“Quando um país intervém nas decisões de outro, morre a liberdade”, afirmou o presidente colombiano, condenando o pronunciamento do títere estadunidense em favor do advogado de narcotraficantes Abelardo de la Espriella
LEONARDO WEXELL SEVERO, DE BOGOTÁ/COLÔMBIA
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, respondeu de forma enérgica nesta terça-feira (2) às ingerências e provocações de Donald Trump contra a candidatura do senador Iván Cepeda, do Pacto Histórico e da Aliança pela Vida, e em favor do milionário advogado de narcotraficantes Abelardo de la Espriella.
“Quando um país interfere nas decisões de outro, a liberdade morre. Convido toda a Colômbia a votar livremente e a não se tornar escrava ou colônia de ninguém”, afirmou Petro, recordando toda uma geração de jovens homens e mulheres que lutou ao lado de Simón Bolívar e Antonio Nariño “para nos dar liberdade e soberania”. “Se o coração do mundo perder sua liberdade e soberania, a esperança do mundo e da Colômbia se extinguirá”, enfatizou.
O vice-ministro das Relações Exteriores para Assuntos Multilaterais, Mauricio Jaramillo Jassir considerou a declaração de Trump “um ataque à Colômbia”. De acordo com Jassir, o anúncio também representa uma agressão “às instituições, ao povo e à soberania”.
Rechaçando tamanha desfaçatez da extrema-direita, Cepeda tem condenado o intervencionismo estrangeiro e frisado que “a Colômbia não é protetorado nem colônia”. Daí, ressaltou o candidato das forças nacionalistas e progressistas, de estarmos unidos e mobilizados para derrotar o uribismo fascista, encarnado em figuras abjetas como de la Espriella, que “representa a justificativa dos piores crimes que foram perpetrados nas últimas décadas, não só o massacre de jovens, a perseguição dos povos indígenas e o desprezo aos pobres, mas também as políticas neoliberais que empobreceram milhões e, igualmente, a criminalização dos diálogos de paz”.
“CEPEDA TEM HISTÓRICO LIMPO E NACIONALISTA”, AFIRMOU EX-PRESIDENTE SAMPER
O ex-presidente Ernesto Samper (1994-1998), ridicularizou o respaldo de Trump à “imoral candidatura” de Abelardo de la Espriella como “vulgar e inaceitável intervenção nos assuntos internos do país”.
Integrante da Aliança pela Vida, Samper recordou que “essa agressiva intromissão agressiva na democracia colombiana, já repetida em diversos países da América Latina, deve ser rejeitada por todos os colombianos nas próximas eleições, votando na defesa da nossa soberania liderada por Iván Cepeda e seu histórico limpo e nacionalista”.
Além da interferência pública e notória no sistema midiático – seja através dos grandes meios de comunicação ou da manipulação de fakenews nas redes sociais – como comprovado pelo Hondurasgate, Trump desta vez decidiu dar os “parabéns” a “El Tigre” (O Tigre), como se empenha em publicizar a figura de Abelardo de la Espriella, “por sua vitória decisiva no primeiro turno das eleições presidenciais colombianas”.
Segundo Trump, reconhecido por sua imensa capacidade intelectual, “Abelardo é um líder inteligente, forte e determinado”, que “luta incansavelmente por seu grande país e seu povo”. Como presidente, disse, “teria enorme sucesso em liderar a Colômbia rumo ao crescimento econômico, à criação de empregos, à promoção do comércio, ao combate à imigração ilegal, à repressão ao crime e às drogas e à restauração da lei e da ordem!”. De forma inédita, seria o primeiro advogado de narcotraficantes que combateria seu próprio negócio e priorizaria seu país e sua gente.
TRUMP: “HONRADO EM CONCEDER APOIO TOTAL E IRRESTRITO A ABELARDO”
Em tom alucinado, o chefe da Casa Branca alertou que “Abelardo enfrentará um marxista de esquerda radical no segundo turno, em 21 de junho” e chantageou a todos, lembrando que “os resultados desta eleição são muito importantes para o futuro da Colômbia e para sua relação com os Estados Unidos”. “Devido às suas enormes realizações na vida e ao seu apoio político pessoal (o milionário é um histórico colaborador do Partido Republicano, de Trump, além de cidadão estadunidense), “é uma honra conceder a Abelardo meu apoio total e irrestrito”.
À la Bolsonaro, o fantoche colombiano agradeceu emocionado nesta quarta-feira (3) tão desinteressada manifestação, assegurando que “nos uniremos ao Escudo das Américas” – coalizão militar e policial conjunta liderada pelos Estados Unidos para frear a migração irregular, o suposto “tráfico” e a influência da China no continente.
“Em você, reconheço um líder de resolução inabalável, que não cede a modismos ideológicos nem aos inimigos da liberdade”, escreveu De la Espriella – em espanhol e inglês, que tem nacionalidade estadunidense por ter morado 15 anos no país. Conforme o candidato a títere, com Trump “compartilhamos a sagrada defesa da propriedade privada e do livre comércio”.
“Defendemos a liberdade, formamos uma frente unida contra o comunismo que busca envenenar nossas repúblicas e nos uniremos à Aliança do Escudo das Américas para que a estrela da liberdade jamais se apague neste hemisfério”, declarou em uma mensagem acompanhada da imagem de um tigre ao lado de uma águia, símbolo do imperialismo.
POPULAÇÃO DESAPROVA INTROMISSÃO DOS ESTADOS UNIDOS
Nas ruas de Bogotá, várias pessoas ouvidas pela reportagem bateram forte na “intromissão de Trump”, por considerarem que “este é um papel que não lhe cabe, principalmente pelo histórico de invasões e saques promovidos pelo país do norte”. Como assinalou Luis Carlos Florez Oliveira, trabalhador da Ecopetrol, “os Estados Unidos é um país estrangeiro que deve respeitar a soberania colombiana e dos demais”. “O que Trump quer é invadir países para roubar seu petróleo e seu ouro e isso não podemos permitir”, disse.
Para a empresária hoteleira Diana Patricia Rojas, “Trump está fazendo uma pressão política pelo candidato que mais lhe interessa”. “Por tudo o que já se conhece de seu passado, Abelardo de la Espriella não é um sujeito que se pode confiar. Não tem porque Trump se imiscuir em algo que diz respeito somente ao povo colombiano”, assinalou.
“A soberania está no nosso marco constitucional e precisa ser respeitada. Defendemos alianças, mas que tenham regras para melhorar a vida dos povos. O que Trump fez na Venezuela ou a sanção adotada há décadas contra Cuba deixa claro que não estão pensando no que é melhor para a Colômbia, mas para suas próprias empresas”, advertiu José Luis Galiodo, trabalhador de subsolo.
Para Jhon Garrido Barros, servidor de entidades públicas de saúde, “a intromissão de Trump é permanente em quase todos os países do mundo, porque sua economia está em bancarrota e eles estão desesperados”. “A Colômbia é um país rico em água, carvão e biodiversidade e com Iván Cepeda, assim como foi com Petro, não admitirá a ingerência em sua soberania. Por que Trump não vai à Rússia ou à China questionar o modelo eleitoral deles? Porque sabe que são potências com capacidade de reação política, econômica e militar”, respondeu.
Esta cobertura da Agência ComunicaSul de Comunicação Colaborativa só foi possível graças ao apoio do Sindicato dos Bancários de São Paulo; Sindicato dos Escritores do Estado de São Paulo; jornal Hora do Povo; Vermelho; Diálogos do Sul Global; Correio da Cidadania; Barão de Itararé; vereador Werner Tempel (PCdoB) de Santa Maria-RS; Professor Azuaite, de São Carlos-SP; Instituto Angelim, e da Central Unitária de Trabalhadores da Colômbia, além de vários contribuintes anônimos.
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