O lançamento do Tela Brasil, no último dia 30, plataforma de streaming pública e gratuita dedicada totalmente ao cinema e audiovisual brasileiro, já pode ser considerada uma das iniciativas mais relevantes do governo brasileiro na área cultural. Não à toa, já nos primeiros três dias de funcionamento atingiu cerca de 300 mil usuários e teve milhões de visualizações, sendo os filmes mais assistidos nesses primeiros dias os belíssimos “A Hora da Estrela”, baseado em romance de Clarice Lispector e dirigido por Suzana Amaral, e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, obra seminal de Glauber Rocha.
Também estão entre os dez mais assistidos até o momento, “Carandiru”, dirigido por Héctor Babenco, o curta “O Órfão”, de Carolina Markowicz, “O que é isso Companheiro”, de Bruno Barreto, o curta-documentário “Tia Ciata”, dirigido por Raquel Beatriz e Mariana Campos, e protagonizado pela escritora Conceição Evaristo, e ainda “Orfeu Negro”, filme ítalo-franco-brasileiro de 1960, dirigido por Marcel Camus, com músicas de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Luiz Bonfá, e Antônio Maria. O longa foi premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro, embora o prêmio tenha ido para a França, por ter como principal financiadora uma produtora francesa.
Essas escolhas sinalizam que o público quer, sim, além do puro e louvável entretenimento, acesso a obras de profundidade, que o preencha de conhecimento e compreensão sobre a nossa história, que suscite questionamentos e sentimentos sobre suas vidas, suas buscas e crença no futuro que queremos.
O acervo, de pouco mais de 500 títulos, traz riqueza, diversidade e qualidade em seu conteúdo, que dificilmente seriam encontrados em plataformas comerciais, mesmo àquelas voltadas a temas mais culturais e artísticos.
Senão, onde encontraríamos, na tela caseira de nossa TV em uma noite de feriado, uma sequência de curtas e médias-metragens variando entre 13 a 35 minutos – mas cheios de imagens raras, informações novas, cenas e histórias inspiradoras –, sobre, por exemplo, o médico sanitarista Oswaldo Cruz, a escritora Clarice Lispector, o cinegrafista Luiz Thomaz Reis, que documentou as expedições do Marechal Rondon na Amazônia; ou relatos sobre o Maxixe, primeira dança urbana do Brasil, ou sobre a obra imprescindível do pintor Cândido Portinari?
Isto apenas em um primeiro contato com a plataforma e seu conteúdo. Mas somente na categoria acima, a do acervo do MinC (Ministério da Cultura), encontramos títulos sobre o Partido Alto, a Congada, as belezas arquitetônicas e naturais do Rio de Janeiro, ou do Pelourinho, em Salvador, ou sobre os Choros e Chorinhos, a Bossa-Nova, o Cordel e seus cantadores, ou o cinema e o futebol.
Títulos que, nas diversas categorias, incluindo produções infantis e para a juventude, vão muito além dos longas mais conhecidos, das comédias mais populares ou dos que suprem as cotas de tela na TV.
Estão lá indicados e pré-indicados ao Oscar, como “O Grande Circo Místico”, os já citados “A Hora da Estrela” e “O que é isso Companheiro”, “São Paulo Sociedade Anônima”, ou “O Quatrilho”. Nas categorias Brasilidade e Africanidades vemos títulos sobre Elza Soares, Antonieta de Barros – primeira mulher negra eleita deputada no Brasil –, ou ainda documentário sobre o cineasta Silvio Tendler.
A categoria História e Estética nos brinda com praticamente todos os filmes de Glauber Rocha, documentários sobre o primeiro cinema brasileiro e o filme mais antigo do país, ou ainda a comédia clássica “O Homem do Sputinik”, de 1959, dirigido por Carlos Manga, e títulos sobre os estúdios da Atlântida. Preciosidades que devem e precisam ser exploradas e saboreadas por todos os amantes do audiovisual, da arte, da cultura brasileira e do Brasil.
Sobre a ausência de algumas obras relevantes e mais recentes, o fato é que a plataforma, mesmo pública, está submetida ao complexo funcionamento do universo comercial do audiovisual, como direitos de exibição, janelas de lançamento – tempo em que o filme não pode ser disponibilizado antes de passar nos cinemas –, e contratos de exclusividade com estúdios, produtores e redes de cinema ou streamings pagos, o que faz com que filmes mais atuais levem tempo para serem licenciados.
Assim, a expectativa é que, à medida que os contratos de exclusividade de novos títulos forem expirando, mais filmes sejam disponibilizados e a plataforma se torne cada vez mais rica e representativa da nossa cinematografia, da nossa cultura, e do povo brasileiro.
Enfim, o Tela Brasil é um belo convite para adentrarmos o nosso Brasil mais profundo, com a porta aberta e o sentimento de pertencimento, como bem suscitou, com seu questionamento, o presidente Lula: “Por que nós somos assim? Por que nós fazemos assim?”.
ANA LUCIA
Como acessar
Para acessar o Tela Brasil, basta se cadastrar a partir de uma conta gov.br, no site oficial da plataforma ou por aplicativo, disponível para Android e iOS. Em breve, o aplicativo será compatível com Smart TVs e dispositivos de transmissão como Google Chromecast e Apple TV.











