Grupo de Cláudio Castro negociou cargos dentro de escolas com traficantes

Thiago Rangel e seu padrinho político, o ex-governador Cláudio Castro - Foto: Reprodução/Redes Sociais

Áudios e mensagens obtidos pela Polícia Federal apontam que o deputado estadual Thiago Rangel negociou cargos na Secretaria Estadual de Educação do Rio durante o governo Cláudio Castro para pessoas indicadas pelo traficante Arídio Machado da Silva Júnior, o “Júnior do Beco”, apontado como um dos chefes do Terceiro Comando Puro (TCP) em Campos dos Goytacazes. As investigações atingem aliados do governador Cláudio Castro e revelam suspeitas de uso político da estrutura da educação para beneficiar integrantes ligados ao crime organizado.

As gravações fazem parte da investigação da Polícia Federal e da Polícia Civil do Rio que levou à prisão preventiva de Thiago Rangel. O deputado, filiado ao Avante, é acusado de comandar um esquema de fraudes em contratos de obras e serviços da rede estadual de ensino, além de lavagem de dinheiro envolvendo empresas e uma rede de postos de combustíveis.

Segundo a PF, mensagens extraídas do celular de Fábio Pourbaix Azevedo, apontado como braço direito do parlamentar e também preso na operação, mostram Thiago Rangel reservando vagas de auxiliar de serviços gerais na Educação para indicados de “Júnior do Beco”.

“Thiago envia o contato salvo como ‘Júnior do Beco’ e pede para Fábio falar com o contato em nome dele, relatando que possui 8 (oito) vagas de ASG (auxiliar de serviços gerais) disponíveis na educação e, dessas 8 (oito), era para dar mais uma vaga para o Júnior do Beco, pois ele havia solicitado duas vagas”, diz o relatório da Polícia Federal.

Em outro áudio obtido pela investigação, Gleice Maria Batista da Silva, identificada como irmã do traficante, cobra a nomeação prometida. “Thiago Rangel, aqui é Gleice, irmã de Juninho do Beco. Eu fui fazer uma entrevista em agosto ou setembro e até hoje não me deram uma posição. Meu irmão pediu para eu te ligar para ver o que estava acontecendo.”

Os investigadores também apontam que Thiago Rangel exercia controle político sobre estruturas da Secretaria Estadual de Educação. Em uma mensagem enviada à então diretora regional de Educação do Noroeste Fluminense, Júcia Gomes de Souza Figueiredo, presa na operação, o deputado afirma: “Júcia, continua aí do jeito que você tem que estar. Tudo que acontecer dentro da regional eu quero saber. Eu não tenho que dar satisfação a ninguém. O deputado sou eu. A indicação é minha e quem manda sou eu”.

Segundo a PF, Júcia atuava como uma espécie de “longa manus” do parlamentar dentro da pasta e exercia função considerada “vital” no funcionamento do esquema investigado. À época, ela comandava a Regional Noroeste da Seeduc, responsável por 57 escolas estaduais em 13 cidades, com mais de 3.200 servidores.

As investigações também apontam suspeitas de lavagem de dinheiro. Em um dos diálogos analisados, Júcia encaminha a Thiago Rangel um comprovante de transferência de R$ 100 mil da empresa VAR Construtora para a empresa E. H. Almeida de Souza Casas de Festas. Em seguida, envia as mensagens: “Já mandei 100”; “amanhã vai o resto”.

A Polícia Federal afirma que a VAR Construtora aparece ligada a obras em escolas estaduais e não possuía funcionários registrados na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), o que aumentou as suspeitas de fraude nos contratos.

Outro conjunto de mensagens analisado pela PF tenta demonstrar a proximidade entre Thiago Rangel e Arídio Machado da Silva Júnior. Em um dos áudios, o deputado orienta a organização das indicações: “Você faz dois bloquinhos, prende um papelzinho escrito Junior do Beco e bota um clip juntando os dois.”

Condenado em 2021 por tráfico de drogas e homicídio doloso, “Júnior do Beco” é apontado pela Polícia Civil como um dos principais líderes do TCP no subdistrito de Guarus, em Campos dos Goytacazes. Relatórios policiais descrevem ele e o irmão, Thiago Batista da Silva, como “chefes e matadores” da facção, envolvidos em homicídios, corrupção de menores e expansão territorial do tráfico.

A decisão que autorizou a prisão preventiva de Thiago Rangel foi assinada pelo ministro Alexandre de Moraes. Segundo Moraes, os elementos reunidos pela investigação apontam para a “instrumentalização” da Secretaria Estadual de Educação em benefício do grupo investigado.

A operação é um desdobramento da Operação Unha e Carne, investigação que também alcançou o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, preso em novembro sob suspeita de vazar informações sobre uma operação envolvendo TH Jóias, apontado como ligado ao Comando Vermelho.

As investigações ainda revelaram uma planilha encontrada no computador de Rui Bulhões, ex-chefe de gabinete de Bacellar, listando órgãos e cargos sob influência política de deputados estaduais. Thiago Rangel aparecia ligado ao Detran de Campos, ao IPEM de Campos e a 15 vagas na Alerj, além de pedidos envolvendo o Detro, Fundação Leão XIII, Fundação para a Infância e Adolescência e vagas na Secretaria Estadual de Trabalho.

A defesa de Thiago Rangel negou irregularidades e afirmou que as mensagens foram retiradas de contexto. Segundo os advogados, o deputado não integra organização criminosa nem manteve contato ilícito com integrantes de facção. A Secretaria Estadual de Educação informou que realiza revisão administrativa dos contratos e obras de manutenção das escolas da rede estadual.

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