Mais de 100 mil trabalhadores belgas tomaram as ruas de Bruxelas na terça-feira,12, e paralisaram serviços essenciais com uma greve nacional contra uma série de medidas de arrocho do governo dirigido pelo primeiro-ministro Bart De Wever que afetam salários, pensões e gastos públicos, em um contexto de “grave crise energética” devido à guerra no Irã.
Em meio a sinalizadores, fumaça, fogos de artifício, apitos e buzinas, esta é a décima manifestação convocada pelos três principais sindicatos e por organizações sociais da Bélgica no último ano e meio, desde que teve início o plano de mobilização sindical contra o governo, que vem promovendo uma série de cortes sociais com o argumento de que é chave reduzir o déficit e a dívida, visando uma economia de 9,2 bilhões de euros até 2029.
Os sindicatos rejeitam especialmente a reforma da previdência que começa a ser votada nesta quarta-feira na Câmara dos Deputados e que inclui, entre outras coisas, uma penalidade anual de 5% sobre os benefícios para aqueles que se aposentarem antecipadamente.
“Isso significa que os trabalhadores podem perder quase 25% se se aposentarem cinco anos mais cedo. Na Bélgica, há muitas pessoas perto da idade de aposentadoria que sofrem de alguma doença e agora terão suas pensões negadas”, assinalou Florence Lepoivre, secretária-geral de um dos sindicatos organizadores, a FGTB-ABVV (Federação Geral do Trabalho da Bélgica), à EFE.
SINDICATOS EXIGEM INDEXAÇÃO DOS SALÁRIOS AOS PREÇOS
Os sindicatos também expressaram sua rejeição à reforma trabalhista que congela a indexação dos salários aos preços, “sem diálogo social” com o Governo.
“E hoje, com uma grave crise energética devido ao enfrentamento com a Ucrânia, e também à guerra de (Donald) Trump no Irã, os preços estão subindo. Normalmente, os salários deveriam seguir a mesma tendência”, afirmou.
Há um mês, De Wever afirmou que seu governo de cinco partidos aliados ao governo Trump não proporia novas medidas de alívio econômico em resposta à escassez de energia porque, segundo ele, “não há dinheiro”.
“Isso está incorreto. Há dinheiro disponível, só precisamos alocá-lo onde é necessário”, rebateu a representante sindical, que denunciou que o país gasta “52 bilhões de euros em benefícios a empresas privadas a cada ano, o que é dez vezes mais do que o destinado ao seguro-desemprego”, e que aumentou seus gastos com armamentismo “à custa da previdência social”.
“Há também o problema de tributarmos muito os trabalhadores e muito pouco as empresas, e os mais ricos pagam muito poucos impostos”, acrescentou.
PENSÕES DAS MULHERES SÃO 23% MENORES QUE AS DOS HOMENS
Os manifestantes se organizaram em grupos de trabalhadores (transportadores, educadores ou artistas, entre outros), mas também em coletivos sociais, com a presença de grupos de mulheres ou imigrantes: os mais afetados, segundo Lepoivre.
“Já existe uma diferença de 23% entre as pensões dos homens e das mulheres, e amanhã essa diferença aumentará ainda mais. Portanto, as mulheres vão perder muito”, afirmou a representante da FGTB-ABVV.
Em relação à população migrante, Lepoivre criticou o projeto de lei que permite à polícia entrar em residências particulares para prender migrantes.
“Eles poderão entrar nas casas das pessoas para procurar imigrantes sem documentos. Ao contrário do que acontece na Espanha, por exemplo, onde existem alternativas e todos os trabalhadores sem documentos estão sendo regularizados, aqui estamos perseguindo imigrantes sem documentos”, denunciou.
A mobilização causou uma interrupção dos serviços de transporte público urbano em todo o país devido à greve na rede de transporte da Valônia (sul do país), Flandres (norte do país) e, com maiores efeitos, Bruxelas.
A greve nacional também forçou o fechamento completo do Aeroporto Charleroi-Bruxelas Sul e o cancelamento de mais da metade dos voos de partida do Aeroporto Internacional de Bruxelas.











