Irã apresenta nova proposta para paz e reabertura de Ormuz e Trump se diz “insatisfeito”

Foto de satélite do Estreito de Ormuz, que o Irã propõe reabrir caso avancem as negociações

Caso Washington altere sua “abordagem expansionista” e “retórica de ameaças”, o Irã segue aberto à diplomacia, afirmou o chanceler Araghchi. Frente aos boatos sobre ataques “curtos e poderosos”  dos EUA, Teerã advertiu: a resposta será “prolongada e contundente”

A agência de notícias estatal iraniana IRNA informou nesta sexta-feira (1º) que o Irã apresentou aos Estados Unidos, através do mediador Paquistão, uma nova proposta para o fim da guerra desencadeada por Washington, com sua agressão não provocada em 28 de fevereiro, em conluio com Israel.

“A República Islâmica do Irã entregou na noite de quinta-feira o texto de sua mais recente proposta de negociação ao Paquistão, como mediador nas conversas com os Estados Unidos”, informou IRNA.

De acordo com o The New York Times, o presidente Trump já disse que “não ficou satisfeito” com a proposta – depois de ter passado a semana postando na sua rede Truth Social uma provocação atrás da outra contra o Irã.

Desde “no more mr. nice guy” [não mais sr. bonzinho – e trajado de gângster mafioso] ao seu “mapa do Estreito de Trump”, mais as previsões de que as instalações de petróleo iraniano iriam “explodir em três dias” por causa do bloqueio naval. Agora, ele diz não ter certeza se “vamos chegar a um acordo”.  

O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, afirmou que o Irã permanece aberto à diplomacia caso Washington altere sua “abordagem expansionista” e sua “retórica de ameaças”.

Nesta sexta-feira concluiu-se o prazo de 60 dias da lei dos poderes de guerra de 1973, enquanto Trump assevera não precisar do aval do Congresso. Seu chefe do Pentágono, Pete Hegseth, alega que a guerra está “em pausa” desde o cessar-fogo.

De acordo com o presidente iraniano Massoud Pezeshkian, o bloqueio naval americano constitui uma “extensão das operações militares”, além de uma violação da trégua. E é visível que só não houve troca de tiros por causa da contenção do Irã diante do embargo ilegal.

Embora a IRNA não haja entrado nos detalhes da proposta iraniana, seus princípios já haviam sido delineados na recente turnê de Araghchi pelo Paquistão (duas vezes), Omã e Rússia (com reunião com o presidente Putin), além de conversas por telefone com a Turquia, Egito, Arábia Saudita e Qatar.

Primeiro, estabelecer as garantias de uma paz duradoura e da soberania do Irã e de Omã sobre o Estreito de Ormuz. Posteriormente, o fechamento da “questão nuclear”.

Esta possivelmente, segundo analistas, com alguma variante do que foi feito no acordo JCPOA de 2015 de Obama, em que a Rússia contribuiu para a diluição e reaproveitamento do urânio enriquecido, para fins pacíficos, assegurados os direitos previstos pelo TNP aos países membros, mas que Trump exige cassar para atender seu cúmplice Netanyahu.

No acordo JCPOA, o Irã aceitou a mais rígida fiscalização já feita pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) em troca do fim das sanções, cumpriu tudo e foi exatamente Trump, em seu primeiro mandato, que destruiu o acordo, retirando os EUA e instaurando sanções incapacitantes ao Irã, à revelia do que o Conselho de Segurança da ONU votara.

O ESTREITO DE ORMUZ

Essas duas primeiras questões atendem à urgência em reabrir o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo e gás negociado no mundo, mais um terço dos fertilizantes – o que ameaça os cultivos da primavera no hemisfério norte – e, ainda, o gás hélio, sem o qual a produção de semicondutores e a expansão dos centros de IA param, com toda a repercussão na economia global, nos preços, nas cadeias de suprimento e na produção de alimentos.  

Em uma entrevista à televisão na noite de quinta-feira, o porta-voz da diplomacia iraniana, Esmaeil Baghaei, disse que o fim da guerra e a paz sustentável são prioridades de Teerã nas negociações com Washington.

Como já enfatizara o primeiro vice-presidente do Irã, Mohammad Reza Aref, um acordo com a “America First” é possível, mas não com “Israel First” – o regime genocida e de apartheid que exige monopólio na chantagem nuclear sobre os países vizinhos e sua balcanização, em prol do insano e racista projeto do “Eretz Israe Shleimá [Terra de Israel Completa]”.

Para Teerã, o ziguezague nas posições dos negociadores dos EUA, a falta de coordenação na tomada de decisões em Washington e também o colapso total da confiança entre Irã e EUA estão entre os principais obstáculos para um acordo que encerre a guerra.

Por duas vezes, os EUA, atraiçoaram negociações diplomáticas em curso, para desencadear agressões armadas contra o Irã, inclusive o assassinato do líder iraniano, o aiatolá Ali Khameneit, e o massacre na escola primária de Minab.

Há 20 anos que Netanyahu alega quase diariamente que “em um ou dois meses” o Irã “terá a bomba”; mas, de acordo com o depoimento da diretora nacional de Inteligência de Trump, Tulsi Gabbard, depois do bombardeio americano do ano passado às instalações iranianas Teerã não fez qualquer esforço para retomar o programa nuclear, cuja componente militar reconhecidamente foi encerrada em 2003 por ordem do aiatolá Ali Khamenei.

Desde 8 de abril, está em vigor um cessar-fogo temporário, precariamente estendido por Trump, depois de 21 horas de negociação em Islamabad em 11 de abril que terminaram em impasse, sob as “exigências excessivas” de Washington – ou seja, ultimatos.

O Irã chegou a reabrir o Estreito, mas voltou a fechá-lo diante da imposição de um bloqueio naval americano contra navios e portos iranianos e em violação do cessar-fogo, situação que se estende até hoje.

O processo desencadeado pelo Irã, junto com Omã, para estabelecer uma nova gestão no Estreito, que garanta a segurança e evite embarcações inimigas, já causou engulho no secretário de Estado Marco Rubio, segundo o qual o Estreito “é uma arma nuclear econômica”, que acusou o Irã de usar “contra o mundo” – isto é, contra a dominação americana.  

QUATRO SÉCULOS DA LIBERTAÇÃO DE ORMUZ

Na quinta-feira, o Irã festejou a libertação de Ormuz da dominação colonial portuguesa, ocorrida há quatro séculos, depois de um século de ocupação e duas décadas de luta.

O novo líder supremo, Motjaba Khamenei, dirigiu mensagem aos iranianos, enfatizando que “dois meses após a maior invasão e agressão dos tiranos mundiais na região, e após o fracasso retumbante dos Estados Unidos em seu plano, um novo capítulo está sendo escrito para o Golfo Pérsico e o Estreito de Ormuz”.

Ele anunciou um “futuro brilhante” para a região “sem os Estados Unidos, a serviço do progresso, da tranquilidade e do bem-estar de seus povos”.

Nesta sexta-feira, ele voltou ao assunto: “O Golfo Pérsico é mais do que um simples corpo d’água — ele faz parte da nossa identidade e do nosso tecido de vida, e é uma rota de conexão significativa para nossa economia com o mundo”.

E não deixou de espicaçar os americanos. “As ‘bases de papelão’ dos Estados Unidos nem sequer conseguem garantir a própria segurança, quanto mais a dos admiradores dos EUA na região”, escreveu em uma postagem.

61% DOS AMERICANOS CONTRA A GUERRA

Nova pesquisa nos EUA (Washington Post-ABCNews-Ipsos) confirmou o quanto a guerra de Trump é impopular.

Ao contrário do que ocorreu com a maioria das guerras desencadeadas por Washington inicialmente, agora a rejeição, conforme a pesquisa, é de 61% – mesmo patamar da desaprovação a Trump. Isso a seis meses das eleições intermediárias que decidem o controle do Congresso. Mesmo entre celebridades do MAGA há oposição à guerra e ao estelionato eleitoral de Trump.

Segundo a mídia do establishment, o governo Trump analisa dois caminhos – escalada ou declarar “vitória” e fugir -, sob a pressão das eleições iminentes e do fardo de que, para obter seu segundo mandato, ele prometeu aos eleitores acabar com as “guerras eternas” dos EUA.

O comando da Guarda Revolucionária Islâmica já advertiu que se os EUA voltarem a atacar, os navios de guerra americanos terão o mesmo destino das bases americanas na região.

A mídia dos EUA relatou que na reunião de Trump com os altos mandos militares entre as “alternativas” discutidas esteve desfechar ataques “curtos mas poderosos”, com o Irã advertindo que sua resposta será com “ataques prolongados e contundentes”.

Israel recebeu dos EUA nos últimos dias 6.500 toneladas de armas e munição, e como de hábito, sempre está pronto para a escalada – além de continuar transformando o sul do Líbano em uma “nova Gaza” enquanto seus soldados saqueiam casas abandonadas e matam mais civis.

BAZÓFIAS VS NÚMEROS REAIS

Quanto a Trump, continua com suas bazófias sobre ter “destruído o poder militar iraniano”. “Eles não têm marinha, eles não têm força aérea, não têm defesa antiaérea, eles não têm nada”, insiste, sem conseguir sequer convencer a mídia americana.

Segundo a CBS News, que cita várias autoridades militares americanas, “a Guarda Revolucionária Islâmica ainda teria 60% de suas capacidades navais, metade dos mísseis balísticos e dos lançadores e dois terços da força aérea”.

É bem melhor do que os informes que surgem na mídia ocidental sobre a devastação dos arsenais dos muito caros mísseis dos EUA e do largo tempo necessário para a reposição.

Segundo o Centro Para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), um think tank de Washington, afiliado à Georgetown University, em 39 dias de guerra aérea antes do cessar-fogo, as forças dos EUA usaram pesadamente sete projéteis, conforme a tabela 1. Para quatro dos sete tipos, os EUA podem ter gasto “mais da metade do estoque pré-guerra”. De acordo com o CSIS, recompor os níveis pré-guerra levará de “um a quatro anos” a serem entregues.

De acordo com o senador democrata e veterano da Força Aérea, Mark Kelly, “a conta não fecha”. “Os projéteis que estamos disparando — Patriot, THAAD — custam milhões de dólares cada”, afirmou ao MS Now, acrescentando que os drones Shahed, usados pelo Irã, custam cerca de US$ 30 mil. E para abater um Shahed, mais de um míssil é disparado, no mínimo.

Hegseth, em seu depoimento ao Congresso dos EUA, estimou os gastos na guerra contra o Irã em “US$ 25 bilhões” – mas, de acordo com o chanceler Araghchi, o valor real é quatro vezes maior, US$ 100 bilhões.

GUERRA ASSIMÉTRICA

O presidente do parlamento iraniano, e ex-comandante da Guarda Revolucionária Islâmica, Ghalibaf, recentemente afirmou: “Não somos militarmente mais fortes que a América. Está claro que eles têm mais dinheiro, equipamentos e recursos, e porque já realizaram tantas agressões ao redor do mundo, também têm mais experiência do que nós. O regime sionista, que é servo e agente dos Estados Unidos na região, também possui alto poder. Lutamos em uma guerra assimétrica de tal forma que, com nosso próprio design e preparação, empurramos o inimigo para trás.”

“O inimigo tinha dinheiro e recursos, mas não agiu corretamente no design. Eles cometem erros em decisões estratégicas. Eles estão errados sobre nosso povo, assim como estão errados em seu design militar. O governo dos EUA afirma que “América em Primeiro Lugar” é importante para ele, mas na prática mostrou que Israel First é que é favorecido. Porque toma decisões baseadas em informações falsas vindas de Israel.”

Outro terreno em que o Irã surpreendeu o Grande Satã foi na guerra de denúncias, com os vídeos de estilo lego, prenhes de humor e ironia, viralizando no mundo inteiro e isolando Trump. Um trabalho também realizado com excelência pelas embaixadas iranianas no mundo inteiro.

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