Zema tenta chutar Flávio Bolsonaro por cobrar Vorcaro, mesmo tendo recebido R$ 1 milhão do banqueiro

Romeu Zema e Flávio Bolsonaro - Foto: Divulgação/Redes Sociais

Ex-governador mineiro ignorou que o Partido Novo em Minas recebeu R$ 1 milhão da família Vorcaro em 2022

Romeu Zema resolveu posar de paladino da moralidade ao atacar Flávio Bolsonaro pelos áudios em que o senador cobra dinheiro de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. O problema é que, enquanto apontava o dedo para o aliado, o ex-governador mineiro convenientemente ignorava que o Partido Novo em Minas recebeu R$ 1 milhão da família Vorcaro em 2022, justamente no período em que Zema disputava a reeleição.

Em vídeo publicado nas redes sociais no dia 13 de maio, Zema disparou: “Flávio Bolsonaro, ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa. É preciso ter credibilidade para mudar o Brasil”.

Até então, porém, o clima entre os dois era de aliança e afago político. Zema e Flávio Bolsonaro vinham sendo tratados como possíveis parceiros para a eleição presidencial de 2026. Em abril, o ex-governador chegou a sugerir publicamente, em tom descontraído, que o senador poderia ser seu vice em uma chapa ao Planalto.

A crise explodiu após a divulgação de mensagens e áudios atribuídos a Flávio Bolsonaro, nos quais ele aparece cobrando pagamentos prometidos por Daniel Vorcaro para bancar o longa “Dark Horse”. Segundo reportagem do Intercept Brasil, pelo menos US$ 10,6 milhões — cerca de R$ 61 milhões — teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025 para financiar o projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro. A publicação afirma ainda que Flávio teria negociado um aporte total de US$ 24 milhões, equivalente a cerca de R$ 134 milhões na cotação da época.

Mesmo diante das revelações, o senador tentou minimizar o caso, alegando que a conversa envolvia apenas “patrocínio privado para um filme privado”. Também defendeu uma CPI do Banco Master para, segundo ele, “separar os inocentes dos bandidos”. Daniel Vorcaro está preso preventivamente desde março e negocia um acordo de delação premiada com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República.

O discurso moralista de Zema, no entanto, perdeu força quando vieram à tona os registros do Tribunal Superior Eleitoral mostrando que Henrique Vorcaro, pai do banqueiro preso pela PF, doou R$ 1 milhão ao diretório estadual do Novo em Minas Gerais em 2022 — ano em que Zema disputava a reeleição.

Henrique Vorcaro foi preso na quinta-feira (14), durante a sexta fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro do STF André Mendonça. A ação da Polícia Federal incluiu sete mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Pressionado, Zema tentou se desvincular do dinheiro afirmando, por meio da assessoria, que a doação foi destinada ao partido e não diretamente à sua campanha, sustentando que “nenhum centavo entrou” na disputa eleitoral. O ex-governador também declarou que a contribuição ocorreu em 2022, “quando não havia nem mesmo suspeita contra Vorcaro. A PF só iniciou as investigações sobre o Banco Master em 2024.” Segundo ele, a doação foi “perfeitamente legal e transparente” e registrada na Justiça Eleitoral.

O Partido Novo seguiu a mesma linha defensiva e afirmou em nota que “é pública e devidamente registrada nas prestações de contas do partido a doação feita por Henrique Vorcaro ao Partido Novo nas eleições de 2022” e que “na época, as ilegalidades do Banco Master ainda eram desconhecidas. Desde que o caso veio à tona, o partido e sua bancada no Congresso têm criticado e atuado na investigação dos escândalos em que o banco está envolvido.” A legenda também alegou que “jamais escondeu a origem de suas doações, tampouco condiciona sua atuação política aos interesses dos milhares de doadores que contribuem voluntariamente com o partido.”

Segundo a Polícia Federal, os investigados na operação são suspeitos de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, invasão de dispositivos informáticos e violação de sigilo funcional. Na decisão de 59 páginas que autorizou as prisões, André Mendonça afirma que Henrique Vorcaro não seria um personagem periférico no esquema, mas alguém que “atuava em conjunto com o filho” Daniel Vorcaro “como solicitador e beneficiário dos serviços ilícitos prestados pelo grupo”.

As investigações indicam ainda que a organização criminosa operava em dois núcleos. Um deles, chamado “A Turma”, reuniria policiais federais da ativa e aposentados, operadores do jogo do bicho e outros integrantes responsáveis por monitoramento presencial e obtenção de informações sigilosas. O segundo grupo, apelidado de “Os Meninos”, teria perfil hacker e seria responsável por invasões de dispositivos, espionagem clandestina e possível destruição de provas digitais.

Discreto publicamente, Henrique Vorcaro atua no setor de infraestrutura e construção pesada em Minas Gerais e é fundador do Grupo Multipar, conglomerado presente em áreas como engenharia, energia, agronegócio e mercado imobiliário. Dados da Receita Federal apontam que ele aparece como sócio ou administrador de empresas cujo capital social somado se aproxima de R$ 500 milhões.

O episódio aprofundou a crise entre setores da direita. Enquanto aliados bolsonaristas correram para defender Flávio Bolsonaro, adversários passaram a explorar o elo entre o escândalo do Banco Master, a família Bolsonaro e o Novo. O pré-candidato à Presidência pelo partido Missão, Renan Santos, afirmou que as denúncias envolvendo o senador eram “óbvias” para quem acompanha o cenário político e declarou que “onde há escândalo de corrupção, há Flávio Bolsonaro”. Ele também disse que “sobrou eu, sobrou o Zema”, cobrando explicações do ex-governador sobre os vínculos indiretos com a família Vorcaro.

Já o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, evitou comentar o caso. “Não, eu não vou tratar desse assunto aqui hoje. Isso não é pauta”, respondeu ao ser questionado sobre os áudios vazados de Flávio Bolsonaro durante agenda no Jaguaré, Zona Oeste da capital paulista.

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