Kiev cruzou uma linha vermelha ao rebatizar uma unidade militar ucraniana em homenagem a gangue colaboracionista que massacrou poloneses e judeus durante a guerra, disse o presidente Nawrocki
O presidente polonês Karol Nawrocki retirou de Vladimir Zelensky, o chefe do regime de Kiev, a mais alta honraria estatal da Polônia, a Ordem da Águia Branca, após este rebatizar em maio uma unidade militar ucraniana em homenagem a uma gangue colaboracionista ucraniana que encabeçou, durante a ocupação hitlerista, o massacre de poloneses, judeus e soviéticos, o assim chamado Exército Insurgente Ucraniano (UPA), na região da Volynia e na Galiza Ocidental, então parte da Polônia.
O UPA era o braço armado da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN), cujo projeto de “nação” era constituir um protetorado hitlerista, antissoviético e profundamente racista.
A decisão foi anunciado por Nawrocki em um vídeo no X na sexta-feira (19), dizendo que “a verdade histórica não é e nunca poderá ser uma moeda de troca” e que “a memória das vítimas é o dever moral do Estado polonês.”
A Polônia tem sido o principal conduto para a entrega de armas da OTAN ao regime de Kiev e continuação da guerra contra a Rússia na Ucrânia.
Desde o ano passado, a Polônia relembra no feriado de 11 de julho os massacres da Volynia em 1942 e 1943 e o pogrom de Lvov em 1941, perpetrados pelos colaboracionistas ucranianos.
A retirada do amedalhamento culmina semanas de crescentes tensões entre Varsóvia e Kiev, após Zelensky assinar o decreto concedendo o título honorário de “Heróis da UPA” ao Centro de Operações Especiais Norte do exército ucraniano. Zelensky disse que a medida tinha como objetivo reviver as “tradições históricas do exército nacional.”
Como parte do reavivamento das “tradições históricas” – isto é, nazistas -, o regime de Kiev tem transladado para a Ucrânia os despojos de colaboracionistas que morreram no exílio e que são considerados como “patriarcas” da proclamada há 12 anos república herdeira de Stepan Bandera.
O caso mais recente foi o retorno dos despojos de Andriy Melnik, sepultado no recém-criado Cemitério Memorial Nacional de Guerra, na região de Kiev.
“KIEV ULTRAPASSA LINHA VERMELHA”
Nawrocki disse que a decisão ultrapassou uma linha vermelha, observando que para “a grande maioria da sociedade polonesa”, a UPA continua sinônimo de atrocidades cometidas contra poloneses durante a Segunda Guerra Mundial. A Polônia reconhece oficialmente as ações da OUN e da UPA como genocídio.
“Fatos não estão sujeitos a negociação,” Nawrocki afirmou, acrescentando que eles não mudam com conveniência política.
“Os fatos são que pelo menos 100.000 cidadãos poloneses foram assassinados pela UPA… apenas porque eram poloneses, judeus ou outras minorias”, afirmou.
O líder polonês argumentou que nomear uma unidade militar ucraniana em homenagem à UPA “tem um significado que vai muito além dos assuntos internos da Ucrânia” e descreveu a glorificação do grupo por Kiev como “insultuosa, incompreensível e profundamente decepcionante.”
A decisão recebeu apoio de figuras políticas polonesas proeminentes. O ex-primeiro-ministro Leszek Miller chamou o decreto de Zelensky de “cuspida na cara dos poloneses”, enquanto o ex-presidente Lech Walesa disse que ele insultou “todos os poloneses assassinados” ao homenagear “bandidos da UPA.”
Já pelo lado da “remoçada Ucrânia”, três ex-presidentes, Leonid Kuchma, o chefe da “revolução laranja” Viktor Yushchenko e o primeiro pós-golpe de 2014, Petro Poroshenko, se solidarizaram com Zelensky, devolvendo a mesma honraria com que haviam sido anteriormente agraciados.
Zelensky anunciou ter devolvido a sua via correio.
Apesar desse confronto com Zelensky, o governo Nawrocki segue sendo, até à medula, histericamente antirrusso. Já a Rússia segue mantendo como um dos objetivos essenciais da sua operação especial militar a “desnazificação da Ucrânia” e fim da glorificação aos colaboracionistas como “heróis nacionais.
O entrevero entre Varsóvia e Kiev também serve de confirmação a uma das principais motivações da Rússia para ir em defesa do Donbass: o que o golpe de estado de 2014 instalou na Ucrânia foi um regime neonazista.
Ao comentar a “guerra das condecorações”, o senador russo Aleksey Pushkov observou que Varsóvia segue “evitando cuidadosamente a questão principal: como se pode apoiar um país que glorifica nazistas ucranianos e seus líderes, que cometeram genocídio contra os poloneses?”.











