O presidente colombiano e o candidato do Pacto Histórico alertaram para a inclusão indevida de 800 mil títulos de eleitor pela empresa dos irmãos Bautista e chamam à mobilização do país para um segundo turno contra o retrocesso fascista e neoliberal do trumpista Espriella
LEONARDO WEXELL SEVERO, DE BOGOTÁ/COLÔMBIA
COLABORAÇÃO DE VANESSA MARTINA-SILVA
“A chamada contagem transmitida [conteo transmitido] não tem força legal. Seus dados não são de domínio público. Como presidente, não aceito os resultados da contagem preliminar da empresa privada pertencente aos irmãos Bautista [donos da empresa Thomas Greg & Sons]”, foi taxativo Gustavo Petro na noite deste domingo (31), propondo uma rigorosa fiscalização do resultado eleitoral que deu ao milionário advogado de narcotraficantes, Aberlado de la Espriella, 43,7% dos votos contra 40,9% do candidato do Pacto Histórico, Iván Cepeda.
É necessário estar vigilante na defesa da democracia, esclareceu Petro, “porque apesar dos algoritmos do software de contagem e apuração deverem permanecer estáticos, foram alterados três vezes na última semana, adicionando 800 mil títulos de eleitor pertencentes a pessoas não incluídas no censo oficial”.
O que está comprovado, denunciou o presidente da Central Unitária de Trabalhadores, Fábio Arias, é que esta empresa dos irmãos Bautista “manejou passaportes e transporte de documentos de segurança de caráter civil e comercial por mais de 20 anos, dispondo da base de dados e de todos os registros de 50 milhões de colombianos”.
O alerta fala por si, alertou Gustavo Petro, uma vez que, “atualmente, existem dois censos: o oficial e o produzido pelo software dos irmãos Bautista, que inclui 800 mil pessoas adicionais”. “As seções eleitorais que já foram contestadas demonstram que centenas de milhares de votos foram adicionados sem a existência de eleitores registrados”, frisou.
Portanto, e de acordo com a lei, enfatizou Petro, “os resultados vinculativos que o presidente considerará e aceitará são os das comissões eleitorais supervisionadas pelos juízes da República”.
“NOSSAS ANCESTRALIDADES NÃO ACEITAM TAL RESULTADO”
“Nossas ancestralidades não aceitam o resultado do dia de hoje, temos que revisar”, se somou à candidata à vice-presidente, Aida Quilcué, de forma altiva no salão do hotel Tequendama, ao lado de cada um dos movimentos sociais e populares que vitaminaram a jornada histórica que consolidaram o “projeto político de vida, dignidade e mudança”, Ela deixou claro que “é hora de seguir avançando”, tornando-se imprescindível “redobrar esforços, pois não podemos voltar à morte e à exclusão”.
“Precisamos continuar construindo esse caminho de pontes e paz, avançando no diálogo nacional. Como Iván, estou tranquila porque sei que ganharemos. Visitaremos cada casa, percorreremos os rios e as montanhas, assim como fizeram com as canoas, porque nesse país têm que seguir florescendo a vida”, declarou.
Em seu pronunciamento, Iván Cepeda assinalou que “há duas situações que, neste momento, são bastante confusas”. “O presidente da República acaba de se pronunciar de maneira clara sobre uma delas, uma defasagem que queremos verificar em torno do censo eleitoral”, disse o candidato governista, já que “essa não é uma defasagem qualquer: estamos falando de 885 mil pessoas ou cédulas”.
Mas, em segundo lugar, acrescentou Cepeda, “existem informações e indícios sobre um número indeterminado de mesas”, o que torna importante verificar, “com nosso mecanismo de segurança e observação eleitoral, de quantas mesas se trata exatamente”, nas quais, conforme os primeiros informes, “houve votações atípicas”.
Assim, deixamos claro de uma vez diante da opinião pública, asseverou Iván Cepeda: ‘nós só nos pronunciaremos sobre os resultados desta noite quando as comissões apuradoras deixarem este assunto totalmente esclarecido, nítida e rigorosamente esclarecido”.
Aclamado ao coro de “direitos sim, direita não”, Cepeda reiterou o compromisso com a soberania e a democracia, alertou para a intromissão de governos estrangeiros no processo eleitoral e de como “o senhor De la Espriella representa o regresso ao passado parapolítico, narcotraficante, mafioso, plutocrático e corrupto que o país viveu sob os dois governos de Álvaro Uribe, reforçado hoje pela extrema-direita internacional”.
Pela sua relevância e transcendência, a ComunicaSul reproduz na íntegra o discurso de Iván Cepeda, candidato das forças progressistas, que se levantam para realizar um segundo governo de distribuição de renda, reforma agrária e paz.
Colombianas e colombianos, queridas companheiras e queridos companheiros, nossa vida tem sido uma luta incessante.
Nós a travamos sem pausa e nas piores circunstâncias. Nos momentos mais difíceis, soubemos seguir adiante.
Sobrevivemos a genocídios, enfrentamos as piores perseguições, e tentaram dizimar muitas das organizações às quais pertencemos. E reduzi-las ao exílio ou à morte. E aqui estamos. Hoje obtivemos 10 milhões de votos mal contados na Colômbia.
Somos a principal força política, sem dúvida.
QUESTIONAMENTOS SOBRE O PROCESSO ELEITORAL
Antes de entrar em qualquer outro assunto, deixemos isso claro. Há duas situações que, neste momento, são bastante confusas. O presidente da República acaba de se pronunciar de maneira clara sobre uma dessas situações, uma defasagem que queremos verificar em torno do censo eleitoral.
E essa não é uma defasagem qualquer: estamos falando de 885 mil pessoas ou cédulas. Queremos, queremos, porque somos gente séria, que isso fique claro. Primeiro assunto.
Mas, em segundo lugar, existem informações e indícios sobre um número indeterminado de mesas.
Estamos verificando, com nosso mecanismo de segurança e observação eleitoral, de quantas mesas se trata exatamente, nas quais, segundo os primeiros informes, houve votações atípicas.
Assim, deixamos claro de uma vez diante da opinião pública: só nos pronunciaremos sobre os resultados desta noite quando as comissões apuradoras deixarem este assunto totalmente esclarecido, nítida e rigorosamente esclarecido.
(Os manifestantes interromperam sua intervenção clamando “Presidente”)
IRREGULARIDADES E DEFESA DA DEMOCRACIA
Como certamente dirão que não queremos aceitar um resultado na democracia, façamos simplesmente uma revisão rápida, sumária.
Não vou fazer um memorial de atropelos sobre o que ocorreu nestas eleições, consulta ao Pacto Histórico na qual queríamos e fizemos como única força política democrática da Colômbia, o Congresso da República e a presidência.
E, horas antes da consulta, foram mudados de local milhares de postos eleitorais. Centenas de milhares de pessoas não puderam exercer seu direito ao voto por causa dessa situação, que nunca foi esclarecida.
Depois, lembrem-se, estava prevista uma consulta interpartidária. O Conselho Nacional Eleitoral vetou minha candidatura, mas com uma peculiaridade adicional: outro candidato que estava na mesma consulta foi admitido.
A ele não aplicaram a mesma argumentação, supostamente jurídico-legal que aplicaram a mim por eu já ter participado de uma consulta interna. Pelo contrário, permitiram que o outro candidato participasse sem nenhum problema. Então, como se explica isso?
“AUTORIDADES, INCLUSO GOVERNOS ESTRANGEIROS METEM A MÃO EM NOSSAS ELEIÇÕES”
Como se explicam todas essas irregularidades que têm se apresentado. E acrescento uma terceira: autoridades, inclusive governos estrangeiros, estão metendo a mão em nossas eleições, como ocorreu com o senhor presidente [do Equador, Daniel] Noboa, motivado ou certamente articulado e tramado com o senhor [Abelardo] de la Espriella, a quem dedicarei agora algumas palavras.
(Aplausos em apoio a Cepeda)
É claro, não é outra coisa senão uma intervenção vulgar, aberta e descarada em nosso processo eleitoral, concretamente no sul do país, onde se sabe que temos uma votação significativa.
Assim, não estamos inventando nenhuma classe de desculpa para não reconhecer resultados. Estamos pedindo, na democracia, que as comissões apuradoras façam seu trabalho e que saibamos com clareza qual foi, até o último voto, a votação que obtivemos no território nacional no dia de hoje.
(Presidente! Presidente! Presidente!)
UMA CAMPANHA AUSTERA E RESPEITOSA
Que campanha fizemos até o dia de hoje? Acaso a nossa campanha foi a dança dos milhares de milhões de pesos, como vimos que outras campanhas presidenciais gastaram?
Entre elas, a de Alberto de la Espriella, sobre o qual eu gostaria que fosse feita uma auditoria séria para saber quanto investiu em todo o dinheiro que foi para as redes sociais e nas denúncias de compra de votos por parte de sua campanha em diferentes lugares do país. A nossa campanha foi totalmente austera.
“Junto a Aida Quilcué não apelamos às campanhas sujas dos meios de comunicação ou nas redes sociais”
Nós respondemos às calúnias e às armações feitas contra nós, simples e francamente, junto a Aída Quilcué, com argumentos e com razões. Não apelamos ao desrespeito nem à calúnia, muito menos às campanhas sujas nos meios de comunicação ou nas redes sociais.
Cumprimos o princípio de fazer uma campanha austera, respeitosa, honesta, ética. Fizemos isso e continuaremos fazendo. Fizemos isso.
Fizemos nossa campanha com a mobilização das pessoas em Medellín, por exemplo, onde reunimos dezenas de milhares de pessoas apesar das ações violentas da extrema-direita.
MÉTODOS VIOLENTOS E CRIMINOSOS DE URIBE
Ou, por exemplo, apesar de a vereadora que passeava pela cidade com um taco ameaçando nossa militância e nossos dirigentes. E quem incentivava esse tipo de ação criminosa e truculenta? Obviamente, o chefe da extrema-direita, o senhor Álvaro Uribe, que só sabe fazer as coisas assim, com métodos violentos e criminosos. É preciso dizê-lo claramente.
Mas agora, antes de me referir a isso, está claro, quero expressar meu maior agradecimento aos movimentos sociais, às pessoas comuns, a todas as organizações populares, a todos os sindicatos, a quem Aída já saudou em sua intervenção, à minha equipe, a todos os que participaram desta campanha, porque, com esforço e imaginação, conseguimos obter uma votação tão significativa como a que, repito, hoje temos diante do país, ainda mal contada.
Vamos ganhar no segundo turno, que não haja dúvida.
RUMO AO SEGUNDO TURNO
Desde esta mesma noite, vamos encaminhar todos os nossos esforços para reunir e congregar as forças necessárias para derrotar, com uma clara verificação eleitoral, o senhor Abelardo de la Espriella.
Quem é o senhor de la Espriella?
Breve biografia, dados conhecidos, não estou inventando.
Ele foi advogado dos senhores paramilitares em San José de Ralito, filho de um tabelião que legalizou bens do senhor Salvatore Mancuso.
“De la Espriella é advogado estelionatário de narcotraficantes, representa o fascismo mafioso”
Foi advogado de narcotraficantes e estelionatários, aos quais enganou. É um estelionatário de estelionatários, estelionatário de narcotraficantes.
De la Espriella representa, para que não fiquemos dando voltas em torno disso, e para dizê-lo com toda clareza, o fascismo, mas o fascismo mafioso.
Que saibam claramente hoje aqueles que duvidam do que ele representa e de qual é seu projeto. Porque qual é o projeto que essa extrema-direita fascista expressa, não somente hoje na Colômbia, mas no mundo?
Vou dizer com clareza: sob um eventual mandato do senhor de la Espriella, os alcances, avanços e conquistas de nosso governo serão pulverizados.
Não ao salário vital, não à reforma agrária, não ao apoio à educação pública e à matrícula zero. Não haverá mais apoio à juventude, mas apoio, simples e francamente, aos círculos mais decompostos e mais poderosos do ponto de vista econômico da sociedade colombiana.
Plutocracia e corrupção: isso é o que representam o senhor De la Espriella e seu projeto político.
O senhor de la Espriella deixou isso claríssimo. Para ele, a natureza, os seres vivos, os animais são objetos, no máximo, de diversão. E de uma diversão cruel, como mostram vídeos que todas e todos vimos.
Assim, não esperemos dele nenhuma medida favorável ao ambiente, à proteção da água, à preservação da riqueza natural e dos santuários ecológicos de nosso país.
O que nos espera com o senhor de la Espriella, se ele chegasse a tentar governar este país, é a destruição total da natureza e da vida na Colômbia.
Diversidade sexual, respeito pelas mulheres? Não. O senhor de la Espriella é um misógino e é um homofóbico, digamo-lo com clareza.
“De la Espriella representa o regresso ao passado parapolítico, plutocrático e corrupto de Álvaro Uribe”
O senhor De la Espriella representa o regresso ao passado parapolítico, narcotraficante, mafioso, plutocrático e corrupto que o país viveu sob os dois governos de Álvaro Uribe, reforçado hoje pela extrema-direita internacional.
Esse é o projeto ao qual vamos nos opor neste segundo turno.
Não vamos permitir que a Colômbia seja entregue e arrebatada pela ideologia e pelas práticas criminosas do fascismo mafioso crioulo. Isso não permitiremos, e convido todos e todas a cerrar fileiras desde esta noite para evitar que isso ocorra na Colômbia e para que sigamos adiante com o processo de transformação.
Não nos cabe dúvida de que muitos setores hoje querem vir pela vida e quero saudar especialmente esta noite o partido Aliança Verde, a Em Marcha, os liberais, todos e cada um deles que nos acompanharam e com quem construímos este processo.
Assim, na realidade, hoje temos que fazer uma aliança pela vida. Quem ama a vida, quem a respeita, quem quer que, na Colômbia, o projeto político que siga adiante seja o da vida e não o da morte, que se coloque deste lado, que é o lado correto.
O PAPEL DECISIVO DA JUVENTUDE
E especialmente a juventude. Chamo a juventude, as e os jovens que têm sido vitais, indispensáveis na transformação de nossa sociedade.
Hoje me dirijo a vocês: de vocês depende o futuro de nossa nação. Venham aqui, vamos trabalhar, reforcem a coalizão juvenil muito importante que já temos deste lado, porque vocês definirão a eleição de segundo turno.
Então, com todo o entusiasmo, com toda a serenidade, com todo o poder político que representamos, com toda a experiência que acumulamos ao enfrentar dificuldades, esta noite lhes digo com toda a convicção: a luta continua e vai triunfar.
E vou ser presidente no segundo turno!
Esta cobertura da Agência ComunicaSul de Comunicação Colaborativa só foi possível graças ao apoio do Sindicato dos Bancários de São Paulo; Sindicato dos Escritores do Estado de São Paulo; jornal Hora do Povo; Vermelho; Diálogos do Sul Global; Correio da Cidadania; Barão de Itararé; vereador Werner Tempel (PCdoB) de Santa Maria-RS; Professor Azuaite, de São Carlos-SP; Instituto Angelim, além de vários contribuintes anônimos











