Relatórios do Coaf apontam operações entre a GoiásFomento e a BK Bank entre 2021 e 2025. Empresa é alvo de investigação sobre lavagem de dinheiro e ligação com o PCC
A gestão do então governador do Estado de Goiás, Ronaldo Caiado, agora no PSD, movimentou cerca de R$ 1,3 bilhão por meio da fintech BK Bank entre outubro de 2021 e agosto de 2025, segundo documentos do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) citados em reportagem do jornal Folha de S.Paulo.
As operações ocorreram por intermédio da GoiásFomento, agência estadual de fomento da qual o governo de Goiás é acionista majoritário.
Os recursos eram destinados à operacionalização de programas sociais de transferência de renda do governo estadual, que, segundo o Executivo goiano, atendem aproximadamente 880 mil beneficiários.
Os valores eram transferidos da GoiásFomento para contas vinculadas ao BK Bank e, posteriormente, convertidos em créditos para cartões utilizados pelos beneficiários.
OPERAÇÃO CARBONO OCULTO
O BK Bank é investigado na Operação Carbono Oculto, conduzida pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro e movimentações financeiras atribuídas ao PCC (Primeiro Comando da Capital).
Segundo os investigadores, a fintech teria sido utilizada em operações de ocultação da origem e do destino de recursos movimentados por empresas ligadas ao crime organizado.
Os relatórios do Coaf registram 22 comunicações bancárias consideradas atípicas, que envolvem a BK Bank e operações relacionadas à GoiásFomento.
Parte dos registros trata de transferências feitas pela agência estadual para a fintech. Outra parte refere-se ao fluxo inverso, da BK Bank para a GoiásFomento.
Entre julho de 2022 e setembro de 2025, na gestão do então governador Ronaldo Caiado, as movimentações da BK Bank para a agência estadual somaram R$ 28,5 milhões.
O governo de Goiás informou que esses valores correspondem à devolução de recursos não utilizados pelos beneficiários dos programas sociais e à remuneração contratual prevista no arranjo de pagamento.
TAXAS E CONTRATOS
Durante o período em que a BK Bank operou os pagamentos dos programas sociais, comerciantes credenciados pagavam taxas de até 6% sobre as compras realizadas pelos beneficiários.
Segundo o modelo contratual adotado à época, metade da arrecadação dessas taxas era destinada à GoiásFomento e os outros 50% à fintech.
Em 2024, o governo estadual substituiu a instituição financeira responsável pela operação dos pagamentos. Conforme informado pelo Executivo goiano, a nova divisão das taxas passou a destinar 75,6% dos valores arrecadados à GoiásFomento e 24,4% à nova fintech contratada.
Apesar da substituição da empresa, os repasses à BK Bank continuaram até agosto de 2025, mês em que foi deflagrada a Operação Carbono Oculto. O governo estadual afirmou que as transferências restantes ocorreram em razão da existência de saldos remanescentes.
Por meio de nota, a administração estadual declarou que a GoiásFomento “não realizou novas transações financeiras com a BK Bank após agosto de 2025” e que, após a deflagração da operação policial, a agência “adotou medidas administrativas e judiciais para resguardar o interesse público, considerando que o contrato possuía cobertura securitária”.
O governo afirmou ainda que, até o momento, não há prejuízo constatado à GoiásFomento.
MOVIMENTAÇÕES SOB SUSPEITA
Segundo as investigações, a BK Bank operava com o sistema denominado “contas-bolsões”, mecanismo em que diversos clientes realizam depósitos em conta única, dificultando assim o rastreamento individual das operações financeiras.
As autoridades apontam que empresas ligadas ao crime organizado, entre essas, usinas de álcool e distribuidoras de combustíveis, utilizaram a fintech para movimentações bilionárias.
Relatório da Receita Federal citado nas investigações registra “alto volume de transações atípicas” que envolvem empresas relacionadas a grupos criminosos.
As entradas de recursos identificadas nas apurações chegaram a R$ 17,7 bilhões. Na Operação Carbono Oculto, a Justiça determinou o bloqueio de valores mantidos pelos investigados na BK Bank, além da preservação de extratos bancários, contratos e cadastros de clientes.
Com sede em Barueri, a BK Bank possui capital social superior a R$ 9 milhões.
POSIÇÃO DO GOVERNO
Após a publicação da reportagem, Caiado afirmou que a BK Bank possuía autorização do Banco Central para operar e questionou a atuação do Coaf no monitoramento das operações financeiras investigadas.
“A BK Bank possuía autorização do Banco Central para operar”, afirmou o ex-governador, agora pré-candidato ao Planalto pelo PSD, ao questionar se teria havido “conivência ou omissão do Coaf na prevenção de crimes dessas organizações criminosas”. Deixa sem resposta a questão: onde está o rigor na gestão da coisa pública tão alardeado pelo então governador de Goiás?
A BK Bank não respondeu aos contatos da reportagem. Após a deflagração da Operação Carbono Oculto, os Correios, o Serpro e o governo do Paraná interromperam contratos com a fintech.
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