“EUA só obteve fracasso em sua agressão ao Irã”, afirma o chanceler Araghchi

Cresce o número de embarcações esperando para atravessar o estreito de Ormuz bloqueado pelo Irã (Reuters)

“O Plano A foi um fracasso, e agora eles estão tentando outros planos, mas todos eles também falharam”, disse o chefe da diplomacia iraniana. Tentativa de decapitação da liderança e mudança de regime já na lata de lixo da história

Com o preço do galão de gasolina subindo 14% em uma semana a oito meses das eleições; os principais radares norte-americanos no Oriente Médio destruídos e os primeiros caixões chegando; o estreito de Ormuz, e 20% do petróleo comercializado do planeta, paralisados e o preço do barril subindo para três dígitos, além de sobressaltos nas bolsas e da maior rejeição já vista nos EUA, logo no início de uma nova guerra, o fuhrer de Mar a Lago, Donald Trump, telefonou para o presidente russo na segunda-feira (9) para pedir penico e até disse em entrevista à CBS que a guerra – não provocada que ele próprio desencadeou – estava “quase no fim”. 

Dois dias antes, Trump exigira “rendição incondicional”, delirara que iria nomear o próximo líder do Irã e ameaçara o país com “destruição total”.

A resposta do Irã, que acabou de eleger o filho do assassinado Ali Khamenei, Mojtaba, como o novo líder supremo, não tardou: a guerra terá fim quando “Teerã determinar” e não permitirá que “um litro de petróleo” seja exportado da região se os ataques dos EUA e de Israel continuarem, segundo declaração da Guarda Revolucionária Islâmica, a força de elite iraniana.

“PLANOS DOS EUA FALHARAM”

Para o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, os EUA só obtiveram “fracasso” em sua agressão ao Irã. “O Plano A foi um fracasso, e agora eles estão tentando outros planos, mas todos eles também falharam”, disse Araghchi em entrevista à rádio pública norte-americana NPR. O “Plano A”, claro, a tentativa de decapitação e mudança de regime, já na lata de lixo da história.

O chefe da diplomacia iraniana repele negociações a ponta de baioneta ao relatar a “experiência muito amarga” com as negociações de 2025 com o regime Trump, interrompidas pela agressão de junho, e agora, no último dia de fevereiro, a repetição da trairagem.

“Eles nos prometeram que não tinham nenhuma intenção de nos atacar e que queriam resolver a questão nuclear do Irã pacificamente e encontrar uma solução negociada”, disse Araghchi. “Mesmo assim, eles decidiram nos atacar.”

Ou, mais exatamente, desencadearam um ataque traiçoeiro em conluio com o regime genocida de Israel, assassinaram o líder supremo do Irã e familiares e chacinaram com mísseis 175 crianças de uma escola primária, entre outros crimes hediondos. Em uma semana, mais de 1.300 civis foram mortos pelas bombas e mísseis do Eixo EUA-Israel.

Araghchi também responsabilizou Trump e Netanyahu pela alta do preço do petróleo. “Ao atacarem a infraestrutura energética do Irã, eles fizeram com que os preços do petróleo disparassem”.

Nesse quadro, como destacou porta-voz da chancelaria iraniana, Esmail Baghaei, “não faz sentido falar de nada além de defesa e retaliação contra os inimigos”.

A partir de agora, nenhum míssil será lançado com ogivas de menos de uma tonelada, anunciou o comandante iraniano Majid Mousavi, enquanto as bases dos EUA na região e alvos em Israel são triturados por mísseis e drones.

“ESTA GUERRA NÃO FOI UMA ESCOLHA NOSSA”

À PBS News, Araghchi enfatizou que “esta guerra não é nossa. Não foi uma escolha nossa. Esta guerra nos foi imposta. Fomos atacados e estamos nos defendendo”.

Em relação aos potenciais efeitos negativos da resposta do Irã à agressão, ele destacou que se os países do Golfo, que abrigam as bases norte-americanas, têm o direito de tomar todas as medidas necessárias para proteger suas instalações, “nós temos ainda mais direito de tomar medidas para nos defender e proteger nosso povo, e é exatamente isso que estamos fazendo”.

Ele sublinhou que os EUA e Israel “devem ser responsabilizados por qualquer dano ao Irã e à região, pois tudo começou com as ações deles”.

Diante das ameaças de Trump, o presidente Masoud Pereshkian afirmou que “quem nutre a ilusão de destruir o Irã desconhece a história”. 

Em publicação na rede social X, Pezeshkian disse que o Irã é herdeiro de uma civilização com pelo menos 6 mil anos. “Ao longo da história, nenhum poder conseguiu apagar esse nome”, escreveu.

O presidente acrescentou que aqueles que acreditam ser possível destruir o país ignoram as lições da história. “Agressores vieram e se foram; o Irã resistiu.”

“Nem mesmo outros maiores que você conseguiram eliminar o povo do Irã. Cuidado para que você não seja eliminado!”, postou na rede X o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Ali Larijani, respondendo a Trump.

CUSTO DA AVENTURA: US$ 100 BILHÕES

Sob vários ângulos, a aventura de Trump está custando caro aos EUA. Segundo o jornal britânico The Telegraph, os gastos dos EUA podem chegar a US$ 100 bilhões (R$ 510 bilhões), tornando se a maior operação militar no Oriente Médio desde a Guerra do Golfo. Só as primeiras 100 horas da operação Fúria Épica tiveram um custo de cerca de US$ 3,7 bilhões (cerca de R$ 19 bilhões), o equivalente a US$ 891 milhões (R$ 4,5 bilhões) por dia.

A popularidade de Trump está despencando, com apenas 27% dos norte-americanos aprovando sua agressão ao Irã, e 43% contra. O que pode se agravar se as baixas aumentarem. Na primeira semana, o Pentágono já admitiu sete soldados mortos. Os feridos são 180 feridos; destes, oito em estado grave. De acordo com o Irã, o total de baixas é bem maior. Hospitais dos EUA na Alemanha estão apinhados de feridos.

A rede de bases norte-americanas no Golfo, implantadas ao longo de meio século como substrato do petrodólar, está sob fortes golpes iranianos, a ponto de o Pentágono anunciar que vai tirar antimísseis estacionados na Coreia do Sul para cobrir buracos no Oriente Médio. Os principais radares norte-americanos – sem os quais os sistemas de interceptação ficam “cegos” – viraram sucata.

As petromonarquias do Golfo também estão vivenciando a desastrosa experiência de verem Washington jogar tudo por Israel, enquanto os supostos aliados que cedem o território para as 19 bases e 40 mil soldados é que têm que se virar sob o peso da retaliação do Irã à guerra que Trump e Netanyahu escolheram desencadear.

PARADA TOTAL EM ORMUZ EM UM MÊS

Segundo o porta-voz do Kremlin, Putin ofereceu “visões sobre como resolver o conflito no Irã”. Ele e Trump conversaram por quase uma hora. “A Rússia está pronta para prestar sua assistência da melhor maneira possível e ficaria feliz em fazê-lo, mas vocês sabem que isso requer entendimento e acordo multifacetados, então teremos que ser pacientes”, disse Dmitry Peskov.

Parte dessas propostas já havia sido apresentada por Moscou, mas foram ignoradas em favor da covarde agressão ao Irã.

Desde o início do confronto, o presidente russo tem conversado por telefone com os líderes do Irã e dos países do Golfo, reiterando sua posição pela interrupção da guerra e volta à negociação diplomática. Também a China tem conclamado a uma desescalada. Rússia e China repudiaram o ataque não provocado e ilegal sob a lei internacional e saudaram a eleição de Mojtaba Khamenei.

Na segunda-feira, em uma reunião com os responsáveis pela área da energia na Rússia, Putin advertiu que Ormuz pode chegar a uma paralisação completa dentro de um mês. “Já começou a diminuir, e os depósitos na região estão se enchendo de petróleo que não pode ser transportado, ou é muito difícil ou muito caro transportá-lo”. Não é só o transporte que está parando. A produção está parando.

PÂNICO NA CASA BRANCA

O fracasso do plano Trump-Netanyahu de mudança do regime no Irã através de um “ataque pelos céus” – que abriria as portas para a quinta-coluna – também vem sendo registrado por vários analistas.

O presidente Trump está começando a perceber que a campanha militar contra o Irã não está indo conforme o planejado, afirmou na rede social X o tenente-coronel aposentado do Exército dos EUA, Daniel Davis.

Sobre as novas ameaças do chefe da Casa Branca em relação ao estreito de Ormuz, o ex-militar norte-americano disse que Trump está desesperado porque entendeu que não conseguiria vencer o Irã usando apenas a Força Aérea.

Ao mesmo tempo, as Forças Armadas norte-americanas não têm um plano viável para realizar um ataque terrestre, do que Trump, segundo ele, também está ciente.

“O presidente Trump está desesperado e em pânico! […] Trump entende que não há opção viável de um ataque terrestre para vencer rapidamente a guerra com o Irã”, concluiu Davis.

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