PF descobre mensagens do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa
Mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram que o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, usava dinheiro público para ajudar o Banco Master em momentos de problemas financeiros e orientava seus subordinados a falsearem balanços.
Paulo Henrique Costa foi presidente do BRB por indicação do ex-governador bolsonarista do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, e hoje está preso. Ele negocia uma delação premiada. As mensagens foram obtidas e divulgadas pelo UOL.
Sua conversa com o ex-diretor financeiro do BRB, Dário Oswaldo Garcia Júnior, registra movimentações financeiras que serviram para salvar o Banco Master e que envolviam o banco estatal no esquema de fraudes. As mensagens foram trocadas entre novembro de 2024 e janeiro de 2025.
Mensagens de 26 de novembro de 2024 mostram que a direção do BRB estava negociando a compra de ativos do Master sobre os quais não tinha informação e não havia feito uma análise.
Depois de ter comprado R$ 181 milhões em créditos do Master, Paulo Henrique Costa perguntou a Dário Garcia se aquela era “a carteira do fundo”.
O então diretor financeiro negou e explicou que era de “outra carteira”, pois “a do fundo está enrolada”, uma vez que “o fundo não é deles”.
O presidente do BRB comentou: “Não entendo quando eles dizem que não há carteira e aparece uma nova”. Ao que o diretor financeiro respondeu: “Nem eu”.
Outras mensagens demonstram movimentações de venda de ativos do BRB para maquiar as contas de forma a “compensar” os que o banco público estava comprando do Master, já que estes não valiam o montante que foi pago.
Em 23 de dezembro, Costa recebeu um arquivo que descrevia as carteiras do BRB sobre créditos inadimplentes a terceiros, que poderiam ser vendidos para uma maquiagem contábil. Ele comentou que achou o total da tabela “pequeno… São somente R$ 215 mm [milhões]”.
“Precisamos aumentar principalmente o prejuízo, para aumentar o resultado da cessão”, orientou.
Paulo Henrique Costa queria que mais carteiras do BRB fossem classificadas como “prejuízo”, de forma que, quando vendidas, o lucro fosse considerado maior. Esse falseamento serviria somente para que o BRB tivesse mais espaço para comprar títulos podres do Master.
Ele contou a Dário que “negociei um preço de 75% devido ao pequeno prejuízo, para que possa dar resultado”. Dário disse que “Aí vc brilhou!!!”. Costa completou: “Tem que trabalhar, né?”.
O ex-presidente do BRB recebeu pelo menos R$ 146 milhões em propina de Daniel Vorcaro, com quem conversava e negociava diretamente pelo Whatsapp. A propina foi paga por meio da entrega de apartamentos de luxo, que foram comprados e movimentados por Vorcaro por meio de empresas de fachada.
OPERAÇÕES COM MASTER
Ainda em dezembro de 2024, Paulo Costa disse a Dário que o “foco” deveria ser na operação de compra de três carteiras do Credcesta, que era um mecanismo de crédito consignado para servidores oferecido pelo Banco Master. As carteiras custariam R$ 408 milhões, R$ 196 milhões e R$ 70 milhões.
Ele queria que os R$ 674 milhões dessas carteiras fossem pagos ao Banco Master “ainda hoje”. “Não dá para desligar [no fim do ano] enquanto não resolvermos essas cessões”.
Paralelamente, Costa queria que fosse feita a venda de R$ 350 milhões de créditos inadimplentes do BRB.
BRB SERVIA PARA SALVAR O MASTER
A conversa entre Paulo Henrique Costa e Dário Garcia, em 9 de dezembro de 2024, é exemplo de que os dirigentes do BRB estavam usando dinheiro público para salvar o Master quando esse estivesse com dificuldades financeiras advindas do desvio de dinheiro e das fraudes.
Costa orientou seu subordinado a comprar ativos do Banco Master e fazer o pagamento antes dos registros formais, o que não é comum no mercado financeiro.
Isso deveria ocorrer porque o Master estava com “dificuldades de caixa”, segundo Paulo Henrique Costa.
“Falei com eles [Master] no final de semana. Eles estão com dificuldades de caixa e propuseram fazer uma venda da carteira do fundo com a liquidação no mesmo dia. Faríamos algo com liberação dos recursos com a carteira em garantia e eles usariam esses recursos para pagar o fundo e liberar a carteira”, escreveu o então presidente do BRB.
Dário Garcia apontou as dificuldades na movimentação. “Falamos com o Félix [do Master], a proposta deles é fazer a liquidação e depois de dois dias passarem a carteira. Ficamos com receio”, escreveu.
A negociação entre os bancos continuou e Dário combinou com o Master de “liquidar o financeiro agora pela manhã e eles passarem a carteira no final do dia”.
Já no dia 8 de janeiro de 2025, Paulo Henrique Costa determinou que o BRB deveria comprar R$ 256 milhões em carteiras de crédito do Banco Master.
Mais uma vez, ele foi explícito: o Banco Master estava “com limitação de caixa devido ao DI não renovado ontem”. O Depósito Interbancário é uma operação de empréstimo entre instituições financeiras que é utilizada como fonte de crédito.
CARTEIRAS DE CRÉDITO TINHAM FRAUDES
No dia 12 de dezembro, o então diretor financeiro comentou com o chefe que “Mandamos 130 MM [milhões] pro Master… Pra eles colocarem na B3 [bolsa de valores]… De desembolso”.
Dário Garcia, em 18 de dezembro, falou sobre outra negociação com o Master e disse que os ativos do Banco Master tinham problemas. Entre os ativos estavam pessoas que teriam parcelas de crédito consignado de R$ 50 mil. Para isso ocorrer, esse servidor precisaria ter um salário superior a R$ 150 mil.
Paulo Costa mandou Dário seguir com a operação: “Considerando que o desempenho da receita ainda não foi o que precisamos, precisamos seguir”.
Em 24 de dezembro, o então presidente do BRB comentou com o diretor financeiro sobre a estrutura do Banco Master para conseguir os créditos que eles estavam comprando.
“Eles [Master] têm um acordo de originação de crédito com uma associação de servidores, que funciona como um correspondente bancário”, disse. Esses créditos eram “alocados em um fundo de investimento em direito creditório”, no qual haveria uma divisão de lucros.
A Polícia Federal já identificou que essa era parte da estrutura fraudulenta do Banco Master. A corporação investiga, por exemplo, o uso de R$ 960 milhões do Rioprevidência, fundo dos aposentados e pensionistas do Estado do Rio, no esquema criminoso.
Dário Garcia Júnior comentou que o Banco Master havia enviado “uma base gigante” de dados sobre créditos que chegariam a R$ 2 bilhões.











