Em meio ao bloqueio naval ao Estreito de Ormuz, principal ação militar da guerra dos EUA contra o Irã no momento, o governo Trump demitiu abruptamente, nesta quinta-feira (23), o secretário da Marinha, John Phelan, que na véspera discursara na conferência anual da Marinha, e foi substituído interinamente pelo subsecretário Hung Cao.
O anúncio foi feito pelo Pentágono, em um breve comentário de dois parágrafos, determinando sua saída “em caráter imediato” e agradecendo por seus serviços. Especulador e um dos principais doadores de campanha de Trump, Phelan estava no cargo desde março de 2025.
“Quando eles demitem o Chefe do Exército e o Secretário da Marinha durante uma guerra, eles sabem que [ela] está indo muito mal”, reagiu em uma postagem a senadora da oposição, a democrata Lisa Blunt Rochester, à repentina dança de cadeiras.
Efetivamente, o Chefe do Estado Maior do Exército, general Randy George, fora demitido no início de abril, também, como está sendo repetido agora em relação ao secretário da Marinha, por “divergências” com o ‘secretário de Guerra’ e ex-âncora da Fox News, Pete Hegseth.
A declaração da senadora toca na ferida exposta que é o atoleiro da guerra de agressão de Trump ao Irã, exatamente quando a principal consequência do bloqueio naval ao Irã é o postergamento de uma solução por acordo e, concomitantemente, o agravamento da paralisação no Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo e gás do mundo, dos fertilizantes e do gás de hélio, imprescindível para os semicondutores, ameaçando a economia global.
“MOMENTO DIFICILMENTE PODERIA SER MAIS DRAMÁTICO”
Como observou o portal alt-right ZeroHedge, “o momento das demissões dificilmente poderia ser mais dramático”.
“Embora um cessar-fogo tenha entrado em vigor por volta de 8 de abril, as tensões permanecem extremamente altas. A Marinha dos EUA está atualmente aplicando um bloqueio naval aos portos iranianos no Estreito de Ormuz e arredores, anunciado em meados de abril após o fracasso das negociações diplomáticas. Incidentes recentes incluíram a apreensão de embarcações com bandeira iraniana tentando romper o bloqueio, ataques iranianos a navios comerciais e ações contínuas de fiscalização que continuam a agitar os mercados globais de petróleo e rotas marítimas internacionais.”
Phelan, bilionário baseado em Palm Beach, colecionador de arte e grande doador de Trump que havia investido milhões em apoio ao presidente, não tinha experiência militar ou naval prévia quando foi indicado no final de 2024. Apesar das críticas pela falta de histórico relevante e possíveis conflitos de interesse decorrentes de investimentos em contratantes de defesa como Dell e Palantir, ele foi confirmado pelo Senado.
“RELACIONAMENTOS RUINS”
Para além da crise no Golfo Pérsico, outro fator começa a ser apontado como explicação para a demissão: a luta intestina, dentro do governo Trump, para quem irá se locupletar do pretendido inchaço no orçamento do Pentágono, para US$ 1,5 trilhão, o que, no caso da Marinha, significa uma bonança de construção de navios de guerra, para a assim chamada “Frota Dourada” de Trump.
Daí os “relacionamentos ruins” de Phelan com o secretário Hegseth; com o poderoso vice-secretário, Steve Feinberg; e o próprio vice de Phelan, Hung Cao, que remontam a “muitos meses”. Sob essa análise, “Feinberg buscava consolidar todas as responsabilidades de construção naval e grandes aquisições da Marinha – com uma fonte dizendo que ele parece ter prevalecido”.
Segundo o New York Times, Feinberg também havia tomado medidas para retirar a autoridade de Phelan sobre grandes programas de construção naval. Em outubro, o braço direito de Phelan, seu chefe de gabinete Jon Harrison, havia sido demitido por Hegseth.
FROTA DOURADA
A “Frota Dourada” de Trump é considerada o maior pedido de construção naval nos EUA desde 1962 e, para o ano fiscal de 2027, inclui mais de 65 bilhões de dólares para adquirir 18 navios de guerra e 16 navios de apoio fabricados pela General Dynamics e Huntington Ingalls Industries.
No final de dezembro, Trump anunciou uma nova classe de couraçados como parte da “Frota Dourada” da Marinha dos EUA, idealizada como uma atualização para os contratorpedeiros da classe Arleigh Burke da Marinha. Trump pretendia que a nova classe de couraçados fosse construída até 2028, um cronograma que especialistas consideraram improvável.
Trump, quando questionado sobre a remoção de Phelan na quinta-feira, o elogiou como um homem “muito bom”, que tinha algumas questões, “não necessariamente” com Hegseth, mas outras dentro do Pentágono.
“Ele teve alguns conflitos com outras pessoas, principalmente sobre a construção e compra de novos navios. Sou muito agressivo na construção de novos navios, e de alguma forma ele simplesmente não se dava bem com eles. Ele é um cara excelente. Acho que ele teria se dado muito bem comigo. Eu realmente não lidei muito com ele”, disse o presidente aos repórteres na Casa Branca.











