Trump descartou a proposta de paz do Irã por não ser uma ‘carta de rendição’, diz vice-chanceler Gharibabadi

Vice-ministrro do Exterior, Gharibabadi, reafirma que o Irã não se renderá (Foto da Corte Internaiconal de Justiça da ONU)

Os Estados Unidos rejeitaram a mais recente proposta de paz do Irã apenas porque não era uma “carta de rendição”, disse um diplomata iraniano sênior, observando que Washington busca impor sua vontade por meio de intimidação e pressão, em vez de construir uma paz genuína, segundo o PressTV.

“Quando a parte que desempenhou um papel direto na guerra, cerco, sanções e ameaças por meio da força bruta rejeita a resposta do Irã unicamente porque não é uma carta de rendição, fica claro que a principal questão não é a paz, mas a imposição da vontade política por meio de ameaças e pressões”, disse o vice-ministro iraniano das Relações Exteriores para Assuntos Políticos, Kazem Gharibabadi, em uma postagem nas redes sociais na quarta-feira.

“A verdadeira paz não pode ser construída com uma literatura de humilhação, ameaças e acertos de contas coercitivos”, acrescentou.

No domingo, o presidente dos EUA, Donald Trump, rechaçou um plano de paz para acabar com a guerra ilegal de agressão apresentado por Teerã alegando teatralmente que era “totalmente inaceitável”, “um lixo”, e que “se recusara a ler até o final”.

OS PRINCÍPIOS CLAROS DE TEERÃ PARA A PAZ

Gharibabadi reiterou os princípios claros de Teerã para qualquer acordo sustentável. “Cessação permanente da guerra e sua não repetição, compensação pelos danos, levantamento do cerco, remoção das sanções ilegais e respeito aos direitos do Irã.”

“Essas não são exigências maximalistas; eles são os requisitos mínimos de qualquer arranjo sério e sustentável alinhado com a Carta das Nações Unidas para acabar com uma crise que começou com o recurso ilegal à força”, enfatizou.

O vice-ministro se referiu à hipocrisia que impera em Washington.

“Não se pode falar de cessar-fogo enquanto se continua o cerco; falar em diplomacia enquanto intensificam as sanções; ou discutir estabilidade regional enquanto fornece apoio político e militar a um regime que é fonte de agressão e instabilidade”.

“Tal abordagem não é negociação; é a continuação de uma política de coerção com verborragia diplomática”.

AGRESSÃO NÃO PROVOCADA E IMPASSE

Os Estados Unidos e Israel lançaram sua guerra ilegal e não provocada de agressão contra o Irã em 28 de fevereiro. Assassinaram o líder da Revolução Islâmica, aiatolá Seyyed Ali Khamenei, e atacaram instalações nucleares, escolas e hospitais. O Irã respondeu com pelo menos 100 ondas de ataques retaliatórios decisivos sob a Operação True Promise 4.

Um cessar-fogo mediado pelo Paquistão está em vigor desde o início de abril, mas um bloqueio naval dos EUA aos portos iranianos permanece em vigor. O Irã alertou que vê o bloqueio como uma extensão da guerra de agressão e pode dar uma resposta severa no momento certo.

O bloqueio naval norte-americano impediu que iniciativa do Irã para reabrir o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo e gás, 30% dos fertilizantes e parte importante do gás hélio imprescindível à produção de chips, se inviabilizou. O Irã está exigindo uma nova gestão do Estreito, que reconheça a soberania do país e do vizinho Omã.

TRUMP FORÇADO A RECUAR

Na semana passada, depois de anunciar uma operação de abertura à força do Estreito de Ormuz,  Trump se viu forçado a recuar em 48 horas, após o Irã escorraçar com drones e mísseis três destróieres norte-americanos, e da recusa da Arábia Saudita em ceder seu espaço aéreo à agressão.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, reiterou que foram as “exigências excessivas” de Washington que impediram que, em abril, em Islamabad, se chegasse a um acordo de paz. Ele foi ao Paquistão, à Rússia e à China em busca de apoio para a paz e a soberania iraniana.

“DOSSIÊ NUCLEAR”

Quanto ao chamado “dossiê nuclear”, o Irã só admite discutir depois que as questões do fim da guerra em todas as frentes com garantias e da reabertura do Estreito sejam consagradas. Foi Trump, no primeiro mandato, em 2017, que rasgou o acordo, assinado por seu antecessor Barack Obama e respaldado pelo Conselho de Segurança da ONU em que o Irã se submetia ao mais rígido padrão de fiscalização da Agência Internacional de Energia Atômica em troca do fim das sanções e durante três cumpriu estritamente.

O enriquecimento de urânio, sob fiscalização da AIEA, e como parte de um programa nuclear civil é um direito garantido pelo Tratado de Não-Proliferação, e não pode ser cassado por Washington. A Rússia voltou a se oferecer para repetir o que fez em 2015, quando diluiu e armazenou urânio para o Irã, resolvendo um dos principais entraves então ao acordo.

A Rússia também tem proposto transformar o Oriente Médio em uma região livre de armas nucleares. Cujo maior empecilho não é o programa civil iraniano, mas Israel com sua centena de bombas nucleares, como é notório desde o testemunho de Mordechai Vanunu em 1986 sobre Dimona, e que não confirma.

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