Segundo a Quaest, 42% afirmam que o tarifaço aumenta a disposição de votar em Lula, enquanto apenas 27% dizem o mesmo em relação a Flávio Bolsonaro
A crise diplomática e comercial provocada pela decisão do governo Donald Trump de impor tarifa de 25% sobre produtos brasileiros rapidamente ultrapassou o campo da política externa e passou a ocupar o centro da disputa presidencial de 2026.
Pesquisa Genial/Quaest mostra que 51% dos brasileiros concordam com a avaliação de que o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem responsabilidade política pelo episódio, enquanto 30% concordam com a versão apresentada pelo parlamentar.
Embora a coleta tenha sido realizada entre 10 e 13 de julho — antes da confirmação oficial das tarifas pela Casa Branca —, a pesquisa já captava os efeitos políticos da crise que se desenhava.
IMPACTO ELEITORAL IMEDIATO
A pesquisa também mostra que o episódio já produz efeitos sobre o ambiente eleitoral.
Segundo a Quaest, 42% afirmam que o tarifaço aumenta a disposição de votar em Lula, enquanto apenas 27% dizem o mesmo em relação a Flávio Bolsonaro.
O episódio, portanto, deixa de ser apenas controvérsia diplomática para transformar-se em fator de influência sobre a corrida presidencial e ativo político em debate: a soberania brasileira.
Esse movimento ocorre em momento em que outra rodada da própria Genial/Quaest aponta ampliação da vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro nos cenários de segundo turno.
DISCURSO DA SOBERANIA
Desde o anúncio das sanções, o governo federal intensificou o discurso de defesa da soberania brasileira.
Ministros passaram a qualificar integrantes do bolsonarismo como “falsos patriotas” e “entreguistas”, sustentando que buscar apoio externo para pressionar instituições brasileiras representa afronta aos interesses nacionais.
Por outro lado, aliados de Flávio Bolsonaro insistem que o governo Lula agravou o relacionamento com Washington por razões ideológicas e falhou na condução diplomática da crise.
Essa disputa discursiva transformou conflito comercial em batalha simbólica sobre quem representa, efetivamente, os interesses nacionais.
VIAGEM AOS EUA DIVIDE OPINIÕES
Outro aspecto investigado foi a viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos. A maioria dos entrevistados (57%) declarou desconhecer a agenda do senador em Washington.
Entre aqueles que afirmaram ter acompanhado a viagem, prevalece o ceticismo quanto à capacidade do senador de influenciar Donald Trump: 58% não acreditam que Flávio tenha força para convencer o governo americano a rever as tarifas, enquanto 34% acreditam nessa possibilidade.
O dado revela paradoxo político: embora parte expressiva da população desconheça a atuação internacional do senador, entre os informados predomina a percepção de baixa capacidade de influência sobre a decisão da Casa Branca.
NEM A DIREITA BOLSONARISTA FICOU IMUNE
Talvez o dado mais significativo da pesquisa esteja na movimentação interna do eleitorado de direita.
Mesmo entre bolsonaristas, houve redução do apoio à narrativa apresentada por Flávio Bolsonaro. A concordância caiu de 75% para 67%, variação superior à margem de erro para esse segmento, indicando que o episódio provocou algum desgaste inclusive entre eleitores tradicionalmente alinhados ao senador.
Entre independentes e eleitores da direita não bolsonarista também houve crescimento da concordância com a interpretação defendida pelo presidente Lula, ainda que parte dessas oscilações permaneça dentro da margem de erro estatística.
ECONOMIA PESA MAIS
Mais do que identificar responsáveis, os brasileiros demonstram preocupação com os efeitos concretos das sanções.
Segundo a pesquisa, 63% acreditam que as tarifas impostas pelos Estados Unidos vão prejudicar a própria vida ou a da família; 8 pontos percentuais acima do levantamento anterior. Apenas 31% afirmam que não esperam impactos pessoais.
O dado evidencia que a questão comercial deixou de ser percebida como conflito distante entre governos e passou a ser associada a possíveis consequências sobre preços, empregos, renda e atividade econômica.
REDES AMPLIAM POLARIZAÇÃO
Nas redes digitais, o tarifaço tornou-se um dos temas políticos mais comentados do dia.
Militantes governistas intensificaram o uso de expressões como “Tariflávio” e “entreguista”, buscando associar o senador às sanções americanas.
Já apoiadores de Flávio Bolsonaro reforçaram o argumento de que o governo Lula deteriorou a relação bilateral com Washington e falhou na negociação diplomática.
As discussões refletem a forte polarização do ambiente digital, em que o episódio é interpretado por grupos distintos como prova de narrativas opostas.
CRISE
A pesquisa Genial/Quaest sugere que o tarifaço dos Estados Unidos produziu efeitos que vão além da economia.
A medida passou a influenciar percepções sobre responsabilidade política, capacidade de liderança e condução da política externa, convertendo-se em um dos principais temas da disputa presidencial.
Ao mesmo tempo, os dados mostram que a preocupação predominante do eleitor continua sendo o impacto concreto das tarifas sobre o cotidiano.
Se esse receio persistir ou aumentar, o episódio tende a permanecer no centro da campanha eleitoral, funcionando não apenas como controvérsia diplomática, mas como teste da capacidade dos candidatos de convencer o eleitorado sobre quem melhor defende os interesses econômicos e a soberania do País.











