Com 94% das urnas apuradas, o candidato progressista Roberto Sánchez assumiu a dianteira da disputa presidencial no segundo turno no Peru e está à frente da filha do ditador Fujimori, Keiko.
Sánchez está com 50,022% dos votos, enquanto Fujimori tem 49,978%. O resultado da eleição permanece indefinido devido à pequena diferença e a disputa é voto a voto.
É a quarta tentativa de Keiko Fujimori, e nas três eleições presidenciais anteriores, 2011, 2016 e 2021, ela perdeu por cerca de 40.000 votos, sob o peso do “Fujimori nunca mais”.
De acordo com a contagem oficial do órgão eleitoral do país, a virada de Sánchez veio às 14h58 (horário de Brasília). A pesquisa de boca de urna do Ipsos dera empate técnico, com Fujimori com menos de 0,5 ponto percentual à frente, mas dentro da margem de erro.
O crescimento de Sánchez na reta final já era esperado, já que ele é forte nas zonas eleitorais rurais, as últimas a serem contabilizadas.
No primeiro turno, Keiko ficou na frente com 17,2% e Sánchez obteve 12%. O segundo turno transcorreu sem maiores incidentes. Sinal da fragmentação do país, os dois tiveram menos de 30% dos votos no primeiro turno.
Em dez anos – o tempo de dois mandatos -, o Peru teve nove presidentes, em razão do controle do Congresso pelo fujimorismo, que usa e abusa do estranho artigo da constituição – que ainda é a da ditadura -, que permite a derrubada do presidente por “incapacidade moral ou física permanente”, sem que haja acusação ou necessidade de prova, desde que votado por dois terços do congresso.
À crise política que não cessa sob uma sucessão de impeachments presidenciais promovidos pelo Congresso se soma o aumento da desigualdade e da pobreza sob o modelo neoliberal em vigor.
Filha do ditador Fujimori, derrubado pela mobilização popular e preso depois de uma década de desmandos e corrupção, Keiko se apresentou como a candidata de Trump e da restauração dos laços com Washington, se oferecendo para enfiar o país no clube de fantoches ciceroneado pelo secretário de Estado Marco Rubio, o mal denominado Escudo das Américas.
E, macaqueando o bilionário de Mar a Lago, fez campanha pela deportação dos imigrantes e contra a “criminalidade”, apesar de estar por trás das chamadas “leis pró-crime”.
Sánchez, ex-ministro de Pedro Castilho, o presidente deposto pelo Congresso controlado pelos fujimoristas e neoliberais, em sua campanha chamou a industrializar o país, a fortalecer o mercado interno e os direitos, a fazer a reforma agrária e a convocar um referendo para revogar a constituição da ditadura, imposta em 1993, ainda em vigor.
Sob os altos preços internacionais do cobre e do ouro, as duas principais exportações peruanas, e de investimentos como o megaporto de Porto de Chancay, com participação chinesa (60%) e peruana (40%), o crescimento do país tem se mantido na ordem de 3% ao ano ou mais. A China se tornou o principal parceiro comercial do país.
A dívida pública é de 31,3% do PIB, uma das mais baixas da América Latina, e as reservas chegam a US$ 85 bilhões. A taxa de juros real está em torno de 0,35% ao ano, calculada pela diferença entre a taxa básica de juros do BC do Peru e a inflação acumulada nos últimos 12 meses, que recentemente ficou em 3,9%.
Mas esse crescimento não chega à imensa maioria da população, com a informalidade beirando os 70%, quase 30% da população vivendo em situação de pobreza e uma porcentagem semelhante à beira de cair nessa condição.
Ao mesmo tempo, sob o controle fujimorista do Congresso, foram aprovadas as chamadas “leis pró-crime”, que debilitaram a capacidade de investigar e processar as organizações criminosas. Ocorreu uma explosão da deliquência, principalmente de organizações criminosas dedicadas à extorsão e assassinatos por encomenda. As denúncias por extorsão passaram de 9 mil em 2022 a mais de 25 mil em 2025. Os homicídios saltaram no mesmo período de 8,6 a 10,7 por cada 100 mil habitantes. Tornando aguda a questão da insegurança, o que o fujimorismo tenta manipular cinicamente.
Veja link para acompanhar a apuração:











