A ONG (ICB), que recebeu os R$ 108 milhões do órgão, é da mesma dona da produtora que recolheu dinheiro para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro
A Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, da Prefeitura de São Paulo, notificou a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB) para que apresente, no prazo de 30 dias, justificativas técnicas para notas suspeitas que somam quase R$ 13 milhões no contrato de instalação de wi-fi na capital paulista.
A ONG que deveria implantar os pontos de internet tem como proprietária a empresária Karina Ferreira da Gama, que, coincidentemente, também é produtora do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro (PL). A sede da ONG é a mesma da produtora que recebeu dinheiro público roubado por Daniel Vorcaro, no escândalo do Banco Master.
A Polícia Civil de São Paulo está investigando um convênio entre a ONG de Karina e a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, da Prefeitura, no valor de R$ 108 milhões. No documento chamado “Notificação de Inconsistências e Solicitação de Regularização na Prestação de Contas – 1º Semestre de 2025”, a prefeitura pede que Karina devolva de imediato R$ 906 mil aos cofres públicos referentes a notas fiscais canceladas.
A prefeitura está exigindo também a apresentação de documentos e justificativas para outros R$ 12 milhões em gastos apresentados nas notas fiscais suspeitas na prestação de conta do período. O ICB apresentou à prefeitura notas fiscais canceladas ou em desacordo com a legislação para justificar despesas do contrato de R$ 108 milhões destinado à instalação de pontos de internet gratuita nas periferias da cidade.
A análise da prefeitura sobre as notas do ICB foi divulgada quase um ano depois de a empresária, dona da ONG, entregar os documentos, o que ocorreu, em 30 de junho de 2025, e após diversos veículos de imprensa apontarem problemas nas prestações de contas desde junho de 2024.
Além da Polícia Civil, o Ministério Público de SP também investiga os desvios da ONG. Em 1° de junho, o ICB e outras empresas que prestaram serviço à entidade foram alvo de busca e apreensão por parte da 2.ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública, Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro (Dicca).
Entre as notas fiscais apresentadas pelo ICB, cuja devolução dos recursos aos cofres municipais é cobrada pela prefeitura, estão três notas canceladas da empresa JR Feijão Ltda., do Ceará, que somam ao menos R$ 406.752,50. Outra nota apresentada e que aparece cancelada é a da empresa Favela Conectada Serviço de Tecnologia Ltda., que pertencia ao empresário Alex Bispo do Santos até dezembro de 2025. Esta empresa é suspeita de ter ligações com o PCC.
Alex está preso por suspeita de feminicídio. Ele é apontado pelo Ministério Público como sendo membro do Primeiro Comando da Capital (PCC). Ele seria conhecido dentro da facção como “escorpião do PCC”.
Segundo a notificação da secretaria, uma nota de R$ 500 mil emitida em 25 de junho de 2025 tem apenas a descrição “Prestação de serviços conforme contrato”, sem especificar o serviço prestado. Esta nota também foi cancelada no sistema da prefeitura e não tem mais valor fiscal, mas também foi inserida na prestação de contas entregue por Karina da Gama.
Em nota, a secretaria disse que “a fiscalização identificou notas fiscais canceladas referentes a despesas de outras empresas, como Favela Conectada e JR Feijão, e, por essa razão, as despesas correspondentes não podem, por ora, ser consideradas”. No relatório de fiscalização da prefeitura, a Favela Conectada também teve duas notas que somam mais de R$ 1,2 milhão apresentadas sem as devidas especificações do serviço que prestou e que precisam ser esclarecidas.
Além da Favela Conectada, outros R$ 11 milhões em notas de empresas como Make One Tecnologia Digital Ltda, Complexsys Soluções Integradas LTDA e Ultra IP Tecnologia também foram incluídas no grupo de notas suspeitas. Essas três empresas também foram alvo de buscas pela Polícia Civil paulista, no mês passado. “As notas fiscais descritas não especificam as áreas geográficas atendidas e os serviços praticados.










