DAVI MOLINARI
Era um misto de raiva e indignação. Mas não dessas que passam depois de um chope gelado — era daquelas que ficam fermentando no peito, tipo cerveja ruim esquecida no sol.
Do lado de fora do Fale Mais Sobre Isso, a cena parecia assembleia de sindicato com crise existencial coletiva. Bandeiras vermelhas tremulando, estudantes gritando “Congresso inimigo do povo”, e uma energia no ar que misturava Primeiro de Maio com sessão de terapia em grupo
De longe, vi o Juvenal negociando o espaço com a multidão, como quem tenta organizar o inconsciente coletivo com uma bandeja de manjubinha.
— Calma, minha gente! Aqui é território democrático! — gritava ele, equilibrando três tulipas de chope e uma crise institucional.
Fui abrindo caminho no meio da massa. Mais xingamentos, mais memes ao vivo, mais gente com aquele olhar de quem descobriu que o mundo não é justo… e resolveu não aceitar.
— Alcolumbre traidor!
— Traidor! Vendido!
Aquilo me pegou no meio do caminho.
Como pode o inimigo virar traidor?
Guardei a pergunta.
Juvenal me viu e fez um gesto de resgate.
— Vem, meu analisado. Hoje o povo tá em surto… e você também.
Não discuti. Ele me escoltou até a mesa.
E lá estava ele.
O Doutor.
Imóvel. Sobrancelha arqueada. Bloquinho aberto.
Sentei.
Respirei.
Fracassei em parecer equilibrado.
— Doutor… eu tô com raiva.
Ele não reagiu. Só anotou.
— Não é uma raiva qualquer… parece que a gente apanha, levanta, acredita… e aí vem um acordão por cima e… pá… nocaute institucional. Com Supremo com tudo. O efeito BolsoMaster na política nacional.
A sobrancelha dele subiu.
— E agora chamam o Alcolumbre de traidor… mas traição não pressupõe aliado?
Ele anotou.
Juvenal entrou:
— Quando você chama de traição, você confessa que acreditou.
Silêncio.
— Desde quando inimigo trai? — completou — Inimigo faz exatamente o que se espera dele. E ele entregou a redução da pena dos golpistas para proteger os rastros do Banco Master.
Bebi.
Amargo.
— Talvez não seja traição… seja ingenuidade nossa.
— Agora você começou a sessão — disse Juvenal.
O Doutor seguiu escrevendo.
— Tá todo mundo tratando o Congresso como vilão absoluto… virou o “objeto mau”.
— Melanie Klein — disse Juvenal — ou é tudo bom ou tudo ruim.
— Você virou freudiano?
— Não. Só observo sintomas de cliente bêbado e da política brasileira, que são a mesma coisa.
Dei um gole no chope.
— Mas mexeram com o nosso narcisismo coletivo… aquilo no Senado bateu como humilhação.
O Doutor parou de escrever.
Silêncio.
— Quando o “pai simbólico” apanha… todo mundo sente — arrisquei.
— E aí vem a raiva — disse Juvenal — porque é mais fácil do que admitir impotência.
Olhei ao redor. Gritos, lives, posts.
Ira… e desespero disfarçado.
— E quando fica intenso demais… a gente foge.
— Pro feed?
— Pro feed do TikTok ou do Instagram.
— Enquanto o mundo pega fogo, a gente controla a tela — disse Juvenal.
— Então a gente oscila entre mudar o mundo… e deslizar o dedo?
— Sobrevivência psíquica.
Silêncio.
Lá fora: o fim da escala 6×1, a disputa pela Paulista e o STF.
Tudo ao mesmo tempo.
Raiva. Esperança. Ansiedade. Meme.
— Parece que a gente tá sempre recomeçando… como se nada fosse suficiente.
O Doutor cruzou as pernas.
Anotou.
Clímax.
— Primeiro de Maio nasceu de gente que morreu lutando por jornada digna… e a gente ainda briga por tempo pra viver.
Juvenal serviu mais chope.
— Se eles tivessem desistido… você nem estava aqui reclamando.
Aquilo bateu.
— Então essa raiva não é só destrutiva.
— É energia — disse Juvenal.
Olhei o Doutor.
Silêncio absoluto.
Ele fechou o caderno.
E disse:
— Raiva que não vira ação vira sintoma. Raiva que vira ação vira história.
Pronto.
Fiquei parado.
Lá fora, alguém começou a cantar.
Era quase… esperança.
Juvenal sorriu, já recolhendo os copos.
— E aí… protesto ou meme?
Levantei.
— Primeiro… parar de chamar inimigo de traidor.
Ele assentiu, satisfeito.
— Depois?
Olhei pra pra multidão.
— Depois… lutar melhor contra o inimigo.
Juvenal deu aquele meio sorriso de quem já viu esse filme antes.
Porque no Brasil…
a gente luta…
e, quando aprende…
descobre que o problema nunca foi falta de força —
foi excesso de ingenuidade.
Publicado originalmente em Divã no Boteco – XC. Enviado pelo autor.










