A Universidade de Buenos Aires (UBA), principal instituto superior do país, ao longo da terça-feira, 15, transferiu suas salas de aula, laboratórios e serviços para a Praça de Maio para denunciar a situação desastrosa enfrentada pelas universidades públicas e exigir o cumprimento da Lei de Financiamento Universitário.
A iniciativa UBA en Acción (UBA em Ação) fez parte de jornada nacional que envolveu todas as 62 universidades públicas do país, mostrando, na prática, o que significam para a sociedade: conhecimento, formação, pesquisa, assistência e serviços que emanam das faculdades e chegam diretamente à comunidade.
O evento contou com aulas abertas ao público e dezenas de tendas onde as diversas faculdades ofereceram seus serviços à multidão que se reuniu até a meia-noite, incluindo atendimento odontológico, clínica médica, optometria e serviços veterinários, além de assessoria jurídica e contábil. Projetos de pesquisa e desenvolvimentos tecnológicos realizados no âmbito universitário também foram apresentados.
A manifestação teve como foco exigir a efetiva implementação da Lei 27.795 sobre Financiamento Universitário e o cumprimento das decisões judiciais relacionadas a sua aplicação. A comunidade universitária denuncia que, apesar das decisões judiciais existentes, persistem dificuldades em relação ao financiamento, salários, bolsas de estudo, pesquisa e ao funcionamento geral das universidades.
DIFERENÇA SALARIAL EM RELAÇÃO À INFLAÇÃO É INSUSTENTÁVEL
Os sindicatos enfatizam que a diferença salarial em relação à inflação acumulada é insustentável. A AGD-UBA e outros sindicatos exigem um reajuste pendente de 33,4%, além do pagamento retroativo dos salários previsto na legislação vigente, o que o governo anti-nacional se recusa a reconhecer.
“Estamos numa situação em que o Poder Executivo não respeita as instituições democráticas e republicanas”, denunciou Adriana Rodríguez, Decana da Faculdade de Agronomia.
Em entrevista ao jornal Página/12, a engenheira agrônoma enfatizou o valor de eventos como a manifestação realizada, pois “um dos principais objetivos da universidade é demonstrar o quanto contribuímos para a sociedade”.
Segundo denunciou, a situação imposta pelo desgoverno de Javier Milei, às universidades tem consequências em todos os níveis. Em relação aos salários, “tivemos vários professores jovens, aproximadamente 10% do corpo docente, que saíram para trabalhar no setor privado ou em países vizinhos, ganhando três ou quatro vezes mais”, revelou Rodríguez sobre a situação na universidade.
Uma tenda muito procurada foi a do programa de Nutrição, que oferecia assessoria nutricional a todos os presentes, de acordo com suas necessidades e limitações de recursos e tempo. “A maioria das pessoas que vieram eram aquelas que não têm acesso a muita comida porque estão desempregadas ou têm salários muito baixos. Então, tentamos encontrar as opções mais econômicas, ou, se elas recebem algum tipo de auxílio ou assistência alimentar, aproveitamos isso e encontramos maneiras de tornar a comida o mais nutritiva e saudável possível”, disse Sol Acuña, estudante do quarto ano, que ficou muito feliz em ver “esse orgulho da UBA refletido em retribuir à comunidade, aproveitando tudo o que recebemos de forma pública e gratuita”.
Já as Faculdades de Ciências Exatas e Engenharia apresentaram projetos de inovação tecnológica — incluindo protótipos para competição desenvolvidos inteiramente pela comunidade acadêmica —, enquanto as áreas de Direito e Ciências Econômicas estabeleceram consultorias jurídicas e contábeis abertas ao público.
TRATAMENTO ODONTOLÓGICOS PRESTADO
Das 8h da manhã à meia-noite, milhares de pessoas visitaram as clínicas móveis da Faculdade de Odontologia para receber tratamentos de canal, obturações, próteses e extrações. O atendimento foi prestado por membros do corpo docente, em sua maioria assistentes que, segundo o decano Pablo Alejandro Rodríguez, “em nossa faculdade temos 1.700 assistentes que hoje ganham 43% a menos que a média histórica”.
O dentista também afirmou que “as patologias que vemos são numerosas, porque a verdade é que o país tem um estado de saúde bucal bastante precário”. Um dos fatores reconhecidos pelo decano “é a crise econômica, que faz com que as pessoas negligenciem seus cuidados odontológicos até que surja uma emergência, deixando a situação geral muito ruim”, explicou.
Esta ação frente à Casa Rosada constituiu o antecedente direto da quinta Marcha Federal Universitária, projetada para a primeira semana de outubro, onde a comunidade acadêmica nacional prevê uma mobilização massiva para frear o esvaziamento da educação pública.











