FRANCIS BOGOSSIAN
A recente aquisição da mineradora brasileira Serra Verde por uma empresa com participação estatal dos Estados Unidos — a USA Rare Earth — não é apenas uma operação empresarial. Trata-se de um movimento geopolítico de grande envergadura, inserido na disputa global por minerais estratégicos que sustentam a economia do século XXI. O episódio exige reflexão e, sobretudo, ação.
As chamadas “terras raras” — um conjunto de elementos químicos essenciais à produção de ímãs permanentes, semicondutores, turbinas eólicas, veículos elétricos e sistemas de defesa — tornaram-se o novo “petróleo” da era digital. Hoje, a China domina a cadeia global, respondendo pela maior parte do processamento e da produção de ímãs de alta performance. Em resposta, os Estados Unidos vêm estruturando uma estratégia agressiva de reindustrialização e segurança nacional, na qual o controle dessas cadeias produtivas é central.
É nesse contexto que se insere a aquisição da Serra Verde. Localizada em Goiás, a mina de Pela Ema é considerada um ativo singular: poderá responder por mais da metade da produção mundial de terras raras pesadas fora da Ásia até 2027. Ao assumir o controle desse ativo, a empresa americana — com apoio direto de instrumentos financeiros do governo dos EUA, como a Development Finance Corporation — passa a integrar uma cadeia completa: da mineração à fabricação de ímãs.
Não se trata, portanto, de investimento estrangeiro neutro. Trata-se de política industrial externa daquele país que atenta contra a Nova Indústria Brasil proposta pelo governo brasileiro que propugna exatamente por uma maior independência. O financiamento estatal americano, os contratos de longo prazo com empresas de propósito específico capitalizadas pelo governo dos EUA e a reorganização dos fluxos de exportação evidenciam uma estratégia clara: deslocar o eixo de dependência tecnológica da China para uma cadeia controlada pelo Ocidente — ainda que ancorada em recursos naturais brasileiros.
O Brasil, nesse arranjo, corre o risco de permanecer na posição histórica de mero fornecedor de matéria-prima. Exporta-se o mineral bruto ou parcialmente beneficiado, enquanto o valor agregado — tecnológico, industrial e estratégico — é apropriado no exterior. É a repetição, em pleno século XXI, de um padrão de inserção subordinada que remonta ao ciclo colonial.
A analogia não é retórica. Quando uma potência estrangeira mobiliza seu aparato estatal para garantir acesso privilegiado a recursos estratégicos em outro país, condicionando fluxos produtivos e capturando etapas de maior valor, estamos diante de um processo que pode, sim, ser interpretado como uma forma contemporânea de colonização econômica.
O precedente histórico brasileiro reforça a gravidade da situação. A privatização da Companhia Vale do Rio Doce, ainda hoje objeto de debate, já evidenciava os riscos de perda de controle sobre ativos minerais estratégicos. No caso das terras raras, porém, o problema é ainda mais sensível: não se trata apenas de mineração, mas do domínio de tecnologias críticas para a transição energética, a indústria de defesa e a soberania digital.
Diante desse cenário, o silêncio não é uma opção.
O Clube de Engenharia do Brasil, fiel à sua tradição histórica de defesa do desenvolvimento nacional, deve se posicionar de forma clara e firme e exigir da Agencia Nacional de Mineração uma atitude em defesa do estado brasileiro. É preciso exigir do governo brasileiro uma política robusta de proteção e valorização de seus minerais estratégicos.
Algumas medidas se impõem:
* Revisão do marco regulatório da mineração, com tratamento diferenciado para minerais críticos e estratégicos;
* Condicionamento de investimentos estrangeiros à internalização de etapas industriais no país, incluindo processamento e fabricação de ímãs;
* Participação acionária do Estado brasileiro ou de fundos soberanos em ativos estratégicos;
* Fortalecimento de empresas nacionais e estímulo à formação de cadeias produtivas completas no território brasileiro;
* Articulação entre universidades, centros de pesquisa e indústria, para desenvolver tecnologias próprias de separação e aplicação de terras raras.
O Brasil dispõe de competência científica — basta olhar para o sistema universitário e centros como a UFRJ e o CETEM — e de base mineral abundante. O que falta é decisão política para transformar esses ativos em poder econômico e soberania tecnológica.
A disputa global por terras raras não é apenas econômica; é civilizatória. Define quem liderará a próxima revolução industrial e quem ficará restrito ao papel de fornecedor periférico.
O momento exige coragem.
Ou o Brasil assume o controle de seu destino estratégico, ou continuará exportando futuro e importando dependência.
Francis Bogossian – presidente do Clube de Engenharia do Brasil
Fernando Peregrino – vice – presidente do Clube de Engenharia do Brasil











