores, eles foram detidos por várias horas pela embarcação norte-americana antes de serem transferidos para uma lancha de patrulha salvadorenha e, após mais alguns dias no mar, finalmente para El Salvador, onde foram levados para uma base militar e interrogados. Posteriormente, foram entregues às autoridades de imigração e levados para um abrigo das Nações Unidas.
“De volta para casa, suas famílias realizaram uma busca desesperada, frustradas pelo silêncio e pela falta de informações oficiais sobre o desaparecimento”, narra o jornal, explicando que finalmente os pescadores foram devolvidos, “onde foram libertados sem acusações”.
O Pentágono e a Casa Branca não responderam aos pedidos de justificativa. O Comando Sul dos EUA declarou não ter “nenhuma informação a fornecer sobre o envolvimento de qualquer membro do governo americano em qualquer um dos incidentes” e seu marionete Daniel Noboa não prestou qualquer crítica aos sucessivos atropelos cometidos.
Um advogado que representa a tripulação afirma que o relato deles aponta para inúmeras e graves violações do direito internacional. “Um navio americano os interceptou e os obrigou a embarcar. Assim que foram detidos, seu barco de pesca foi explodido”, protestou Fernando Bastias Robayo, advogado do Conselho de Direitos Humanos (CDH).
“PESCADORES ARBITRARIAMENTE ENCAPUZADOS. UMA FORMA DE TORTURA PSICOLÓGICA”
“Eles foram arbitrariamente encapuzados e posteriormente abandonados na costa salvadorenha. Qualquer apreensão seguida de detenção em regime de incomunicabilidade constitui um desaparecimento forçado. Era uma forma de tortura psicológica, não saber o que realmente ia acontecer com a sua vida e ter o rosto coberto”, acrescenta o advogado.
“Desde o início de setembro, contabilizamos 49 ataques”, explicou Adam Isacson, diretor de supervisão do Wola, descrevendo que “o número de embarcações é maior, porque alguns incidentes envolvem várias embarcações, e nosso total de mortos chega a 178. Só entre 11 e 15 de abril, ocorreram cinco ataques”.
“Nunca identificam a droga, quase nunca identificam o grupo armado com o qual suspeitam que estejam trabalhando, e nunca há qualquer evidência de drogas sendo encontradas na água. Na prática isso significa violar todos os tipos de leis e matar pessoas por mera suspeita”, concluiu Adam Isacson.











