Os candidatos apoiados pelo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e que se identificam como socialistas, venceram três disputas estratégicas na terça-feira (23), derrotando políticos do establishment democrata nas eleições primárias do partido para a Câmara dos Representantes. Resultado que consagra Mamdami como uma das principais lideranças da ala progressista do Partido Democrata.
Nos Estados Unidos, os candidatos a presidente, governador, senadores e deputados federais são eleitos pelos partidos em primárias, votações diretas. Em NY, os três postulantes apoiados pelo prefeito – e também pelo senador Bernie Sanders – suplantaram dois deputados em exercício e o sucessor de outro.
Na análise do The New York Times, as primárias também representaram uma derrota política para Hakeem Jeffries, líder democrata na Câmara dos Representantes, cujos aliados foram derrotados pelos candidatos de Mamdani. Uma nova era, comemorou o prefeito: “a velha política que nos colocou nessa crise não é a política que vai nos tirar dessa crise”.
A maior vitória ocorreu no 10º Distrito de Nova York, onde o defensor dos direitos palestinos e ex-controlador da cidade, Brad Lander, derrotou por 30 pontos percentuais o deputado Daniel Goldman, herdeiro de Levi Strauss e apoiado pelo Comitê de Assuntos Públicos Americano-Israelenses (AIPAC), o lobby sionista que opera nos EUA. Goldman também se recusava a chamar a campanha militar israelense contra Gaza de genocídio.
Lander foi absolvido este mês das acusações relacionadas a um protesto dentro de um prédio que abriga um tribunal de imigração e prometeu enfrentar o governo Trump, convocando a “lutar e não desistir”.
No 13º Distrito, que abrange áreas do norte de Manhattan e do Bronx, o presidente do Caucus Hispânico do Congresso e deputado de cinco mandatos, Adriano Espaillat, perdeu para a socialista Darializa Avila Chevalier, praticamente desconhecida, uma doutoranda da Universidade de Nova York. Segundo observadores, Espaillat deixava a desejar na repreensão ao genocídio de Israel em Gaza.
Já no 7º Distrito, a deputada estadual Claire Valdez superou Antonio Reynoso, presidente do distrito do Brooklyn, apesar do apoio de sindicatos e da deputada federal Nydia Velázquez, que está deixando o cargo, a ele.
Essas vitórias em Nova York se somam a recentes avanços de candidatos da mesma corrente, os Socialistas Democráticos da América (DAS, na sigla em inglês) em outras cidades norte- americanas, incluindo disputas municipais em Washington e Los Angeles.
Crescimento que é visto como continuidade de um movimento iniciado pela campanha presidencial do senador Bernie Sanders em 2016, que ajudou a popularizar propostas progressistas entre eleitores democratas na última década.
O movimento também reflete a insatisfação da base do partido com a agenda de Trump e com o apoio do governo do ex-presidente democrata Joe Biden à agressão de Israel à Faixa de Gaza.
PURGA TRUMPISTA
Já nas hostes republicanas, as primárias funcionaram essencialmente em um mecanismo de purga daqueles que não recitaram de cabo a rabo o catecismo trumpista. Caso do deputado Thomas Massie que ficou sem legenda em Kentucky, obtida por Ed Gallrein, com apoio da Casa Branca e de doadores da extrema direita. Massie foi o deputado republicano que co-autorou, com um democrata, a lei que obrigou à divulgação dos arquivos Epstein. Também se pronunciou contra a guerra ao Irã. Nessa situação, alguns deputados republicanos em exercício simplesmente desistiram de concorrer à reeleição.
Mas resta ver se o tiro vai sair pela culatra, especialmente em eleição intermediária, e quando está em jogo o controle do Congresso.
Nas primárias do Texas, Trump e sua máquina de dinheiro impuseram o nome de Ken Paxton contra o atual senador John Cornyn, tido como “moderado”. Considerado pelo próprio Trump um “guerreiro MAGA”, Paxton, que é procurador-geral do estado, chegou a enfrentar em 2023 um impeachment impetrado pela Câmara do Texas, sob acusações de fraude de valores imobiliários e suborno, mas foi absolvido pelo Senado.
A vitória de Paxton foi comemorada pelos democratas como a melhor chance em três décadas de eleger seu nome ao Senado, o pastor prebisteriano e deputado estadual James Talarico.
A revanche de Trump contra qualquer um que não submetesse também deixou sem legenda o senador Bill Cassidy, da Louisiana, que votou contra Trump no impeachment. Em Indiana, cinco senadores estaduais foram derrubados por não apoiarem a sua proposta de redistritamento eleitoral, o chamado “gerrymandering”, prática em que, como se comenta jocosamente, são os parlamentares do partido no poder que escolhem os eleitores, isto é, redesenham os distritos eleitorais para manipularem o resultado.
Como nas eleições intermediárias o costume é que a oposição obtenha mais cadeiras, ainda mais sob a alta da inflação e o repúdio à guerra e reprovação recorde de Trump, os republicanos vêm tentado, Estado por Estado, manipular a vontade popular através desse expediente.











