Não é só com a milícia, Flávio Bolsonaro tem ligações também com o Comando Vermelho

Alessandro Pitombeira Carracena, ligado ao CV, Flávio Bolsonaro e TH Joias, também ligado ao CV (reprodução)

O “rei da rachadinha” indicou um cúmplice, Alessandro Pitombeira Carracena, preso por ligações com o CV, para cargo no governo Cláudio Castro

A Polícia Federal cumpriu uma nova ordem de prisão, no início de março, contra o ex-Secretário Estadual de Esportes do Rio de Janeiro, Alessandro Pitombeira Carracena, durante a Operação Anomalia. Esta operação investiga um núcleo criminoso que atuava na negociação de vantagens indevidas e na venda de influência para favorecer os interesses do Comando Vermelho, uma das maiores facções criminosas do Rio de Janeiro.

Carracena foi indicado para o governo Cláudio Castro por Flávio Bolsonaro (PL-RJ), político do Rio de Janeiro que já tem um longo histórico de ligações com as milícias. Ele agora aparece associado a Carracena, que, junto com TH Joias, são investigados por ajudarem o Comando Vermelho. Flávio abrigou em seu gabinete, quando era deputado estadual, a mãe a a mulher do chefe da milícia de Rio das Pedras, o assassino profissional Adriano da Nóbrega.

O secretário de Defesa do Consumidor, Gutemberg Fonseca, aliado de Flávio, tentou livrar a barra do “Rachadinha” e afirmou que foi ele quem indicou Carracena ao governo. O Comando Vermelho tentava influenciar o policiamento no Rio por meio de contatos com Gutemberg Fonseca. Em um diálogo obtido pela polícia, Gabriel Dias de Oliveira, o Índio do Lixão, apontado pela PF como integrante do CV, relatou a Carracena que esteve com Gutemberg Fonseca para apresentar demandas e pedir “cobertura política”.

Recentemente veio a público uma gravação envolvendo o “aliado” de Flávio Bolsonaro com o Comando Vermelho. Ela foi compartilhada pela ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann. Na legenda da publicação, Gleisi definiu o produto como “as conexões de Flávio Bolsonaro com o submundo do crime”. “Não é a primeira vez. O filho “01” de Bolsonaro vive cercado de escândalos e “maracutaias”, diz a gravação. Rachadinha, lavagem de dinheiro, crime organizado, milícias. Quando juntamos todas essas peças, aparece uma teia de relações que não pode ser ignorada”, diz a gravação.

Além de Carracena, foram cumpridos três mandados de prisão preventiva e três de busca e apreensão na cidade do Rio, além de medidas cautelares diversas, como afastamento do exercício de função pública. As ordens judiciais foram expedidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Um dos presos é o delegado federal Fabrizio José Romano. Os elementos de prova colhidos indicam que os investigados estruturaram uma associação criminosa voltada para a prática de crimes contra a administração pública e para o favorecimento de interesses atrelados ao tráfico de drogas.

O histórico das ligações de Flávio Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro já é antigo.

Em discurso feito na tribuna da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), em 2007, o então deputado estadual Flávio Bolsonaro defendeu os grupos criminosos conhecidos por “milícias”, que aterrorizam e exploram a população do estado do Rio. Ele referiu-se às milícias como um “novo tipo de policiamento”.

“(…) A milícia nada mais é do que um conjunto de policiais, militares ou não, regidos por uma certa hierarquia e disciplina, buscando, sem dúvida, expurgar do seio da comunidade o que há de pior: os criminosos”, afirmou.

Além de defender os grupos de extorsão, Flávio ainda disse não achar justa a “perseguição” por parte de políticos e entidades “ligadas aos direitos humanos” aos milicianos. Em uma de suas manifestações, ele chegou a citar a favela de Rio das Pedras, comunidade que sofre com a atuação da milícia, como exemplo a ser seguido. “Façam consultas populares na Favela de Rio das Pedras, na própria Favela do Batan, para que haja esse contrapeso também, porque sabemos que vários são os interesses por trás da discussão das milícias.

Flávio Bolsonaro tinha ligações profundas com aa milícia de Rio das Pedras. Ele homenageou Adriano Magalhães da Nóbrega, um assassino profissional membro do “Escritório do Crime”, uma espécie de central de assassinatos contratados pela milícia.

Cobrado sobre as contratações em seu gabinete da mãe e da mulher do assassino, o ex-deputado tentou se esquivar jogando a culpa pelas contratações diretamente a seu ex-assessor, Queiroz, investigado pelo Ministério Público sob suspeita de recolher parte dos salários dos funcionários do senador eleito.

Apesar de Flávio Bolsonaro tentar jogar a responsabilidade pela presença dos familiares do foragido Adriano no gabinete a Queiroz, as ligações dele [Flávio] com o miliciano eram íntimas, tanto que ele foi homenageado em 2003 na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) por iniciativa do próprio Flávio Bolsonaro.

Segundo a Alerj, a homenagem de Flávio a Adriano da Nóbrega foi por este desenvolver sua função com “dedicação, brilhantismo e galhardia”. E, no ano seguinte, Ronald Paulo Alves Pereira, preso nesta terça-feira e apontado como chefe da milícia Muzema, recebeu a mesma comenda das mãos de Flávio Bolsonaro.

Em 2005, o filho mais velho de Jair Messias chegou ao cúmulo de conceder ao miliciano foragido, Adriano da Nóbrega, a Medalha Tiradentes. Na justificativa, entre outras razões, o então deputado escreveu que Nóbrega teve êxito ao prender 12 “marginais” no morro da Coroa, no centro, além de apreender diversos armamentos e 90 trouxinhas de maconha.

As milícias defendidas por Flávio Bolsonaro são organizações criminosas que atuam nas comunidades do Rio de Janeiro sob a alegação de combate ao tráfico. Os milicianos, porém, são bandidos, cobram taxas dos moradores, os ameaçam e intimidam, além de muitas vezes estarem envolvidos com assassinatos e episódios de tortura. Entre as principais atividades criminosas praticadas pelos milicianos, segundo o Ministério Público, estão a grilagem, construção, venda e locação ilegal de imóveis – motivo pelo qual a vereadora Marielle Franco teria sido morta, conforme afirmou na época o ex-secretário de Segurança Pública general Richard Nunes.

O endosso de Bolsonaro às milícias é tão grande que, em 2011, quando a juíza Patrícia Acioli foi assassinada com 21 tiros por milicianos, Flávio Bolsonaro se manifestou no Twitter afirmando que ela “humilhava policiais”, o que contribuiu para que tivesse “muitos inimigos”. Ela era conhecida por atuar no combate às milícias e, posteriormente, onze policiais foram condenados por envolvimento com a sua morte.

Esta posição de Flávio Bolsonaro a favor das milícias não é só sua, é também a de seu pai, Jair Bolsonaro. Segundo reportagem do Intercept, em 2003 Jair Bolsonaro também defendeu grupos de extermínio: “Enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo. Se não houver espaço para ele na Bahia, pode ir para o Rio de Janeiro. Se depender de mim, terão todo o meu apoio, porque no meu Estado só as pessoas inocentes são dizimadas”, afirmou.

Leia mais

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *