Colômbia: candidato Espriella é advogado de narcotraficantes e lambe-botas de Trump

Além de cidadão norte-americano e declarado puxa-saco de Trump, Espriella fez carreira defendendo os mais desclassificados chefes do narcotráfico (Redes Sociais)

Sob o abraço da jiboia de Trump e sua Doutrina Monroe 2.0, a Colômbia vai às urnas neste domingo (21) com as pesquisas apontando o candidato fascista Abelardo de la Espriella à frente no segundo turno, contra o candidato do presidente Gustavo Petro, o senador progressista e filósofo Iván Cepeda.

Esta é a encruzilhada na qual está colocado o país latino-americano: retrocesso ao regime narcomafioso e à submissão aos EUA, ou aprofundamento das mudanças no país, por mais justiça, industrialização, soberania e integração no Continente.

Em sua campanha demagógica, Espriella diz ser um “outsider”, “antissistema”, “anticorrupção”, mas enricou mesmo foi como advogado de chefões do narcotráfico e capos das milícias (‘paramilitares’, no jargão colombiano) e de estelionatários.

Também se diz um “empresário de sucesso”, operando em vários ramos, dos vinhos aos imóveis e ao escritório de advocacia. Admirador declarado de Trump, Javier Milei e do ditador salvadorenho Nayib Bukele. Na campanha, anda sempre cercado por 35 seguranças e blindagem.

Faz questão de ostentar, com postagens de carros de luxo, mansões na Flórida ou na Itália, jatinhos, mas, como bem definiu o presidente Petro, não passa de “um mequetrefe de Miami”.

E – pasmem – naturalizado norte-americano, com quatro filhos norte-americanos, e residente no exterior.

Com as forças progressistas tendo desmascarado extensamente os crimes do uribismo – o governo de Álvaro Uribe, marcado por massacres de civis a pretexto de combate à guerrilha -, sua candidata oficial acabou superada por Espriella, aliás, repetindo o que ocorreu na eleição anterior com outro ultradireitista menos torrado, mas que acabou derrotado então por Petro.

ENRIQUECEU COM O NARCOPARAMILITARISMO

Na realidade, a “trajetória de sucesso” de Espriella começou advogando para narcotraficantes e mafiosos paramilitares, tendo inclusive fundado a Fipaz – Fundação para a Promoção de Ideias e Ações de Paz -, organização laranja que operava para as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), nome de fantasia do cartel, no assim chamado “processo de desmobilização” de 2004, negociando falsos depoimentos para livrar a cara de facínoras, como mostrado pelo Centro Nacional de Memória Histórica, Comissão da Verdade e em sentença da Justiça e Paz.

Mantinha estreitos laços com o ex-líder paramilitar das AUC, Salvatore Mancuso, seu amigo de infância eque o auxiliou na gestão da Fipaz.

Entre as operações em que esteve envolvido, a oferta de suborno para “permanecer em silêncio em seu depoimento”, de acordo com o ex-paramilitar Juancho Dique, durante a desmobilização de pelo menos 30.000 paramilitares das AUC.

Conforme recente denúncia contra Espriella apresentada por Cepeda ao ministério público, o candidato mafioso “contribuiu no pagamento de subornos para a eleição do ex-Procurador-Geral Mario Iguarán” (2005-2009) a fim de que este atuasse “como fiador da impunidade para líderes paramilitares” perante os tribunais.

Espriella também foi acusado pelo ex-paramilitar Juan Carlos Sierra, vulgo “El Tuso”, de lhe pedir cerca de um milhão de dólares para “subornos perante o Tribunal” e, assim, obter penas mais leves.

Há ainda a acusação de ter adquirido uma propriedade de um parente do líder narcoparamilitar conhecido como “Comandante Barbie”, avaliada em aproximadamente US$ 200.000, e que fica próxima a um centro identificado como ponto de operações paramilitares entre 1996 e 2006.

Atuou como advogado de Diego Fernando Murillo, aliás “Don Berna”, chefe das AUC, o mafioso mais poderoso e rico, então, de Medellín e Antioquia.

Quanto a todos esses vínculos com o narcoparamilitarismo, a ação apresentada por Cepeda pede o enquadramento de Espriella em “conspiração para cometer um crime (artigo 340 do Código Penal colombiano), financiamento do terrorismo (artigo 345) e enriquecimento ilícito (artigo 327)”.

Outro caso que chama a atenção é o de David Murcia Guzmán, o criador da famosa pirâmide DMG em 2008, que prometia dividendos de 200% e ludibriou e depenou mais de 200 mil colombianos, de quem ele se tornou defensor legal. Uma relação estritamente profissional, alegou o agora candidato.

Cepeda pediu, ainda, ao Tribunal Penal Internacional que averigue a fundo cada um desses crimes porque “eles não foram devidamente investigados pelo sistema judiciário colombiano” e envolvem crimes contra a humanidade.

NATURALIZOU-SE NORTE-AMERICANO

Espriella também é denunciado por cerca de 20 magistrados colombianos, entre eles ex-ministros do Tribunal Constitucional, da Suprema Corte de Justiça e do Conselho de Estado, por sua “cidadania norte-americana” ser “incompatível” com a função presidencial. Eles também rechaçam que o Conselho de Estado haja mantido tal candidatura.

A Constituição dos EUA é explícita: “Pela presente declaro sob juramento que renuncio absoluta e inteiramente e abjuro de toda lealdade e fidelidade a qualquer príncipe potentado, estado ou soberania estrangeira dos quais até agora fui súdito ou cidadão. Que apoiarei e defenderei a Constituição e as leis dos Estados Unidos da América contra todos os inimigos estrangeiros e nacionais. Que terei verdadeira fé e lealdade à mesma. Que portarei armas em nome dos EUA quando a lei o exigir”.

“Um presidente com cidadania norte-americana estaria sujeito às leis de jurisdição extraterritorial dos EUA, criando um risco latente de conflito de interesses na tomada de decisões soberanas, nas negociações de tratados bilaterais e na gestão das políticas de segurança e defesa nacional”, esclarecem os magistrados.

Eles apontaram a “incompatibilidade de cargos de alto escalão com lealdades estrangeiras”, uma vez que “o sistema jurídico colombiano exige o máximo comprometimento com o interesse geral da nação”. “Um chefe de Estado não pode, simultaneamente, representar os interesses e a soberania do povo colombiano e manter compromissos de subordinação legal, fiscal e constitucional a um governo estrangeiro”, alertam.

Para Gustavo Gómez Aranguren, ex-presidente do Conselho de Estado e um dos juristas mais reconhecidos da Colômbia, ao adotar a cidadania dos EUA e buscar a presidência, De la Espriella  agride a ordem constitucional e a democracia.

O que torna a interferência nas eleições colombianas de Trump, que manifestou seu apoio “total e irrestrito” a Espriella, ainda mais nociva. Sobre isso, o presidente Petro afirmou que “não pode defender a Pátria quem se ajoelha aos gringos e ao narcotráfico”.

QUER PARAMILITARES ASSASSINOS DE VOLTA AO PODER

Petro advertiu ainda que Espriella “pretende devolver o poder aos paramilitares assassinos”. Como denunciou o renomado sociólogo colombiano Francisco Leal, o narcotráfico, de mãos dadas com o paramilitarismo, “afogou a Colômbia em um banho de sangue que trouxe ao país mais mortes em democracias de fancaria do que nas ditaduras do Cone Sul”.

Comparando as “mentiras sobre mentiras” de Espriella às manipulações de Goebbels, o comunicador de Hitler, o presidente colombiano advertiu que o projeto do fascista “é um convite para o suicídio nacional, para escolher os carrascos do narco-paramilitarismo”.

Um encenador, Espriella plagiou a campanha de Javier Milei, o autodeclarado “Leão”, declarando-se “El Tigre”, com um discurso cheio de imprecações e insultos e prometendo “destripar” a “esquerda”. Para combater a “insegurança”, planeja erguer 50 megaprisões de segurança máxima privadas, ao estilo Bukele, bombardear áreas rurais supostamente ligadas ao cultivo de coca, retomar em 90 dias o território onde operam guerrilhas e pedir, para isso, o apoio dos “EUA e Israel”.

Na década de 1980, foram instrutores israelenses que vieram ao país para treinar os narcoparamilitares. Os 50 melhores “alunos” foram enviados com bolsas de estudo a Israel para treinamento adicional. De acordo com A Trilha Israelense para o Terror, o líder paramilitar colombiano e traficante indiciado Carlos Castaño, em sua autobiografia Mi Confesión, disse que “eu aprendi uma infinidade de coisas em Israel, e àquele país eu devo parte de minha essência, e de minhas conquistas militares e humanas”.

Espriella também pretende reduzir em 40% o “tamanho do Estado” e liberar a “livre iniciativa”, o investimento estrangeiro e especialmente a mineração. Também já se declarou favorável a retirar a Colômbia da ONU. Planeja atrelar a Colômbia a Washington, como nos bons tempos do Plano Colômbia.

PACTO PATRIÓTICO

De acordo com as pesquisas, no segundo turno Espriella teria 50,3% contra 42,6% de Cepeda. Mas no primeiro turno, o que as pesquisas previam era Cepeda na frente. No segundo turno, uma reversão depende de atrair o voto de centro e reforçar a votação na juventude.

Filho do senador da União Patriótica, o comunista Manuel Cepeda, assassinado em 1994, Iván é um dos mais respeitados senadores colombiano e jogou um papel chave nas negociações de paz na Colômbia e contra o uribismo e pela apuração de seus crimes. Nas eleições legislativas de março de 2026, o Pacto Patriótico se tornou a principal força do Congresso.

Sob o atual governo, foi realizada a mais ambiciosa reforma agrária das últimas décadas; os índices de pobreza foram significativamente reduzidos, o salário mínimo foi elevado de forma sustentada e foram aprovadas reformas trabalhistas e previdenciárias favoráveis aos setores populares. Mas o país continua sendo um dos mais desiguais do mundo e marcado por elevada informalidade, cerca de seis em cada dez trabalhadores. Sem perspectivas, um milhão de colombianos emigraram nos últimos anos.

O país diversificou suas relações externas, ampliando laços com a Europa e a China, apesar do principal parceiro comercial continuar sendo os EUA. Com Petro, a Colômbia manteve um posicionamento altivo, diante da pressão de Washington contra Cuba e Venezuela, e quanto às execuções extrajudiciais de pescadores, no Pacífico e no Caribe, desencadeadas pelo Pentágono.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *