A noite do Pix e os deslumbrados de Manhattan


DAVI MOLINARI

Era impossível entrar no Fale Mais Sobre Isso sem tropeçar numa bandeirinha.

Tinha verde-amarela.

Tinha azul.

Tinha branca.

Tinha até vermelha.

Tinha até umas misturadas, como se o Brasil tivesse resolvido fazer terapia de casal consigo mesmo.

– A cor do amor não pode ficar de fora – explicava Juvenal, apontando para uma faixa que atravessava o salão.

A Copa do Mundo tinha transformado o boteco numa espécie de embaixada sentimental da República.

E Juvenal estava encantado.

Era o pai da criança.

Organizara a primeira Noite do Pix.

Pagou com Pix?

Ganhava uma porção de manjubinhas.

Uma promoção simples.

Patriótica.

E perigosamente eficiente para vender chope.

Encontrei o doutor sentado no meio da decoração.

Observava tudo por cima dos óculos.

Chope intacto.

Bloquinho de prontidão.

Aquele meio sorriso raro que só aparece quando ele encontra algum vestígio de humanidade circulando livremente.

– Está bonito aqui.

Para minha surpresa, ele levantou os olhos e concordou com a cabeça.

Era praticamente um discurso de duas horas.

– Meu analisado! – gritou Juvenal. – O que está achando da Noite do Pix?

– Gostei.

– Só isso?

– Poucas coisas unem mais os brasileiros do que a Seleção Brasileira e o Pix.

Juvenal abriu os braços.

– Exatamente!

Girou sobre os próprios pés como um mestre-sala da soberania nacional.

– O Brasil precisa se reencontrar. O brasileiro anda brigando por tudo. Mas ainda existem coisas que lembram que a gente mora na mesma casa.

Pousou duas tulipas de chope.

Depois uma porção de manjubinhas.

– O pertencimento nasce quando as pessoas descobrem algo que é delas.

Assenti.

– Os gregos descobriram isso quando os persas bateram à porta.

– Os franceses descobriram isso na Revolução.

– Os brasileiros descobriram isso na Independência.

– E depois no samba.

– No Carnaval.

– Na Copa de 70.

– E agora até no Pix.

Juvenal sorriu.

– Exatamente.

Olhei ao redor.

Estudantes.

Metalúrgicos.

Artistas.

Professores.

Aposentados.

Entregadores.

Advogados.

Gente que discordava de quase tudo.

Mas que pagava a conta do mesmo jeito.

Por Pix.

Foi então que me lembrei da notícia da semana.

A famosa Noite das Astronautas.

Aquela festa patrocinada em Nova York pelo banqueiro Daniel Vorcaro.

Milhões de reais.

Uísques raríssimos.

Charutos.

Garotas russas e ucranianas, adornadas com malhas que salientavam as curvas e capacetes de astronauta, para entreter figurões conservadores da República.

Tudo isso numa suíte presidencial de Manhattan.

A poucos quilômetros de Wall Street.

Justamente quando setores norte-americanos passaram a mirar o Pix como concorrente indesejado.

– Sabe o que mais me impressiona nessa história? – perguntei.

– O quê? – respondeu Juvenal. – As moças?

– Não. Os “astronautas” brasileiros que lá estiveram.

Juvenal quase derrubou a bandeja de tanto rir.

– Faz sentido.

– Porque viajam para Nova York e ficam deslumbrados, no mundo da lua, com o luxo e as mulheres pagas com dinheiro da maior fraude bancária da história do país.

O doutor escondeu um sorriso.

Pequena vitória.

– O problema dessa gente – continuou Juvenal – é que ela se sente em casa em qualquer lugar do planeta. Menos no Brasil.

– Adoram a bandeira dos outros.

– A moeda dos outros.

– Os bancos dos outros.

– As guerras dos outros.

– Os interesses dos outros.

– E depois perguntam por que o povo não confia neles.

Foi quando a porta se abriu.

Entrou o Laranjão.

Pai do Laranjinha.

Ex-dono do cachorro Messias, atualmente hospedado pela carrocinha municipal depois de tentar morder metade do bairro.

Olhou para o cartaz da promoção.

Fez cara de quem tinha encontrado um globo numa convenção de terraplanistas.

– E se eu quiser pagar usando um sistema americano?

Juvenal nem piscou.

– Vai para o Texas.

– E se eu não gostar do Pix?

– Vai para o Texas.

– E se eu preferir dólar?

– Aí você pega uma conexão em Miami.

O bar inteiro gargalhou.

Laranjão ficou vermelho. Cor difícil de distinguir naquela pele alaranjada.

– Isso é preconceito financeiro!

– Não – respondeu Juvenal. – Isso é soberania.

Nova gargalhada.

Laranjão resmungou alguma coisa sobre liberdade.

Patriotismo.

Mercado.

Comunismo.

Ditadura.

Globalismo.

Ninguém entendeu.

Nem ele.

Virou as costas e saiu.

A porta fechou.

A satisfação ficou por alguns segundos pairando sobre o salão.

Só gente brindando.

Por alguns instantes, parecia que todos lembravam pertencer ao mesmo lugar.

Foi quando percebi uma coisa.

Talvez o verdadeiro motivo do ódio das deselites ao Pix não fosse econômico.

Talvez fosse simbólico.

Porque o Pix deu certo.

E pior.

Deu certo para todo mundo.

Pobre.

Rico.

Empresário.

Camelô.

Professor.

Motorista.

Estudante.

Sem pedir autorização a Nova York.

Sem pedir bênção a Washington.

Sem precisar de astronautas russas.

Foi nesse momento que o doutor fechou a caderneta.

Clique.

O bar inteiro pareceu ouvir.

Ele ajeitou os óculos.

Olhou para mim.

E falou pela única vez naquela noite:

O pertencimento nasce quando alguém encontra um lugar onde não precisa fingir ser outra pessoa.

Silêncio.

Até Juvenal ficou quieto.

O que é raro.

Muito raro.

Depois recolheu os copos vazios.

Olhou para as bandeirinhas.

Olhou para o QR Code do Pix colado na parede.

E suspirou:

– Engraçado…

Fez uma pausa.

– Os astronautas de Vorcaro consumiram quase doze milhões para se sentirem importantes.

Apontou para o salão lotado.

Eu completei:

– E nós gastamos apenas com o chope para lembrar que somos brasileiros. E que venha a Copa do Mundo.

As manjubinhas estalaram como fogos de artifício, ocupando o silêncio. 

Publicado originalmente em Divã no Boteco – XCV. Enviado pelo autor.

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