A saída do ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), do cargo no último dia 31 de março, não significou um rompimento com a estrutura de poder que construiu no estado. Ao deixar ao menos 10 parentes em cargos comissionados – parte de uma rede familiar que supera R$ 650 mil mensais em remunerações públicas –, Caiado garante aos seus um futuro confortável na máquina estatal e entra na corrida eleitoral carregando um passivo político que deve reaparecer com força nos embates.
Levantamento publicado pela Folha de S.Paulo aponta que cerca de 50 pessoas com o sobrenome Caiado constavam na folha de pagamento do estado em março, incluindo servidores ativos, aposentados e comissionados. Entre os casos mais sensíveis estão os de parentes nomeados para funções de confiança – cargos preenchidos sem concurso público.
Segundo a apuração, ao menos nove primos e um parente por afinidade ocupam postos estratégicos em secretarias e órgãos estaduais. Entre eles, está Adriano da Rocha Lima, assessor na Secretaria de Relações Institucionais e cotado para compor chapa com o governador, Daniel Vilela (MDB).
Caiado sustenta que todas as nomeações seguem a legislação vigente e estão em conformidade com a Súmula Vinculante nº 13 do Supremo Tribunal Federal, que proíbe nepotismo para parentes de até terceiro grau. Como primos são considerados parentes de quarto grau, as nomeações se apoiam em brechas da própria norma, mas não afastam críticas no plano moral e político.
Na avaliação de juristas, o uso sistemático desses mecanismos previstos na legislação pode caracterizar favorecimento indevido, sobretudo quando envolve concentração familiar em funções estratégicas do Estado.
Outra prática identificada foi a nomeação de parentes por afinidade em cargos de primeiro escalão, como secretarias estaduais, que, segundo entendimento do STF, podem ser ocupados por familiares.
É o caso de Cesar Augusto de Sotkeviciene Moura, casado com prima de Caiado, que assumiu a Secretaria da Retomada. Apesar de permitido juridicamente, esse tipo de nomeação escancara mecanismos indiretos de nepotismo e de ocupação familiar da máquina pública.
A investigação também alcança a Organização das Voluntárias de Goiás (OVG), entidade privada sem fins lucrativos, mas com forte vínculo institucional com o governo estadual. Na OVG, aparecem familiares tanto de Caiado quanto de sua esposa, Gracinha Caiado. A diretoria-geral da entidade é ocupada por Adryanna Leonor Melo de Oliveira Caiado, que acumula cargos em conselhos de estatais, elevando sua remuneração mensal para cerca de R$ 67,6 mil.
Além disso, o orçamento da OVG teve aumento expressivo: saltou de R$ 434 milhões para R$ 738 milhões em um ano — crescimento de 70% em repasses públicos. A presença de familiares em uma entidade financiada majoritariamente pelo Estado reforça suspeitas de uso indireto da estrutura pública para manutenção de influência política e distribuição de cargos.
O desgaste político de Caiado se intensifica ao ser associado ao caso envolvendo o Banco Master. Reportagem da revista Fórum revelou que o então governador alterou legislação estadual após reunião com representantes do banco, favorecendo operações de crédito consignado.
Ainda que não haja, até o momento, decisão judicial que comprove irregularidades, especialistas apontam que o conjunto dos episódios pode configurar conflito de interesses e desvio de finalidade administrativa.
Pré-candidato à Presidência da República em 2026 pelo PSD, Ronaldo Caiado passa a carregar o peso de manter uma estrutura familiar entranhada na máquina pública, somado às controvérsias envolvendo o Banco Master e às críticas por sua atuação em negociações com interesses estrangeiros.
Sob a justificativa de um acordo de “cooperação” para “pesquisa” e “capacitação” na exploração de terras raras, Caiado viabilizou a participação dos Estados Unidos em recursos considerados estratégicos para o país. O acerto envolve um financiamento de US$ 565 milhões e prevê acesso à produção de terras raras exploradas pela mineradora Serra Verde, em Minaçu, no norte de Goiás, negociado no início de março.











