Com a Praça Bolívar, em Bogotá, completamente lotada, o candidato do Pacto Histórico à presidência destacou o empenho da líder indígena e sua vice, Aida Quilcué, para, “juntos, honrar o governo progressista de Gustavo Petro”
“O uribismo é fascista, representa a justificativa dos piores crimes que foram perpetrados nas últimas décadas na Colômbia, não só o massacre de jovens, a perseguição dos povos indígenas e o desprezo aos pobres, mas também as políticas neoliberais que empobreceram milhões e, igualmente, a criminalização dos diálogos de paz”, afirmou o senador Iván Cepeda, candidato do Pacto Histórico à presidência, na noite desta sexta-feira (22), em Bogotá.
Sob um mar de bandeiras de múltiplas cores, congregando a ampla frente que dá força às mudanças empreendidas pelo presidente Gustavo Petro, se somando à continuidade do “segundo governo progressista”, dezenas de milhares se fizeram presentes à Praça Simón Bolívar, enfrentando o chuvisco e a temperatura de dez graus.
“Se vive, se sente, Cepeda presidente”, “Cepeda, amigo, o povo está contigo” e “Com Iván Cepeda o povo no poder se queda (fica)” foram as palavras de ordem mais entoadas, em meio à defesa da política de paz e vivas entusiásticas à Palestina, Cuba e Venezuela.
Congregando músicos, ativistas, lideranças partidárias, comunitárias e dos movimentos sociais, o “Festival pela Vida” iniciou às cerca das 15 horas e entrou noite adentro, com expressiva participação da juventude. Pela primeira vez, vi um mar de pessoas ajoelhadas para encontrar uma criança perdida. O feito foi acompanhado por danças caribenhas, abraços e sorrisos, como comemorassem um gol.
“Pelo bem de todos, primeiro os pobres”, declarou Cepeda, saudando o “dia de festas” que vai além da comemoração das pesquisas de opinião, “nas quais ocupamos sempre e em todas há nove meses o primeiro lugar na intenção de voto”. Uma força demonstrada em março “no poder popular e cidadão do Pacto Histórico, nas ruas e nas urnas, que elegeu a maior bancada do Congresso da República”. “Nosso companheiro presidente Gustavo Petro goza de ampla simpatia e merecido carinho pela tarefa que cumpriu de forma valente e eficaz na defesa do povo colombiano e de seus direitos”, assinalou.
“ALIANÇA PELA VIDA REÚNE PROGRESSISTAS, LIBERAIS E REFORMISTAS”
“Temos costurado pacientemente a Aliança pela Vida, uma sólida e diversa coalizão de forças que reúne progressistas, liberais e reformistas de todo o espectro político e social. Recorremos sucessivamente o país e em 117 atos públicos multitudinários como este”, apontou. Agora, enfatizou, “lhes faço a mais cordial convocação para terminarmos a tarefa com um grande triunfo nas urnas e derrotamos a extrema-direita como merece”.
“Vamos assegurar nosso triunfo, não deixando um único rincão do território por recorrer, uma única casa por visitar, uma única mensagem para enviar, uma única janela sem cartaz, uma única parede sem nossas pinturas. Que se sinta a onda progressista por todo o país e que em 31 de maio, o mais importante: organizemos o eleitorado sua mobilização às urnas de forma massiva e contundente e vigiemos até que se acabe a contagem dos votos”, convocou Iván Cepeda.
“A MACABRA ESTRATÉGIA DOS FALSOS POSITIVOS DE ÁLVARO URIBE”
O candidato pediu a todos para fazerem “uma reflexão coletiva sobre o significado político e cultural do triunfo que obteremos”. “Há alguns dias, em Antióquia, um grupo de jovens e mães de vítimas realizaram um ato cultural de expressão pacífica (2002-2010) sobre os crimes cometidos nos governos de Álvaro Uribe. Pintaram um mural para reivindicar a memória e a dignidade dos milhares de jovens que foram assassinados, torturados e desaparecidos como parte da macabra estratégia dos falsos positivos e da tomada militar da Comuna 13 de Medellín”. [A maior incursão militar da história do país ocorreu nos dias 16 e 17 de outubro, ordenada por Uribe, mobilizou mais 1.500 policiais e soldados, acompanhados por grupos paramilitares encapuçados, deixando dezenas de mortos, mais de 80 feridos, cerca de 500 desaparecidos, civis enterrados clandestinamente em valas e áreas de aterro].
Naquele momento em Antióquia, ressaltou, “não foram feitos debates, as mães e jovens não convocaram o ódio, não promoveram a vingança. Simplesmente, como fizeram com infinita paciência e perseverança por décadas, exerceram o poder da verdade em frente à impunidade e ao silêncio… Para esse ato pacífico e de memória, a resposta de Uribe e de seus fanáticos seguidores foi a raiva, a ameaça, a violência física e o insulto. No meio de sua fúria, incapaz de tolerar a verdade, que volta uma e outra vez, a interpelar seu exercício de poder sanguinário, Uribe me chamou de assassino e, ouçam bem, “Apache”. Atenção a isso. Esta não é uma frase inocente, produto da excitação casual. Não, senhor. É a expressão de uma visão do mundo que ele representa”.
“Quando alguém usa um termo associado ao racismo estrutural para desqualificar outra pessoa, revela o fundo de seu pensamento político e de sua ausência total de moral. E é aí que Uribe nos mostrou seu verdadeiro rosto, onde se mostra a extrema direita colombiana em todo seu esplendor. Um projeto que, mesmo invocando a democracia no discurso, conserva dentro de si raios essencialmente autoritários e racistas”, indicou.
“O FASCISMO COMEÇA OS GENOCÍDIOS, COMO VIMOS EM GAZA”
“O fascismo, ouçam bem, o fascismo começa os genocídios… Quando, como vimos em Gaza, com soberbia e suposta superioridade, se refere ao outro como inferior. Quando começa a trabalhar a ideia de que há seres humanos que são superiores a outros e que é lícito despejar e descartar a vida de centenas de milhares ou bilhões de seres humanos. Esse é o fascismo, senhoras e senhores. O uribismo é fascista. Representa a ideologia do desprezo em todos os componentes dos outros seres humanos”, denunciou Cepeda.
Por essas razões, Cepeda reiterou que “devemos caminhar junto ao povo, junto às lutas sociais, com o povo, pelo povo e para o povo. O eixo central do nosso programa é e continua sendo reparar o grande dano que causou durante décadas o modelo neoliberal. Nosso programa é para construir oportunidades e prosperidade para toda a nação”.
“Nosso programa busca eliminar a pobreza, superar a desigualdade social, acabar com a fome, o desemprego e manter o salário mínimo digno. Possibilitar água potável, energia elétrica a baixo custo a todos e não somente para as grandes cidades, investir em infraestrutura básica e obras públicas para o bem-estar das comunidades. Construir universidades públicas em territórios e regiões rurais, nas periferias urbanas, para que os jovens, camponeses, indígenas e afrodescendentes das comunidades populares possam ter acesso à educação superior de qualidade. Reconhecer a economia do cuidado e dar garantias trabalhistas dignas a todas as mulheres do país”, destacou.
“COMEMORAREMOS AO LADO DO COMPANHEIRO PETRO”
O triunfo deste primeiro de junho será comemorado ao lado do nosso companheiro presidente Gustavo Petro, indicou, “onde realizaremos uma homenagem nacional muito merecida, para poder dizer a ele que estamos orgulhosos de ter sido conduzidos pela sua liderança. E então, começaremos nossa segunda grande marcha, que é o nosso novo governo progressista. Uma marcha que, como disse minha companheira de fórmula e futura vice-presidente Aida, será o grande mutirão das transformações sociais na Colômbia, para que sejam irreversíveis. Me chamo Ivan Cepeda e vou ser seu presidente no primeiro turno”, concluiu, com dezenas de manifestantes respondendo “é primeira, é primeira!”.
Referência da luta indígena colombiana e latino-americana, Aída Quilcué, que teve o seu marido assassinado pelo Exército, em dezembro de 2008, quando se dirigia para buscá-la de uma missão das Nações Unidas em Genebra, agradeceu o compromisso de todos.
“Quero dizer que este projeto político é avançado e temoscrescido na dignificação de muitos dos nossos direitos”, disse Aída, fazendo uma saudação especial aos trabalhadores que foram incansáveis na luta pela reforma trabalhista. “Neste governo se materializou um dos direitos mais importantes, que é o salário mínimo. Temos avançado com a reforma da Previdência por quem trabalhou e dedicou sua vida para o país, mas também por uma renda básica para os idosos, e vamos avançar mais”, se comprometeu, defendendo uma atenção redobrada à juventude, “porque são nossos filhos e lutaram, e são parte desta Colômbia, o presente e o futuro, que seguirá construindo este projeto político de país”.
“Vamos continuar caminhando. Este projeto político não tem retrocesso. Podem nos colocar quaisquer obstáculos, podem fazer o que quiserem, mas aqui há um povo que hoje tomou consciência. Estamos no tempo dos povos, das mulheres, no tempo da Mãe Terra e vamos lutar por ela. Meu nome é Ainda Quicé e serei sua vice-presidente”, encerrou sob forte emoção e aplausos.
A MANIPULAÇÃO DA MÍDIA HEGEMÔNICA
Neste sábado (23), o medo pânico dos banqueiros, transnacionais e latifundiários com a continuidade do governo progressista, transbordou pelas manchetes dos principais jornais, que trataram de ocultar a multitudinária manifestação de Bogotá: “Sergio Fajardo [direitista] e Paloma Valencia [uribista] tomaram café em Barranquilla: a conversa terminou sem um acordo de aliança” (El Tiempo}; “A pesquisa da AtlasIntel que queriam calar: Abelardo de la Espriella [bilionário] está praticamente empatado com Iván Cepeda e o venceria no segundo turno por mais de oito pontos” (Semana); “Uma direita forte mas dividida chega as urnas” (El Nuevo Siglo”; “O que farão os candidatos em relação à segurança, aos grupos armados e ao Acordo de Paz? A promessa de paz total de Petro tornou-se um dos principais pontos de discórdia na campanha presidencial de 2026” (El Espectador) y “Greve nacional de 2021: as feridas abertas da revolta social” (Cambio).
LEONARDO WEXELL SEVERO, de BOGOTÁ-COLÔMBIA
Esta cobertura da Agência Comunica Sul de Comunicação Colaborativa só foi possível graças ao apoio do Sindicato dos Bancários de São Paulo; Sindicato dos Escritores do Estado de São Paulo; jornal Hora do Povo; Vermelho; Diálogos do Sul Global; Correio da Cidadania; Barão de Itararé; vereador Werner Tempel (PCdoB) de Santa Maria-RS; Professor Azuaite, de São Carlos-SP; Instituto Angelim, além de vários colaboradores anônimos.











