Lincoln Gakiya afirmou à Corregedoria que tenente-coronel Coutinho foi alertado sobre vazamentos e “bicos” da Rota, mas não agiu
Em depoimento à Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo, o promotor de Justiça Lincoln Gakiya apresentou novos elementos que reforçam suspeitas de conivência do então comandante-geral da corporação, tenente-coronel José Augusto Coutinho, em ações que, segundo investigações, apontam para a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) em estruturas do Estado paulista, sob a gestão do bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo.
Ele prestou depoimento como testemunha em março deste ano em um inquérito da Corregedoria que investiga a atuação de PMs em escoltas ilegais e conexões com a facção criminosa. As informações repassadas pelo promotor dizem respeito ao período em que o oficial era chefe das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), tropa de elite da instituição.
Gakiya detalhou vazamentos em operações do Gaeco com apoio da Rota. Na Operação Sharks, em 2020, o Ministério Público afirma ter reunido provas de repasse de informações sigilosas à cúpula do PCC. Marcos Roberto de Almeida, vulgo Tuta, o “cabeça” da facção fora dos presídios, mesmo monitorado, escapou e fugiu às pressas do apartamento onde o mandado foi cumprido. Outros alvos importantes da operação também conseguiram escapar, o que levou às suspeitas de vazamento de informações.
Integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público, Gakiya investiga há mais de 20 anos o grupo criminoso e é considerado um dos principais investigadores da facção no Brasil.
Em outra ocasião, a equipe de inteligência apontou que uma das reuniões entre o representante do MP e outros membros da Rota com um informante havia sido gravada, e o material vendido por R$ 5 milhões a Tuta. Gakiya informou o caso ao tenente-coronel Coutinho, à época comandante da Rota, e o alertou sobre a possibilidade de participação do grupo na ação. O promotor também chamou a atenção para o fato de que policiais da unidade fariam “bicos” para empresas de ônibus ligadas ao PCC.
De acordo com o g1, a confirmação da atuação de policiais como segurança ilegal de criminosos foi confirmada no depoimento de Antonio Vinicius Gritzbach, ex-integrante do PCC e depois delator da facção, executado no Aeroporto Internacional de São Paulo, em 2024.
Gritzbach afirmou que policiais da Rota eram responsáveis pela escolta de várias lideranças do PCC, como Anselmo Becheli Santa Fausta, o Cara Preta, Claudio Marcos de Almeida, o Django, Silvio Luiz Ferreira, o Cebola, e também do advogado Ahmed Hassan Saleh, o Mude.
Conforme o promotor, os áudios entregues por testemunhas durante as investigações foram disponibilizados ao tenente-coronel Coutinho para conclusões e tomada de medidas cabíveis.
Ofício do Ministério Público Militar ao procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio Oliveira e Costa, aponta que, mesmo com conhecimento de possíveis delitos por parte de seus subordinados, não há informações de que o oficial tenha tomado providências correcionais e investigativas.
TRANSWOLFF
Em um dos trechos do depoimento sobre o envolvimento de policiais com a Transwolff, o sargento Alexandre Aleixo afirma que Coutinho, ainda à frente da Rota, tentou convencê-lo a permanecer na tropa de elite. Cezário foi preso em fevereiro por fazer escolta para dirigentes da empresa, investigada por integrar o PCC.
“Eu cheguei a conversar com o coronel Coutinho, major Coutinho na época”, relatou, segundo reportagem do g1 e da GloboNews. “Falei assim: ‘Ó, chefe. É isso, isso, isso. Assim, assim, assado’.”
De acordo com o policial, Coutinho respondeu: “Romano, eu não posso obrigar você a sair da Rota. Por quê? Meu irmão faz bico até hoje”. Em seguida, acrescentou: “Meu pai sustentou a gente fazendo bico. Sabe que as coisas aí ‘tá difícil’, né?”.
“Porém, né, pelo que está aqui, tem bandido fazendo bico lá, meu, e você sabe como é que é”, afirmou Romano Cezário.
A Polícia Militar proíbe a realização de “bicos” por parte de seus agentes.
A Transwolff é investigada na Operação Fim da Linha, deflagrada pelo Gaeco do Ministério Público em abril de 2024. A ação apura, além de lavagem de dinheiro, os crimes de fraude em processos licitatórios e organização criminosa. Os promotores apontam que a empresa agia para favorecer o PCC.
Na época da conversa, em 2020, Coutinho ainda não era tenente-coronel. Segundo o sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário, ele foi pressionado por um superior a deixar a segurança privada de uma empresa de ônibus e acabou dispensado da Rota ao optar por permanecer no “bico”. À Corregedoria, afirmou ainda que atuava com outro colega e contou com apoio de Coutinho para seguir na unidade.
Em fevereiro, três policiais foram detidos como desdobramento da investigação, entre eles o sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário. O inquérito apontou que eles fizeram segurança privada entre 2020 e 2024 para dirigentes da Transwolff.
A Corregedoria da PM também ouviu outros depoimentos que indicam suspeitas de proteção e omissão de Coutinho diante do possível envolvimento de policiais com o Primeiro Comando da Capital e do vazamento de informações sobre investigações sigilosas.











