Após lambança da privatização, CPTM volta às Linhas 11, 12 e 13, mas só durante as eleições

Vagão destruído após incêndio na Linha 12 - Foto: Divulgação

“O contrato é um absurdo.” A crítica do deputado estadual Maurici (PT), em entrevista à Hora do Povo, resume a crise desencadeada pela entrega das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade da CPTM à concessionária Trivia Trens pela Gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos). Para o parlamentar, o caos registrado logo nos primeiros dias de operação é consequência direta da política de privatizações do governo Tarcísio de Freitas. “Eu acho que o Tarcísio tem uma coisa assim… ele quer vender as coisas do Estado. Não é possível. Não precisa ser assim, de afogadilho”, afirmou.

A crise ganhou novas proporções na manhã desta quinta-feira (23). Um curto-circuito em um trem da Linha 12-Safira provocou explosão, incêndio e o desligamento das subestações de energia, interrompendo simultaneamente a circulação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade. Segundo o g1, o incidente ocorreu por volta das 5h40, deixou um vagão completamente carbonizado e obrigou passageiros a abandonar as composições caminhando pelos trilhos.

A estrutura do Estado acabou sendo mobilizada para evitar que uma tragédia fatal ocorresse no serviço operado pela iniciativa privada. Policiais militares precisaram auxiliar idosos, pessoas com mobilidade reduzida e outros usuários a superar muros e barrancos para deixar a via férrea, enquanto o Plano de Apoio entre Empresas em Situação de Emergência (Paese) foi acionado para amenizar os transtornos. Foi o terceiro dia consecutivo de falhas desde que a empresa assumiu definitivamente a operação das linhas, que transportam quase um milhão de passageiros por dia.

CPTM RETOMA OPERAÇÃO POR 90 DIAS

Diante do colapso, o governo Tarcísio anunciou nesta quinta-feira (23) que a CPTM retomará, por 90 dias – ou seja, durante o período das eleições – a operação das linhas concedidas à Trivia Trens. Segundo o governo, essa cláusula foi incorporada ao edital após os problemas enfrentados nas concessões das linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda.

Ignorando o fato de que a concessionária está há um ano e meio adquirindo expertise com a CPTM, o governador disse que a empresa “precisa melhorar”. “A empresa precisa se preparar melhor. É inaceitável o que aconteceu no dia de hoje”, declarou. No entanto, Tarcísio vem repetindo o mesmo discurso em relação à Sabesp, que ele privatizou, e que vem apresentando uma sucessão de acidentes, alguns deles com mortes, mas nada foi feito até o momento para melhoria dos serviços e da segurança.

Por sua vez, a Artesp, agência reguladora do setor, disse à imprensa que a situação será apurada com rigor. O diretor-presidente do órgão, André Isper, classificou o ocorrido como “inaceitável” e informou que o objetivo será “apurar detalhadamente o que causou as falhas” e reorganizar a operação. A agência também anunciou que abrirá procedimento para apurar as responsabilidades da concessionária e manterá fiscalização permanente sobre o contrato.

Outra parlamentar a criticar a privatização foi a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), que responsabilizou a forma como o governo paulista vem conduzindo as privatizações. “Não dá mais”. “Eu tô horrorizada com o que acaba de acontecer em São Paulo. Gente, as imagens são assustadoras”, declarou. Tabata afirmou lamentar “profundamente por todo mundo que passou por esse horror, por esse susto, por esse medo, tão cedo a caminho do trabalho. Isso não tá normal”, disse.

A parlamentar ressaltou que sua crítica não se dirige ao conceito de concessão em si, mas à maneira como o governo estadual executou o processo. “Aqui não é uma fala contra ou a favor de privatização, porque depende do que a gente tá falando, depende de como é feito. Mas do jeito que tá em São Paulo não dá mais. É o terceiro dia de operação dessa nova concessionária e olha quantos erros já foram cometidos.”

A deputada também relacionou os problemas ferroviários ao processo de privatização da Sabesp. “A gente sabe que não é só no trem e no metrô que tá tendo isso, não. É na Sabesp. Estão piorando os serviços que sempre foram de muita qualidade em São Paulo.” Segundo ela, além da queda na qualidade, “estão colocando vidas em risco. A troco de quê?”. “Infelizmente, essa fixação que o governador Tarcísio tem com privatizar de qualquer jeito, a todo custo, tá tendo um preço muito alto pra gente que é de São Paulo.”

AVALANCHE DE CONCESSÕES

Na avaliação de Maurici, os acontecimentos desmontam o principal argumento dos defensores da privatização. “Isso é mais uma evidência de que a afirmação de que privatização melhora é falsa”, afirmou. O deputado observou que a concessionária recebeu recursos públicos e passou por um período de preparação antes de assumir as linhas. “Entrou muito dinheiro público nesse negócio. Era para estar tudo nos trilhos, literalmente”, criticou. Ele também lembrou que o Grupo Comporte, controlador da Trivia Trens, não tinha experiência na operação de trens metropolitanos e afirmou que a empresa está “fazendo experiências à custa do povo”.

Embora a Artesp tenha afirmado que intensificará a fiscalização da concessionária, Maurici avalia que a própria agência reguladora não possui estrutura para exercer essa função. “A velocidade de privatização ou de concessão do serviço tem sido tão grande e ela foi criada há tão pouco tempo que sequer deu tempo de fazer concursos públicos, contratar pessoal e ser capacitado para fazer essa fiscalização”, afirmou.

Segundo ele, “a Artesp não tem base material, não tem recursos humanos, não tem conhecimento acumulado para executar esse serviço como a sociedade paulista merece”. Para o parlamentar, o governo estadual tenta realizar “num período de quatro anos tudo o que não foi feito de privatização e concessão nos últimos 30”.

OFÍCIO PEDE QUE LINHA 7-RUBI TAMBÉM VOLTE À CPTM

O deputado disse ainda que a única coisa concreta que a empresa (Trivia Trens) mostrou nesses três dias de atuação foi “a sua incompetência, a sua incapacidade de gerir a operação das três linhas que ela ganhou. De presente, eu diria”. Ele acrescentou que também encaminhou ofício à Secretaria de Participações e Investimentos para que, além das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, o serviço da linha 7-Rubi seja reassumido pela CPTM.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *