O presidente colombiano acusou Trump de tentar impor um “mequetrefe de Miami, defensor de narcoterroristas para acabar com tudo o que fizemos nestes quatro anos de governo”
LEONARDO WEXELL SEVERO, DE BOGOTÁ/COLÔMBIA
COM A COLABORAÇÃO DE CAIO TEIXEIRA
“Nem com bilhões de dólares americanos para comprar votos eles vão nos impor mequetrefes de Miami, defensores de narcoterroristas. Triste o país que pensa levar à Casa de Nariño aqueles que ajudam os genocidas”, asseverou o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, ovacionado pela multidão que tomou a Praça María Varilla, em Montería, capital de Córdoba, nesta sexta-feira (5). “Não pode defender a Pátria quem se ajoelha aos gringos e ao narcotráfico”, enfatizou.
Na festividade marcada pelo ritmo tradicional da costa caribenha, o “porro”, Petro apresentou os inúmeros avanços da Reforma Agrária a comunidades camponesas, lembrando que seu governo adquiriu um milhão de hectares para incorporá-los à entrega de terras às famílias produtoras e assinalou que parte delas já foi repassada às mãos dos trabalhadores rurais.
A fim de acabar com esses avanços, advertiu o líder colombiano, o governo dos Estados Unidos quer fazer uso de uma marionete “para acabar com tudo o que fizemos nesses quatro anos e se desesperam se forem oito [com a eleição de Iván Cepeda]”. Assim, alertou, “querem nos impor um jovenzinho de Miami que não conhece a Colômbia, que pretende devolver o poder aos paramilitares assassinos”.
“Ou combatemos o narcotráfico, ou vocês levarão o narcotráfico para a Casa Branca para fazer leis sobre os povos da América Latina com os mesmos narcotraficantes”, acrescentou, referindo-se a Trump e a Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA.
“A decisão do povo da Colômbia é a única coisa firme. Liberdade e vida!”, exclamou, conclamando a população a participar massivamente do segundo turno das eleições presidenciais no próximo dia 21, que opõe o candidato progressista e histórico lutador pelos direitos humanos, Iván Cepeda, e o milionário Abelardo de la Espriella, que fez fortuna defendendo criminosos da pior espécie.
Queremos trazer os fantasmas da morte e da injustiça para a Casa de Nariño para governar a Colômbia nas trevas? Não podemos”
“Queremos trazer os fantasmas da morte e da injustiça para a Casa de Nariño para governar a Colômbia nas trevas? Não podemos. Se eles vencerem, estarei novamente nas ruas, arriscando minha vida com meu povo, defendendo mais uma vez a justiça social, a democracia, o poder do povo e as conquistas que alcançamos”, reforçou Petro.
Condenando na quinta-feira (4) a explícita interferência do governo estadunidense no processo eleitoral colombiano, Petro disse que “seus aliados vêm do regime narco-paramilitar; são genocidas e narcotraficantes. E eu provei isso durante dez anos no Congresso”. “O que eles estão impondo é uma política ideológica que divide o mundo entre aqueles que pensam como eles e os que pensam diferente, como nós. Querem ajudar a levar o crime ao poder político na Colômbia”, denunciou.
Na declaração divulgada pela Casa Branca, Trump diz que “Abelardo enfrentará um marxista de esquerda radical no segundo turno, em 21 de junho”, o que torna “os resultados desta eleição muito importantes para o futuro da Colômbia e para sua relação com os Estados Unidos”. “Devido às suas enormes realizações na vida e ao seu apoio político pessoal (o milionário é um histórico colaborador do Partido Republicano, além de cidadão estadunidense), é uma honra conceder a Abelardo meu apoio total e irrestrito”, garantiu o que se crê presidente do mundo.
“A DIREITA USA A TÁTICA DE GOEBBELS, O COMUNICADOR DE HITLER”
Petro considera que é para construir um caminho de submissão e alienação que os fascistas e neoliberais buscam nos “tutelar” com a manipulação da sua mídia hegemônica, com “mentiras sobre mentiras, pois essa era a tática de Goebbels, o comunicador de Hitler para o povo alemão”. “O resto é um convite para o suicídio nacional, para escolher os carrascos do narco-paramilitarismo”, sintetizou.
Exortando todos ao bom combate, Petro esclareceu que não há dois caminhos nas próximas eleições, que os colombianos devem definir entre “Mussolini ou as brigadas de Giuseppe Garibaldi”. “Nós somos os camisas vermelhas de Garibaldi e não os sepulcros da máfia. Respeitem a Colômbia!”, reafirmou.
É trágica e incestuosa a relação entre o narcotráfico e as milícias, como bem conhecemos. O renomado sociólogo colombiano Francisco Leal documentou que “o narcotráfico, de mãos dadas com o paramilitarismo, consolidou-se na década de 1980, com o olhar permissivo de algumas elites e setores do Estado e das forças de segurança. Posteriormente, transformou-se em um projeto político, baseado em um imenso lucro econômico, produto de ações criminosas, deslocamento populacional e apropriação de terras”. Isso afogou a Colômbia em um banho de sangue que trouxe ao país mais mortes em democracias de fancaria do que nas ditaduras do Cone Sul.
“Esse projeto político mafioso voltado para o controle do Estado”, que “se materializou com as negociações entre o governo de Álvaro Uribe (2002-2010) e os paramilitares”, foi “não apenas um fenômeno de mobilidade social”, mas também, a “legitimação da ilegalidade e da criminalidade”.
Como ficou evidenciado, Uribe tinha duas cartas na manga e diante da iminente vitória de Cepeda decidiu nas últimas horas rifar Paloma Valencia, com quem tinha inclusive relações bem próximas. Assim foi que Abelardo de la Espriella passou à frente para o segundo turno com 43,7% contra 40,9% de Iván.
AS POLÍTICAS INTERVENCIONISTAS E EXECUÇÕES EXTRAJUDICIAIS DE TRUMP
Em inúmeras ocasiões Trump voltou suas baterias contra a soberania colombiana, ameaçando o uso de políticas intervencionistas, aplicando execuções extrajudiciais contra pescadores que foram assassinados em alto mar – acusados pela Casa Branca de serem “narcotraficantes“ – e reprimindo covardemente a migrantes dentro dos EUA. Além disso, sem qualquer prova, responsabilizou o líder colombiano de “chefão do narcotráfico”, impondo severas sanções financeiras ao povo. Segundo o gângster estadunidense, todo esse massacre seria porque o presidente não teria feito o suficiente para combater o tráfico de drogas.
Toda essa montanha de falsas acusações despejadas sobre Petro vem acompanhada pelo respaldo cínico de governos fantoches de Trump como os do equatoriano Daniel Noboa – que por ser vizinho joga um papel geopolítico importante -; do argentino Javier Milei, do chileno José Antonio Kast e do salvadorenho Nayib Bukele, cujas tragédias sociais têm se tornado realidades cada vez mais visíveis.
Por ironia, mentiras usadas contra o líder colombiano após a revelação do escândalo do Hondurasgate (que explicitam a ingerência norte-americana nas democracias da região). A ação criminosa foi o vazamento de gravações de áudio que ligam o atual presidente de Honduras, Nasry Asfura ao ex-presidente Juan Orlando Hernández (JOH), condenado a 45 anos de prisão nos Estados Unidos pelo tráfico de 500 toneladas de cocaína entre 2004 e 2022 – transformando seu país em um narcoestado – e a vice-presidente María Antonieta Mejía, além de membros do Congresso hondurenho.
As gravações revelam uma trama de ramificação internacional, na qual JOH aparece como o principal operador político para fortalecer a influência dos EUA na América Latina e “erradicar a esquerda”. Um dos pontos mais escabrosos diz respeito à criação de uma estrutura digital dentro dos EUA para disseminar desinformação contra governos progressistas na região.
Numa das gravações fica explicitado que Juan Orlando Hernández foi incumbido de criar uma plataforma digital ou veículo de notícias nos Estados Unidos, que seria coordenado por setores ligados a Trump. A publicação de dossiês com o objetivo de atacar politicamente a presidente do México, Claudia Sheinbaum, e o da Colômbia, Gustavo Petro, também é mencionada.
De forma vexaminosa, JOH foi libertado de uma prisão norte-americana, com o indulto de Trump no dia primeiro de dezembro de 2025, exatas 24 horas após os EUA terem eleito o seu candidato presidencial em Honduras, Nasry Asfura, do Partido (Anti) Nacional.
URIBISMO, NARCOTRÁFICO E PARAMILITARISMO DE MÃOS DADAS
O renomado sociólogo colombiano Francisco Leal documentou que “o narcotráfico, de mãos dadas com o paramilitarismo, consolidou-se na década de 1980, com o olhar permissivo de algumas elites e setores do Estado e das forças de segurança. Posteriormente, transformou-se em um projeto político, baseado em um imenso lucro econômico, produto de ações criminosas, deslocamento populacional e apropriação de terras”. “Esse projeto político mafioso voltado para o controle do Estado”, que “se materializou com as negociações entre o governo Uribe e os paramilitares”, foi “não apenas um fenômeno de mobilidade social”, mas também, a “legitimação da ilegalidade e da criminalidade”.
Em outras palavras, resume o professor universitário Carlos Arcila, “De la Espriella, que fala descaradamente de democracia, foi no passado um fervoroso defensor da máfia – isto é, um defensor do crime organizado ou da máfia – e é esse o candidato que pretende governar a Colômbia”. “Isso não é democracia; isso é mafiocracia”, concluiu.
Esta cobertura da Agência ComunicaSul de Comunicação Colaborativa só foi possível graças ao apoio do Sindicato dos Bancários de São Paulo; Sindicato dos Escritores do Estado de São Paulo; jornal Hora do Povo; Vermelho; Diálogos do Sul Global; Correio da Cidadania; Barão de Itararé; vereador Werner Tempel (PCdoB) de Santa Maria-RS; Professor Azuaite, de São Carlos-SP; Instituto Angelim, da Internacional dos Serviços Públicos (ISP) e da Central Unitária de Trabalhadores da Colômbia, além de vários contribuintes anônimos.
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