Selic continua muito alta e agrava atividade industrial, alerta CNI

(Foto: Iano Andrade/Agência CNI)

Três cortes de apenas 0,25 p.p. não foram suficientes para aliviar sufoco. Cerca de 40% das empresas projetam aumento do endividamento com os bancos

Pesquisa divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), nesta segunda-feira (3), mostra que em meio a juros extremamente altos e à necessidade de garantir o pagamento de despesas do dia a dia, como matérias-primas, salários e impostos, 39% das empresas consultadas projetam alta da dívida com os bancos nos próximos três meses.

“Mesmo depois dos três cortes de juros que tivemos em 2026, a taxa Selic continua muito alta e isso tem consequências negativas sobre a atividade industrial. Os resultados mostram que as empresas esperam uma maior pressão financeira nos próximos meses. Nesse cenário, os empresários esperam não só aumentar a tomada de crédito, mas fazer isso a um custo ainda mais alto”, avalia Maria Virginia Colusso, analista de Políticas e Indústria da CNI.

Para mais da metade das empresas (53%) “será necessário aumentar a busca por crédito para o financiamento de contas a pagar, estratégia utilizada para honrar compromissos com fornecedores, tributos e despesas operacionais, garantindo capital de giro e evitando multas”, segundo a pesquisa. Além disso, mais de um terço (38%) dos empresários consultados pela CNI espera tomar esses recursos a juros mais altos.

A pesquisa também buscou entender a necessidade de financiamento em contas a receber, que surge quando uma empresa vende produtos a prazo, mas precisa de dinheiro imediato para pagar despesas do dia a dia. ‘Nos próximos três meses, 47% dos empresários ouvidos devem intensificar a tomada de crédito para cobrir esse buraco no fluxo de caixa. O recurso captado deve vir a um custo mais elevado para 42% dos industriais consultados’, diz.

Quanto aos estoques, “42% das empresas preveem aumentar a tomada de crédito para comprar, produzir ou manter mercadorias e insumos armazenados até que eles sejam vendidos ou utilizados no processo produtivo, enquanto apenas 13% esperam reduzir. Ao todo, 42% dos respondentes acreditam em elevação dos juros cobrados pelos bancos para financiar o estoque produtivo”.

Segundo o gerente de Política Econômica da CNI, Kleber de Castro, apesar da redução dos juros, a política monetária é bastante restritiva, quadro que ajuda a entender os resultados da consulta.

“A percepção empresarial de custos financeiros elevados e viés de alta nos juros das operações de crédito é consistente com o ciclo de política monetária em curso: o ritmo de flexibilização é gradual, a taxa de juros real ex-ante segue próxima a dois dígitos e a transmissão da política monetária ao custo do crédito produtivo opera com defasagens que limitam qualquer alívio dentro do horizonte de três meses coberto pela consulta”, aponta.

COPOM

Esta semana, nos dias 4 e 5, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central volta a se reunir para definir a taxa básica de juros da economia (Selic), hoje em 14,25% ao ano, com o Brasil campeão mundial de juro real (descontada a inflação)..

Ao avaliar o último corte na Selic, de apenas 0,25 ponto percentual, a CNI manifestou que a decisão “é incapaz de reverter o quadro de estagnação dos investimentos e asfixia financeira das empresas e das famílias”.

“Enquanto os juros reais continuarem tão elevados, beneficiando diretamente o capital especulativo, o custo do crédito vai seguir inviabilizando os planos de produção e expansão da indústria. Da mesma forma, a medida se mostra ineficaz em aliviar o orçamento das famílias, das empresas e do próprio governo, que seguirão estrangulados pelo serviço da dívida, adiando a retomada do consumo e do investimento e a superação do fantasma da inadimplência”.

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