2ª Mostra Contos de Resistência apresenta filmes anticoloniais e homenagem a Eduardo de Oliveira

Programação homenageia o centenário de Eduardo de Oliveira, primeiro vereador negro de São Paulo, e traz clássicos do cinema anticolonial

O Cine-Teatro Denoy de Oliveira apresenta, a partir do próximo dia 9 de maio, a segunda edição da Mostra Contos de Resistência, que se dedica a resgatar episódios históricos silenciados ou distorcidos pelo colonialismo, além de difundir obras artísticas que retratam o cotidiano negro ao redor do mundo.

A mostra, realizada na Rua Rui Barbosa, 323, no Bixiga, apresentará clássicos fundamentais ao público todos os sábados, sempre às 18 horas. A programação, que segue até 6 de junho, inclui joias do cinema brasileiro, clássicos do diretor senegalês Djibril Diop Mambéty e o documentário belga “Trilha Sonora Para Um Golpe de Estado”.

HOMENAGEM A EDUARDO DE OLIVEIRA

A sessão de abertura, no dia 9 de maio, será dedicada ao centenário de Eduardo de Oliveira — professor, poeta, político e primeiro vereador negro de São Paulo. Autor do Hino à Negritude, composição sancionada pela Presidência da República em 28 de maio de 2014, Oliveira foi também fundador do Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB), entidade irmã da União Municipal dos Estudantes Secundaristas (UMES). “A ele, dedicamos essa modesta programação”, afirma a organização da mostra.

Entre os títulos nacionais, a mostra exibe “Chico Rei” (1985), dirigido por Walter Lima Jr., que narra a história de Galanga, rei do Congo aprisionado e vendido como escravo no século XVIII, que consegue comprar sua alforria e se tornar proprietário de uma mina de ouro. O roteiro é baseado em poesias de Cecília Meireles e na tradição oral mineira.

Também será exibido “Um é Pouco, Dois é Bom” (1970), de Odilon Lopez, um dos pioneiros da cinematografia negra brasileira. O filme, que passou por restauração digital em 4K, traz duas histórias sobre sonhos, dificuldades e recomeços na vida de personagens negros. O restauro é fruto de parceria entre Cinemateca Capitólio, Indeterminações e Mnemosine Serviços Audiovisuais, com incentivo da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa de Porto Alegre e apoio do Itaú Cultural.

DJIBRIL DIOP MAMBÉTY

O senegalês Djibril Diop Mambéty é outro grande nome da programação. Serão exibidos “Hienas” (1992), adaptação da peça “A Visita da Velha Senhora”, de Friedrich Dürrenmatt, que aborda as tensões entre riqueza, vingança e pobreza em uma aldeia africana; e a sessão dupla formada por “O Franco” (1994) e “A Pequena Vendedora de Sol” (1999), ambos ambientados em Dacar, com histórias que mesclam humor, crítica social e a luta cotidiana pela sobrevivência.

A mostra se encerra no dia 6 de junho com “Trilha Sonora Para Um Golpe de Estado” (2024), do diretor belga Johan Grimonprez. Montado inteiramente com imagens de arquivo, o documentário reconstitui o contexto do golpe contra Patrice Lumumba no Congo em 1960, destacando a atuação da CIA, a estratégia do Departamento de Estado dos EUA ao enviar o embaixador do jazz Louis Armstrong ao país africano e os protestos de Abbey Lincoln e Max Roach no Conselho de Segurança da ONU. O filme é uma coprodução entre Bélgica, França e Países Baixos.

PROGRAMAÇÃO

09/05/2026

CHICO REI

Dirigido por Walter Lima Jr. (1985), Brasil, 115 min.

Em meados do século XVIII, Galanga, rei do Congo, é aprisionado e vendido como escravo. Trazido da África num navio negreiro, recebe o nome de Chico Rei e vai trabalhar nas minas de ouro de um desafeto do governador de Vila Rica. Escondendo pepitas no corpo e nos cabelos, Galanga habilita-se a comprar sua alforria e, após a desgraça do seu ex-senhor, adquire a mina Encardideira, tornando-se o primeiro negro proprietário. Rico, ele associa-se a uma irmandade para ajudar outros negros a comprarem a liberdade.

O roteiro é baseado em poesias de Cecília Meireles e na tradição oral mineira bem como na memória do negro brasileiro.

16/05/2026

HIENAS

Dirigido por Djibril Diop Mambéty (1992), Senegal, 110 min.

Após 30 anos fora, Linguère Ramatou, uma mulher “tão rica quanto o Banco Mundial”, retorna a Colobane, aldeia que a abandonou quando jovem e agora amarga em pobreza. Ela promete ajudá-los com suas riquezas, porém, com uma condição: Draman Drameh, o respeitável comerciante da aldeia e antigo amante que traiu Linguère e a largou grávida aos 16 anos, precisa ser executado.

Clássico de Mambéty, o filme é uma adaptação da peça “A Visita da Velha Senhora” de Friedrich Dürrenmatt.

23/05/2026

UM É POUCO, DOIS É BOM

Dirigido por Odilon Lopez (1970), Brasil, 90 min.

Duas histórias. Dois contos. Em “Com um Pouquinho… De Sorte”, Jorge e Maria vivem os problemas de um novo casal que sonha em ter a própria casa e constituir família. Em “Vida nova… Por Acaso”, Magrão e Crioulo querem começar uma vida nova e acabam exatamente onde começaram.

A restauração digital em 4K de “Um É Pouco, Dois É Bom” é resultado de uma parceria entre Cinemateca Capitólio, INDETERMINAÇÕES e Mnemosine Serviços Audiovisuais, com incentivo da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa de Porto Alegre e apoio do Itaú Cultural. O processo de restauro foi realizado na cidade do Rio de Janeiro, no Laboratório Mapa Filmes do Brasil/Link Digital.


30/05/2026 – Sessão Dupla

O FRANCO

Dirigido por Djibril Diop Mambéty (1994), Senegal, 46 min.Marigo é um músico sem dinheiro mas de raciocínio rápido que sonha em recuperar seu instrumento, o Cangoma, confiscado de forma cruel pela proprietária do quarto onde vive após meses de aluguel atrasado.

Apostando tudo na loteria, ele passa a acreditar que a sorte pode finalmente abrir um caminho para a vida feliz cheia de música e cores em que ele sempre sonhou, sem humilhações e absurdos da sua vida sofrida. Entre humor e desespero, Marigo atravessa Dacar carregando a esperança como único bem seguro, enquanto o filme revela como a lógica do capital se infiltra dos menores gestos até as maiores construções.

A PEQUENA VENDEDORA DE SOL

Dirigido por Djibril Diop Mambéty (1999), Senegal, 45 min.

Em Dacar, vender jornais nas ruas é um território dominado por meninos, até que Sili, uma jovem com deficiência física e determinada, decide desafiar essa ideia. Aos empurrões, xingamentos e desconfiança, ela descobre um mundo onde cada moeda e cada manchete revelam as camadas de desigualdade, exploração e sobrevivência, mostrando como a imprensa, a rua e as pessoas que a habitam moldam a vida de uma sociedade, tudo filtrado pelo olhar sensível de uma criança, fazendo com que o público percorra cada descoberta ao seu lado, como se também estivesse presente nas ruas ao seu redor.

06/06/2026

TRILHA SONORA PARA UM GOLPE DE ESTADO

Dirigido por Johan Grimonprez (2024), Bélgica, França e Países Baixos, 150min.

Em 1960, 16 países africanos recém-independentes ingressaram nas Nações Unidas, deslocando o voto majoritário das potências e dos EUA para o Sul Global. O Congo, de Patrice Lumumba, se torna o campo de batalha pela influência na ONU. O Departamento de Estado dos EUA entra em ação, enviando o embaixador do jazz Louis Armstrong ao Congo para desviar a atenção do golpe apoiado pela CIA. Abbey Lincoln e Max Roach invadem o Conselho de Segurança, Nikita Khrushchev bate com o sapato, formando a trilha para um iminente golpe de Estado.

O documentário foi inteiramente montado com imagens de arquivo e conta uma história urgente que ressoa mais do que nunca na atualidade.

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