Trump piscou primeiro, mas Irã diz que não negocia enquanto EUA mantiver bloqueio naval

TV iraniana exibiu imagens do navio apreendido da companhia MSC arrendado à israelense ZIM (Mehr News)

Marinha iraniana, a inexistente, segundo a Casa Branca, apreende no Estreito de Ormuz dois navios ilegais, um deles, israelense

De acordo com o The New York Times, foi Trump quem “piscou primeiro” ao prorrogar o cessar-fogo, após o Paquistão, o país mediador, ter recebido de Teerã a decisão de que não enviaria uma delegação a Islamabad.

E, portanto, Trump recuou da ameaça de voltar a bombardear ao país, versão mais amena de suas imprecações de que iria “destruir uma civilização que não ressuscitará” ou que iria bombardear o Irã “de volta à idade da pedra”.

Como constatou o NYT, “no final de terça-feira, mediadores iranianos e americanos não haviam viajado ao Paquistão para uma segunda rodada de negociações de paz, e o Sr. Trump anunciou um cessar-fogo indefinido com o Irã.” Ele disse que era para dar tempo à liderança iraniana de responder às exigências americanas e que duraria até que “as discussões sejam concluídas, de um jeito ou de outro”.

Ainda sob essa análise, “para os líderes iranianos, esse resultado provavelmente validará sua convicção de que sua prontidão para suportar a dor da guerra é maior do que a de Trump”.

“Apesar da vasta destruição causada pelos ataques EUA-Israel ao seu país, eles acreditam que podem resistir ao bloqueio cada vez mais custoso dos EUA aos portos iranianos por mais tempo do que Trump está disposto a aceitar o fechamento efetivo do vital Estreito de Ormuz pelo Irã.”

“Os iranianos medem seu tempo em meses e em semanas para o governo Trump e a economia global”, registrou o NYT, citando Ali Vaez, diretor para o Irã do International Crisis Group. “Eles acham que Tump não pode tolerar que o estreito continue fechado por outras três semanas”.

Já o Wall Street Journal publicou um artigo de opinião, assinado por um integrante de seu conselho editorial, sob o título “Iranianos fazem Trump de otário”.

GARGALO DE ORMUZ

O NYT lembra que pelo Estreito de Ormuz passam 20% do petróleo e gás do mundo, além de fertilizantes e hélio crítico para semicondutores. “Os preços em ascensão nos Estados Unidos também criam um problema doméstico para Mr. Trump em uma eleição intermediária crucial este ano”.

Embora a articulista haja buscado atribuir a Teerã o raciocínio que fez da situação, essa é a realidade nua e crua, com o Washington Post observando que Trump “observa o acordo com o Irã com muitas das concessões que criticou Obama por aceitar”, em referência ao enriquecimento de urânio, alívio de sanções e capacidade de defesa.

Em suma, no momento, a decisão de Trump foi adiar a escalada numa guerra que, ao contrário da maioria das guerras anteriores, já rejeitada majoritariamente (61%) pelo povo americano, a sete meses das eleições intermediárias, que decidem o controle do Congresso.

Quanto ao Irã, não está “dividido” e seu plano de paz de 10 pontos havia sido aceito pelo governo Trump como base para as negociações. Também não há divisão quanto à recusa às “exigências excessivas” dos EUA.

Na quarta-feira (22), uma porta-voz da Casa Branca limitou a prorrogação do cessar-fogo a “três a cinco dias”, enquanto Trump seguiu alardeando a volta em breve das negociações e inclusive fabricou uma fake news sobre oito lindas oposicionistas que iriam ser “enforcadas”, mas teriam sido perdoadas a seu pedido.

“NOSSA LINHA VERMELHA”

Na terça-feira, em Pequim, o enviado do Irã, Abdolreza Rahmani Fazli, afirmou que seu país não cederá nas negociações enquanto o bloqueio dos EUA ao Estreito de Ormuz continuar.

Ele lembrou que, enquanto o Irã cumpriu o marco da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), foram os EUA que saíram unilateralmente do Plano de Ação Conjunto Abrangente (JCPOA).

Fazli disse que as condições que os EUA tentam impor não mostram reciprocidade, acrescentando: “O que eles estão mostrando é, na verdade, o fechamento do Estreito de Ormuz, e também estão ameaçando militarmente o Irã”.

A abordagem está “afetando o clima das negociações”, disse ele. “O que esperam do Irã não é diálogo, mas rendição”.

Fazli afirmou que, quando as condições forem favoráveis, o Irã favorecerá o diálogo. Os objetivos do programa nuclear iraniano são pacíficos e de acordo com as legítimas necessidades do país, acrescentou. “Sempre foi conforme as leis e regulamentos da AIEA”.

Fazli disse que, durante as duas últimas rodadas de negociações com o Irã, quando as negociações estavam ocorrendo sem problemas, os EUA “quebraram suas promessas e adotaram ações contra o Irã que levaram à situação atual.”

Para o Irã, o enriquecimento de urânio é inegociável, enfatizou ele. “O direito do Irã ao uso pacífico da energia nuclear; essa é a nossa linha vermelha.”

Outra fixação de Trump é por “tomar o petróleo iraniano”, a terceira maior reserva do planeta, cujas exportações vão, centralmente, para a China. De acordo com o Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, o objetivo do bloqueio naval e da intensificação das sanções é paralisar as exportações de petróleo do Irã, visando asfixiar sua principal fonte de divisas.

IRÃ NÃO NEGOCIARÁ SOB CHANTAGEM

Para o HispanTV, o Irã “não negociará sob a sombra da chantagem e não permitirá que a questão nuclear, fonte de orgulho nacional e independência estratégica, seja usada como moeda de troca por um adversário derrotado”.

 “Na primeira rodada, os Estados Unidos, adotando uma postura injustificada de vitória, levantaram a questão nuclear. Na segunda rodada, Washington persistiu, tentando chantagear o Irã para que este entregasse seus ativos nucleares estratégicos e de fabricação nacional”.

“Este é o mesmo recurso que sobreviveu a anos de sanções esmagadoras, duas guerras em grande escala e uma tentativa de golpe fracassada. O inimigo esperava obter na mesa de negociações o que não conseguiu no campo de batalha. Mas não funciona assim. Um perdedor não pode ditar as regras”.

Segundo as agências de notícias ocidentais, um terceiro porta-aviões está a caminho do Golfo Pérsico, assim como reforços e aviões.

NOTÍCIAS DO ESTREITO

As notícias do Estreito de Ormuz não são as melhores para Trump. Segundo o Financial Times, 34 petroleiros iranianos furaram o bloqueio naval desde que entrou em vigor e, nesta quarta-feira, em contrapartida à ilegal apreensão de um cargueiro iraniano pelos marines, a Guarda Revolucionária Islâmica capturou um navio da companhia MSC, arrendado à firma israelense, ZIM, o MSC Francesca, e outro também operado pela MSC, o Epaminondas,de bandeira liberiana.

A mídia iraniana informou que o IRGC transferiu as embarcações para a costa iraniana por “operarem sem a autorização necessária e por manipularem sistemas de navegação”, acrescentando que isso “colocou em risco a segurança marítima”.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *