Resultado positivo engana: juros altos causaram queda na Formação Bruta de Capital Fixo e contração da indústria de transformação, estagnando a economia brasileira no hoje e no amanhã
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto (PIB) da economia brasileira encerrou o quarto trimestre de 2025 com um crescimento de 2,3% em relação à 2024 e 0,1% em relação ao trimestre anterior.
Assim como outros indicadores positivos da economia atualmente (inflação controlada e desemprego na mínima histórica), este resultado exige uma análise mais aprofundada para compreender o que o dado nos revela e, sobretudo, o que deixa de revelar. Pois, em sintonia com Os Originais do Samba, “nem tudo que cai do céu é sagrado” e citando o artigo publicado recentemente neste jornal, na economia não podemos chamar urubu de meu louro.
Em entrevista ao Monitor Mercantil, Marco Antônio da Rocha (Professor do Instituto de Economia da UNICAMP) alerta para a importância de olhar para o PIB da forma correta, qual seja, o comportamento de seus componentes e os impactos na estagnação econômica.
Sob essa perspectiva, pela ótica da produção, o crescimento do PIB foi puxado essencialmente pelo setor agropecuário (+11,7% e 0,5% em relação à, respectivamente, 2024 e 3T2025), enquanto a indústria teve um crescimento modesto de 1,4% no ano e uma contração de 0,7% no último trimestre.
Ao avaliar os componentes do PIB, percebe-se como o processo de estagnação da economia brasileira está posto, sendo puxado pela queda da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) e pelo resultado negativo da indústria de transformação – a qual, se antes andava “de lado”, hoje anda “para trás”.
A FBCF e a indústria de transformação ditam o ritmo da economia a médio e longo prazo. Isso quer dizer que resultados negativos hoje comprometem o desempenho econômico de amanhã, haja vista a falta de aumentos de produtividade e de geração de empregos com salários maiores:
“Isso porque esses dois fatores são importantes para o comportamento da economia brasileira a médio e longo prazo, já que a Formação Bruta de Capital Fixo é investimento, sendo que investimento é produtividade, competitividade e capacidade de crescimento, e a indústria de transformação é um elemento muito importante para os encadeamentos setoriais e para a geração de postos de trabalho de melhor qualidade e com maiores rendimentos.”
A principal causa da retração da indústria de transformação foi o comportamento da política monetária ao longo do ano, que com o ciclo de alta da taxa básica de juros encareceu os custos financeiros (crédito, rolagem de dívida) e desestimulou investimentos produtivos.
O objetivo do ciclo altista da Selic sempre esteve bem documentado nas atas do COPOM: desacelerar a economia brasileira em nome do controle inflacionário – enquanto ampliaram-se os ganhos dos rentistas com instrumentos financeiros. Se o resultado não se manifestou plenamente, visto o crescimento do PIB ancorado no agro, a estagnação econômica já começa a ser sentida com a queda da FBCF e o mau resultado da indústria de transformação.
Por fim, ao analisar o PIB com tal escrutínio, não se trata de ser pessimista, tampouco “torcer contra”, mas sim de atuar com o compromisso necessário para colocar em marcha o desenvolvimento econômico brasileiro. Os resultados presentes evidenciam como os juros altos vem deliberadamente jogando um balde de água fria na economia, comprometendo a geração de emprego e renda no presente e no futuro.
O caminho para o crescimento do PIB de forma sólida, estruturada e consistente em 2026 necessariamente requer a redução imediata da taxa de juros – e não apenas uma redução à conta-gotas de 0.25 p.p a cada reunião do COPOM. Que em 2026 o Banco Central rompa com o aperto monetário, deixe de atuar como um freio de mão da economia ao vê-la fluir e seja capaz de estimular aumentos de investimento, produtividade e qualidade de vida para o povo brasileiro.
LUCAS SANTOS MARÇAL











