Operador das rachadinhas de Flávio Bolsonaro, Queiroz vira “xerife” de Saquarema

Flávio Bolsonaro e seu escudeiro Fabrício Queiroz - Foto: Reprodução

Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro e figura central no escândalo das rachadinhas revelado a partir de movimentações financeiras identificadas pelo Coaf, ocupa atualmente o cargo de subsecretário de Segurança e Ordem Pública de Saquarema, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro.

A permanência no posto ocorre quatro anos após o arquivamento da investigação que apurava o esquema na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), decisão que não analisou o mérito das acusações, mas anulou provas por questões processuais.

Mesmo após ter sido associado diretamente ao esquema de desvio de salários de servidores públicos, Queiroz segue com influência na estrutura de poder local. Na função, ele supervisiona a atuação da Guarda Municipal e participa de agendas políticas ao lado de lideranças do PL em um município controlado pelo partido. A prefeitura é comandada por Lucimar Vidal (PL), que assumiu o cargo após a saída de Manoela Peres (PL).

A nomeação de Queiroz foi resultado de articulação política direta. O movimento envolveu o ex-prefeito Antonio Peres, marido de Manoela, e o senador Flávio Bolsonaro, que também atua como pré-candidato à Presidência. A composição evidencia a permanência de Queiroz dentro do núcleo político ligado ao bolsonarismo, mesmo após o escândalo que ganhou repercussão nacional.

O domínio do PL em Saquarema também se reflete no Legislativo municipal. A Câmara é majoritariamente composta por vereadores da sigla, entre eles Welington de Peres, Roberto Ramalho e Pedro Ivo, consolidando o partido como força hegemônica na cidade. Em 2024, o próprio Queiroz tentou ampliar sua atuação política ao disputar uma vaga de vereador pelo Partido Liberal, terminando como primeiro suplente. Nos bastidores, houve tentativas de rearranjo para viabilizar sua entrada na Câmara, mas ele acabou sendo mantido no Executivo como subsecretário.

No exercício do cargo, Queiroz circula em eventos institucionais e políticos ao lado de figuras relevantes da direita fluminense. Em março, esteve presente na inauguração de uma base do programa Segurança Presente em Saquarema, acompanhado do então secretário estadual de Cidades, Douglas Ruas (PL), e do ex-governador Cláudio Castro (PL), que foi cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O programa tem como objetivo reforçar o policiamento ostensivo voltado a moradores e turistas.

No fim do ano passado, ele também participou de uma cerimônia ao lado de Flávio Bolsonaro e do então secretário de Polícia Militar, Marcelo Menezes, em homenagem a policiais envolvidos na megaoperação no Complexo da Penha e da Maré, que deixou 122 mortos — a mais letal da história do estado do Rio de Janeiro.

MILÍCIAS AMPLIAM ATUAÇÃO NA REGIÃO

A presença de Queiroz em um cargo estratégico da segurança pública ocorre em um contexto de agravamento da violência na Região dos Lagos. Dados do Atlas da Violência de 2024 apontam crescimento dos índices de criminalidade em cidades próximas, como Armação de Búzios, localizada a cerca de uma hora e meia de Saquarema. O relatório do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) atribui esse cenário à extinção da Secretaria Estadual de Segurança Pública entre 2019 e 2023, ao avanço do crime organizado e à “ausência de uma política pública de segurança sustentável”.

O caso envolvendo Queiroz veio à tona no fim de 2018, quando um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou movimentações financeiras consideradas atípicas em sua conta, à época em que ele atuava como assessor de Flávio Bolsonaro na Alerj. As investigações conduzidas pelo Ministério Público do Rio apontaram que ele operava o esquema de rachadinha — organizando a contratação de funcionários fantasmas, recolhendo parte dos salários e repassando os valores ao então deputado estadual.

Fabrício Queiroz é um PM aposentado ex-chefe de gabinete de Flávio na Alerj. Ambos sempre negaram as acusações.

O processo foi arquivado em 2021 após decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF), que anularam provas por questões processuais, impedindo que o Judiciário analisasse o conteúdo das acusações. Ainda assim, os elementos que deram origem ao caso permanecem como marco de um dos principais escândalos políticos recentes do país — e não impediram que Queiroz fosse alçado a um cargo de comando na segurança pública municipal.

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