Lula defenderá soberania brasileira em encontro com Trump, avalia Carmona

Ronaldo Carmona (Foto: reprodução TV UOL)

“O interesse primordial do Brasil reside na garantia de não interferência, o fim das tarifas extras aos produtos brasileiros e a defesa da industrialização interna das terras raras”, destaca o professor da ESG

Ronaldo Carmona, professor da Escola Superior de Guerra (ESG) avaliou a visita de Lula à Casa Branca, em entrevista nesta terça-feira (5) à UOL TV. Para ele, “a visita do presidente Lula à Casa Branca – que ocorre na quinta-feira (7), assume relevância considerável. O encontro bilateral abordará questões estratégicas, táticas e pragmáticas que exigirão algum tipo de entendimento”, afirmou. “Do ponto de vista dos Estados Unidos, o objetivo estratégico fundamental é claro: a manutenção da hegemonia no hemisfério americano, conforme explicitado em sua Estratégia de Segurança Nacional, divulgada em dezembro. Para tanto, busca-se a subordinação do Brasil aos interesses estratégicos dos EUA”, acrescentou.

“Em termos táticos e pragmáticos, a agenda americana inclui temas como terras raras, com destaque para a participação do governo americano na aquisição de uma grande mina no Brasil, e a liberdade de atuação das empresas americanas no país, especialmente as Big Techs e as empresas do setor financeiro, como as de cartão de crédito, notadamente em relação ao PIX”, prosseguiu Carmona.

“Quanto aos objetivos estratégicos do Brasil”, explicou o professor, “o interesse primordial reside na garantia da não interferência externa no processo político interno, especialmente no período eleitoral. A ausência dessa intervenção representa um objetivo estratégico fundamental, assim como a remoção das tarifas comerciais, que ainda persistem e que podem ser intensificadas em função dos resultados das investigações conduzidas pela Seção 301 da legislação americana”.

Carmona lembrou que “inicialmente, o governo Trump utilizou argumentos políticos relacionados a setores da oposição brasileira, em particular a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas essa argumentação tem sido atenuada em decorrência da recente alteração da legislação penal”. “Essa alteração, ao reduzir as penas dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023, enfraquece o argumento de perseguição política que vinha sendo utilizado. Este é o contexto geral da situação”, prosseguiu.

“É evidente que o objetivo dos Estados Unidos é assegurar a estabilidade no fornecimento de terras raras. Atualmente, há uma competição em relação ao acesso a esses minerais críticos e estratégicos com a China”, destacou o especialista. “Os Estados Unidos pretendem, portanto, estruturar uma cadeia de suprimentos que lhes garanta o acesso a essas matérias-primas”, disse Carmona. “O objetivo do Brasil, por sua vez, não é estabelecer uma relação de exclusividade com os Estados Unidos ou com qualquer outro país”, argumentou. “A questão subjacente é que, na conjuntura atual, as commodities, tanto minerais quanto energéticas, como petróleo e gás, e até mesmo produtos agrícolas, têm se tornado cada vez mais um fator geopolítico, um elemento de poder. São questões que transcendem as relações de mercado tradicionais e passam a ter maior relevância”, observou o entrevistado.

Ronaldo Carmona observou que “o interesse brasileiro reside, portanto, na possibilidade de um acordo com os Estados Unidos, mas um acordo que esteja alinhado com a proposta em discussão na Câmara dos Deputados, que acompanha o parecer do deputado Arnaldo Jardim”. “Essa proposta busca vincular a exploração das minas de terras raras à agregação de valor no Brasil e à construção de uma cadeia produtiva relacionada a esses minerais”, destacou. “Inclusive”, prosseguiu, “a recente aquisição por uma empresa com participação do governo dos EUA da mina em Goiás, da empresa Serra Verde, será objeto de análise. A proposta que será votada no Congresso prevê a criação de um Conselho de Minerais Críticos e Estratégicos, que se dedicará a essa questão estratégica, considerando os interesses brasileiros e, consequentemente, terá a capacidade de monitorar e avaliar os investimentos estrangeiros em nossas minas e na nossa cadeia produtiva de terras raras”

Para Carmona, “a influência política dos Estados Unidos nas eleições brasileiras apresenta um cenário complexo e paradoxal. Embora possa, em tese, visar apoiar a oposição, também corre o risco de reacender, como demonstrado em eventos de 2025, o sentimento nacionalista contra a interferência estrangeira. Os estrategistas americanos, sem dúvida, consideram essa dinâmica”.

“No que diz respeito aos resultados concretos, o Brasil mantém-se aberto a negociações sobre questões como a exploração de minérios e as iniciativas de combate às mudanças climáticas, tema este último sobre o qual o Brasil tem uma agenda construtiva. Do ponto de vista brasileiro, é fundamental a normalização das relações bilaterais, a não interferência e, principalmente, o fim das tarifas protecionistas”, apontou.

“A questão das facções criminosas é uma estratégia que o governo Trump tem utilizado nas negociações com o Brasil, que consiste em ameaçar classificar organizações criminosas brasileiras como terroristas, visando, possivelmente, uma agenda ainda mais intervencionista”, denunciou Carmona. “Diante disso, o Brasil procura se proteger, tomando a iniciativa de propor uma agenda aos Estados Unidos, focada em questões relacionadas ao crime organizado, como combate à lavagem de dinheiro e ao tráfico ilegal de armas. Portanto, embora os Estados Unidos possam usar essa classificação como instrumento em uma agenda mais intervencionista, o Brasil busca, por sua vez, enfrentar a questão por meio de uma agenda construtiva com os Estados Unidos”, completou o professor.

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