Tarcísio entregou consignado de policiais militares de São Paulo para o banco de Edir Macedo

Governo de SP fechou contratos com o banco do bispo Edir Macedo, da Universal - Foto: Reprodução

A Polícia Federal deflagrou, na última terça-feira (23), a Operação Miragem para investigar suspeita de fraudes contábeis no Banco Digimais, instituição controlada pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. Foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão, além do bloqueio de até R$ 670 milhões em bens e valores. Segundo a PF, o banco é suspeito de manipular demonstrações financeiras e registros regulatórios para ocultar sua real situação de insolvência.

A operação também colocou sob questionamento a autorização concedida pelo governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), em 2025, para que o Digimais operasse empréstimos consignados com desconto em folha de pagamento de policiais militares paulistas. À época do credenciamento, a instituição já acumulava sucessivos prejuízos financeiros.

O crédito consignado é uma das modalidades mais seguras para as instituições financeiras, já que as parcelas são descontadas diretamente dos salários dos servidores. Para a oposição, permitir que um banco em dificuldades tivesse acesso a esse mercado representou uma decisão que merece esclarecimentos.

Em maio deste ano, antes da operação da Polícia Federal, o deputado estadual Maurici (PT) protocolou representação no Ministério Público de São Paulo pedindo investigação sobre os critérios adotados pela Gestão Tarcísio de Freitas e pela Prefeitura de São Paulo para autorizar o Digimais a operar crédito consignado. O pedido, entretanto, foi arquivado pela Promotoria do Patrimônio Público que alegou ausência de indícios de irregularidade.

Com a deflagração da Operação Miragem, o parlamentar voltou a cobrar explicações. “Eu avisei mais uma vez. O Banco Digimais já acumulava prejuízos, denúncias e sinais de alerta, mas mesmo assim o governo Tarcísio abriu espaço para ele operar consignado na folha da PM. Nós acionamos o MP-SP, que preferiu arquivar. Agora a PF entrou no caso. Quem autorizou, quem protegeu e quem vai pagar essa conta?”, questionou.

Também criticando a decisão do governo paulista, o deputado estadual Reis (PT) relacionou o credenciamento do banco às ligações entre o Republicanos e a Igreja Universal. “Esse banco recebeu essa autorização do governador justamente quando já enfrentava problemas. É interessante como os governos fazem o tráfico de influência, como traficam influência a favor daqueles que são próximos deles. Como esse banco é ligado a pessoas do Republicanos, ele usa a sua caneta para fazer o favorecimento, para ajudar os amigos do rei, do imperador Tarcísio de Freitas”, declarou.

Até o momento, porém, a investigação da Polícia Federal não aponta envolvimento do governo paulista nas fraudes contábeis atribuídas ao banco nem apresenta indícios de repasses financeiros ou favorecimento ilícito a agentes públicos. A Operação Miragem concentra-se nas práticas adotadas pela direção da instituição financeira.

Segundo a investigação, dirigentes do Digimais teriam alterado registros contábeis e informações encaminhadas aos órgãos reguladores para apresentar uma situação financeira melhor do que a existente. A operação foi deflagrada a partir de informações produzidas pelo Banco Central.

Os investigadores também apuram o uso de mecanismos semelhantes aos atribuídos ao Banco Master, incluindo operações que teriam inflado artificialmente os ativos da instituição e ocultado prejuízos, além da utilização do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para sustentar o funcionamento do banco.

Especialistas do setor financeiro alertam que uma eventual liquidação da instituição poderá aumentar significativamente os desembolsos do FGC para garantir depósitos de clientes.

Ao comentar a operação, o deputado federal Henrique Vieira (Psol-RJ) afirmou que o caso reforça a necessidade de ampliar a fiscalização sobre instituições financeiras controladas por lideranças religiosas e lembrou das investigações envolvendo o Clava Forte Bank, banco digital ligado à Igreja Batista da Lagoinha e ao pastor André Valadão.

“Aliás, muito perigoso quando líderes religiosos se tornam banqueiros. Nós vimos recentemente o caso do Clava Forte Bank, um banco digital criado por lideranças da Igreja Batista da Lagoinha, por André Valadão, que também tem uma relação histórica com Daniel Vorcaro.”

O parlamentar ressaltou que suas críticas não se dirigem à atividade religiosa, mas ao controle de instituições financeiras. “Atenção, pessoal: quando líderes religiosos passam a controlar bancos, tem que redobrar o poder de fiscalização do Estado.”

Vieira enfatizou: “Quero deixar muito evidente aqui: liberdade religiosa é um direito fundamental. Viva a fé sagrada do nosso povo e a diversidade religiosa do nosso país. Outra coisa que requer atenção é quando lideranças religiosas montam impérios econômicos, empresariais e financeiros e surgem investigações apontando risco de fraude.”

Ele informou ainda que apresentou projeto de lei para ampliar os mecanismos de controle, regulação e fiscalização de instituições financeiras ligadas, direta ou indiretamente, a organizações religiosas.

Os contratos de crédito consignado já firmados com o Banco Digimais permanecem em vigor. Até o momento, não há decisão judicial suspendendo os descontos em folha ou impedindo novas cobranças decorrentes de contratos já assinados.

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