Trump embolsa US$ 2,2 bi, no primeiro ano na Presidência, com golpes via criptomoedas

O finório Trump (Andrew Caballero- AFP)

Divulgações financeiras anuais divulgadas na terça-feira (30) revelam que o presidente dos EUA, Donald Trump, embolsou pelo menos US$ 2,2 bilhões — mais da metade devido às operações com criptomoedas — durante seu primeiro ano de volta à Casa Branca, um lucro inesperado que especialistas consideram “sem precedentes” na história dos EUA.

De acordo com o relatório, emitido pelo Escritório de Ética Governamental norte-americano, Trump recebeu US$ 635 milhões em royalties da Celebration Coins, uma arapuca ligada à meme cripto do presidente, a $TRUMP.

Outros US$ 527 milhões são provenientes da venda de (títulos de IA), ‘tokens‘ pela World Liberty Financial (WLF), o empreendimento cripto da família Trump, liderado por Eric Trump e Donald Trump Jr e, em paralelo, o esquema de apostas da Polymarket. Casualmente, o amigo Steve Witkoff é cofundador da WLF.

“É completamente sem precedentes”, disse Megan Gorman, advogada tributária que estudou a história da riqueza presidencial, ao The New York Times sobre o lucro inesperado do presidente. Para Elizabeth Warren, principal democrata na Comissão de Assuntos Bancários do Senado, trata-se de “corrupção criptográfica”.

Uma análise publicada pela Forbes no mês passado estimou que Trump quase triplicou sua riqueza desde que voltou ao cargo, passando de um patrimônio líquido de US$ 2,3 bilhões em 2024 para US$ 6,5 bilhões em 2026.

Robert Weissman, copresidente do grupo de defesa do consumidor Public Citizen, disse em um comunicado que “a renda obscena de Trump é impulsionada por vários esquemas de criptomoedas, aproveitando sua posição política para explorar uma indústria guiada por golpes que ele certa vez disse ser nada mais que um esquema.”

“O mais preocupante é que o interesse pessoal de lucro de Trump agora o alinhou com a indústria cripto, abrindo caminho para legislações perigosas que facilitarão golpes em massa e até ameaçarão a estabilidade do sistema financeiro”.

UM GOVERNO “PAY-TO-PLAY”

O ‘Projeto Americano de Liberdades Econômicas’ denunciou que Trump está enchendo seus próprios bolsos às custas dos contribuintes dos EUA. O relatório — intitulado “O Preço da Corrupção: Como a Administração Pay-to-Play de Trump está Aumentando os Custos para Famílias Trabalhadoras” — explica como Trump não está apenas usando a presidência para se enriquecer, mas deixando os americanos comuns arcarem com suas negociações corruptas.

“Quando Trump lançou o TrumpRX no início deste ano, a administração alegou que era uma forma dos americanos acessarem medicamentos prescritos mais acessíveis”, afirma o relatório. “Em vez disso, a plataforma não divulga informações sobre alternativas genéricas mais baratas e, em alguns casos, cobra mais dos consumidores por produtos que estão disponíveis por menos em outros lugares.”

O relatório afirma que o TrumpRx “serve como propaganda gratuita para a Big Pharma e pode estar enchendo os bolsos do filho mais velho do presidente, Donald Trump Jr., que faz parte do conselho da plataforma de medicamentos prescritos BlinkRX, que tem potencial para se beneficiar da promoção da venda direta de medicamentos ao paciente pela administração.”

Outra “fonte” apontada pelo relatório é a clemência presidencial para vários criminosos de colarinho branco. Como Paul Walczak, “um executivo de asilo condenado por sonegação fiscal” que foi perdoado “três semanas depois que sua mãe doou 1 milhão de dólares a Trump em uma arrecadação de fundos em Mar-a-Lago”. Também o magnata das criptomoedas Changpeng Zhao, que recebeu perdão meses após ajudar a impulsionar o empreendimento cripto da família Trump.

POLYMARKET

O documento também denuncia a interferência de Trump junto às agências reguladoras para beneficiar diretamente os interesses comerciais dos familiares do presidente, especialmente no campo dos mercados de previsão online ligados a Donald Trump Jr.

“No último ano, Donald Trump Jr. atuou como consultor estratégico de Kalshi e grande investidor na Polymarket, enquanto a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC) — a agência responsável por essas empresas — atuou como aliada, e não como seu fiscalizador”, diz o relatório.

“Ambas as empresas haviam feito lobby ativo junto à CFTC de Trump para impedir que os estados regulassem os mercados de previsão da mesma forma que regulam as empresas de jogos de azar.”

ASSALTO ÀS APOSENTADORIAS

No mês passado, dois dos mais respeitados senadores oposicionistas, Elizabeth Warren e Bernie Sanders, lançaram uma campanha contra as manobras do governo Trump para abrir para as criptomoedas e para o chamado mercado de crédito privado, fundos abutres, de alto risco as contas 401 k dos fundos de aposentadoria privada.  

Ambos denunciaram a nova regra como “prejudicial aos trabalhadores”, por retirar “proteções de investidores de longa data dos poupadores de aposentadoria e incentivar o uso de investimentos mais arriscados, complexos e caros”.

Eles advertiram que as criptomoedas há muito provam ser ativos voláteis envolvidos em múltiplos esquemas de fraude, que o FBI estima terem custado aos americanos mais de 20 bilhões de dólares somente em 2025. Como exemplo desses riscos, eles citaram que a $TRUMP, que despencou desde seu pico em janeiro de 2025.

Oscar Valdés Viera, analista sênior de políticas públicas para private equity e mercados de capitais na AFR – Americans for Financial Reform (AFR), acusou o Departamento do Trabalho, que emitiu as novas regras, de entregar as economias de aposentadoria dos EUA para “os piores predadores de Wall Street e golpistas de criptomoedas”.

“Levar os trabalhadores para os braços de empresas de private equity e insiders de cripto permitiria que os comparsas do presidente em Wall Street e cripto embolsassem bilhões às custas da segurança da aposentadoria das famílias”.

FAMIGLIA FIRST

Reportagem do The New York Times do fim de semana detalhou como a investida do governo Trump para resolver a crise dos metais críticos convenientemente está contribuindo para o aumento da fortuna da família e, como uma mão lava a outra, os filhos do secretário de Comércio Howard Lutnick também foram agraciados.

Segundo o jornal, Trump e sua equipe “conquistaram um acordo do líder do Cazaquistão [Kassym-Jomart Tokayev]para dar a uma empresa americana pouco conhecida acesso a uma das maiores reservas inexploradas de tungstênio do mundo, um metal que os Estados Unidos precisam desesperadamente para a produção de ogivas de mísseis, caças, chips de computador, e outros bens críticos.”

Eric Trump e Donald Trump Jr., junto com os filhos de Lutnick, Brandon e Kyle, estão prontos para se beneficiar do projeto. “Poucas semanas após as negociações de St. Regis, investidores de uma empresa chamada Dominari Securities, que está alojada na Trump Tower em Nova York e é parcialmente propriedade dos dois filhos mais velhos do presidente… uniu-se a outros parceiros para adquirir uma participação de 20% em uma entidade corporativa relacionada ao projeto do Cazaquistão”, informou o Times.

Os filhos de Lutnick, por sua vez, “ajudaram um dos principais investidores… no acordo cazaque levantou 210 milhões de dólares em novo capital para uma entidade relacionada”, potencialmente resultando em um benefício multimilionário para a Cantor Fitzgerald, a firma de investimentos supervisionada por Brandon e Kyle Lutnick.

“Eles nem estão mais tentando esconder sua corrupção descarada”, escreveu o deputado democrata Don Beyer. “O presidente Trump e o secretário Lutnick usaram seus impostos para enriquecer ainda mais suas famílias com um grande acordo de mineração com o Cazaquistão.” Pelo menos “14 empresas trabalhando em acordos críticos de mineração com o governo dos EUA têm ligações com Cantor Fitzgerald ou a família Trump”, incluindo Kaz Resources, Perpetua Resources e USA Rare Earth, disse o NYT.

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