Os símbolos nacionais sob a égide da banalização do fantástico nas redes sociais

Vídeo de IA em que forças norte-americanas destroem Brasília (reprodução)


DAVI MOLINARI

Após quinze minutos de rolagem em um perfil recém-criado no TikTok, duas impressões se impõem com força.

A primeira: já não é mais possível distinguir, com segurança, o que é real do que é fabricado. A mulher atraente que executa manobras radicais em uma motocicleta pode ser real — ou um produto refinado de inteligência artificial. O mesmo vale para vídeos deliberadamente toscos: jovens se atirando de precipícios, cidades sendo engolidas por tsunamis, tudo embalado por trilhas religiosas que anunciam a volta do “filho de Deus”. Essa estética escatológica — mistura de espetáculo, fé e catástrofe — aparece com frequência surpreendente para o usuário cujo algoritmo  ainda não foi “educado”.

A segunda percepção é mais profunda: os símbolos nacionais parecem não operar nesse ambiente. Não há Tiradentes, não há Joaquim Silvério dos Reis. A memória histórica, que no mundo físico ainda provoca repulsa — como o esquartejamento de Tiradentes — perde força simbólica nas redes. A própria ideia de traição à coletividade deixa de mobilizar indignação.

No lugar disso, proliferam vídeos que exaltam Donald Trump e a projeção de poder dos Estados Unidos. O caso mais emblemático — e inquietante — é o de vídeos de IA em que forças norte-americanas destroem Brasília, como uma espécie de “retaliação” ao julgamento dos envolvidos nos ataques às instituições brasileiras. Trata-se de ficção, mas de uma ficção que revela algo mais profundo: uma disputa simbólica sobre soberania, pertencimento e identidade nacional.

Há, evidentemente, um descompasso entre esse conteúdo e o sentimento majoritário da população brasileira, que historicamente valoriza a soberania nacional. A presença de bandeiras dos Estados Unidos em manifestações bolsonaristas no Brasil, bem como discursos que legitimam pressões, ameaças e sabotagens externas sobre o país, não pode ser tratada como fenômeno espontâneo ou majoritário. Trata-se de uma corrente ideológica organizada, frequentemente associada a redes de financiamento, institutos e ecossistemas digitais alinhados a interesses estrangeiros.

Nesse contexto, emerge uma figura social peculiar: o “desterrado simbólico”. Não se trata apenas de brasileiros que vivem em regiões como Doral (Flórida), mas de indivíduos que rompem, no plano simbólico, com a ideia de pertencimento nacional. Para esses grupos, o brasileiro deixa de ser compatriota e passa a ser um outro distante — inclusive aquele que, em tese, compartilharia a defesa do território em uma situação extrema.

Esse fenômeno não é novo, mas ganha nova escala com os algoritmos. Eles não apenas refletem valores: eles os amplificam e reorganizam, criando bolhas em que a ruptura simbólica se torna norma. Aqui cabe recuperar o conceito de “complexo de vira-lata”, cunhado por Nelson Rodrigues, que descrevia uma tendência histórica de autodepreciação nacional diante do estrangeiro. O que se observa hoje, porém, é uma atualização desse conceito: não apenas inferioridade, mas adesão ativa à subordinação.

No presente, a disputa simbólica se intensifica. A retórica do movimento MAGA movement — orientada pelo princípio do “America First” — estabelece uma lógica hierárquica nas relações internacionais. Ainda assim, parte da extrema direita brasileira adere a esse imaginário, incorporando seus símbolos — como o boné — como sinal de alinhamento.

Essa adesão, no entanto, carrega uma contradição evidente: nenhuma potência estrangeira constrói relações estratégicas baseadas na valorização de atores subservientes, dos traidores. Na história das relações internacionais, a submissão raramente é recompensada com protagonismo.

No plano moral e social, a figura do traidor permanece universalmente rejeitada. Seja no ambiente familiar, escolar, militar ou mesmo no sistema prisional, a confiança é incompatível com a traição. Essa constante antropológica atravessa culturas e épocas.

Diante disso, a pergunta que se impõe não é apenas política, mas simbólica:
em um ambiente saturado de imagens artificiais, algoritmos e narrativas importadas, quais símbolos ainda estruturam a identidade coletiva brasileira?

A resposta talvez não esteja mais apenas na história — mas na capacidade de reconstruí-la em um ambiente onde o real disputa espaço com a banalização do espetacular. 

O que nos leva a outra paráfrase: ou o Brasil “educa” o algoritmo ou o algoritmo acaba com o Brasil. 

Publicado originalmente em Meedito. Enviado pelo autor.

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