Os filhos da elite avarenta


DAVI MOLINARI

Entrei no Fale Mais Sobre Isso jurando não falar de política, futebol, Bolsonaro, Neymar, rachadinha nem de filhinho de papai com complexo de Édipo gourmet.

Durou doze segundos.

Na mesa da parede, um rapaz parecia o Donald Trump versão trainee: cabelo de shopping e um blazer azul de quem quer privatizar a água, embora nunca tenha lavado um copo na vida. Em volta, a fauna habitual: a Faria Lima vestindo colete e o Vale do Silício de moletom caro, destilando aquela falsa empatia terceirizada.

Perguntei pro Juvenal: – Quem é o cosplay de bilionário?

Juvenal pousou as tulipas com precisão de controlador de voo etílico. As manjubinhas vieram crocantes, preparadas por João e Maria com aquele asseio que ainda separa a civilização de um podcast de true crime.  

– Você não soube? Esse aí é o filho bastardo do Laranjão.

O Doutor tirou o bloquinho do bolso. Mau sinal. Quando ele saca o bloco antes do primeiro gole, é porque já detectou o inconsciente coletivo alterado.

– Custou pro pai reconhecer – continuou Juvenal. – Teve DNA, ameaça de processo e nota oficial. No fim, o afeto saiu com a mesma espontaneidade de uma intimação da Receita Federal.

– Nem precisava de perícia – falei. – Tá na cara.

O Laranjão, para quem não acompanha o inventário da vizinhança, é o morador da cobertura de alto padrão que já tentou sequestrar Juvenal, fechar o boteco, comprar o imóvel e humilhar os frequentadores. Criava o pitbull Messias solto, treinado para rosnar contra estudantes, jornalistas e qualquer coisa com cheiro de direitos trabalhistas.

Messias acabou recolhido pela prefeitura. Dizem que ainda sofre de tremores quando escuta a palavra “Constituição”.

– E a cópia? – perguntei. – É igual ao pai?

Juvenal secou a mão no pano. – Quer ser. Mas não consegue. Herdou o sobrenome, não o aparato.

O Doutor fez um “hum” sutil. Coisa de vírgula lacaniana.

Entendi na hora. Tem herdeiro que cresce blindado demais para amadurecer e exposto demais para ser livre. O pai vira um teto baixo; o sobrenome chega cinco minutos antes da personalidade.

Na mesa, o mini-Trump discursava sobre meritocracia com a audácia cega de quem nasceu no camarote VIP da desigualdade. O Peter – Pan tagarelava sobre mercado e inteligência artificial, enquanto a moça ao lado calculava se o saldo dava para o aplicativo na volta.

– O playboy é o puer aeternus de alfaiataria – arrisquei. – Tem score alto de crédito no Serasa, mas a maturidade emocional de um pré-adolescente.

O Doutor arqueou as sobrancelhas como sinal verde para aprofundar o tema.

Juvenal sorriu. – Traduzindo: já tem idade para ser processado, mas ainda liga para o jurídico do pai quando o acidente com a Porsche  passa de três dígitos e deixa feridos pelo caminho.

Foi profético. Minutos depois, o rapaz reclamou que a cerveja artesanal “carecia de uma pegada mais disruptiva”, chamou Juvenal de “meu querido” – o vocativo padrão que usam antes de explorar a gentileza de um trabalhador –, derrubou um copo e anunciou: – Depois eu acerto isso aí.

No Fale Mais Sobre Isso, a frase “depois eu acerto” assusta mais que pronunciamento golpista.

O jovem levantou, deu tapinhas protocolares nos bolsos com a encenação de quem ensaia calote desde o berço e sorriu para as moças: – Surgiu uma call urgente. Vocês cobrem a minha parte?

E evaporou. Saiu sem pagar, igual a certos personagens da nossa história: fazem pose de liderança enquanto jogam o prejuízo nas costas dos outros.

Juvenal recolheu os estilhaços do copo. – Está vendo? Playboy inseguro é míssil sem GPS. Consegue ser muito mais destrutivo do que os pais que os criaram – ou não criaram.

Respirei fundo. – A ausência paterna deforma. Mas a presença excessiva cria monstros.

O Doutor anotou.

– Veja o Neymar – ilustrei. – Parece uma criança birrenta que cai para chamar a atenção do pai. Já o Flávio Bolsonaro vive tentando provar que consegue fazer uma maracutaia maior do que a do patriarca. Como quem diz: “Olha, pai, eu também sei armar rachadinhas e esquemas”.

Juvenal completou: – O problema é que eles não querem superar o pai. Querem herdar o trono, o cofre e ainda pedir colo.

As manjubinhas estalaram ocupando o silêncio.

Pensei no quanto o Brasil tem tolerância religiosa com herdeiros despreparados. Herdeiros da política, do esporte, de impérios falidos. Gente que ganha palco antes de aprender a organizar um discurso. E quando fracassam, terceirizam a culpa.

Na psicanálise de boteco, o diagnóstico era simples: filhinho de papai com trauma de não ser o pai.

Foi quando o Doutor fechou o bloquinho. Seco. Clínico. Fatal. Olhou por cima dos óculos e disparou:

 – O filho que não faz o luto do pai vivo passa a existência confundindo herança com identidade.

Foi então que a ficha caiu. Tem gente que não amadurece. Vira mera extensão jurídica da figura paterna. Uns fazem isso caindo em campo. Outros, discursando no Senado. E alguns, apenas fugindo da conta do bar.

Juvenal olhou para a porta por onde o Laranjinha escapou. – Neymar e Flávio não estão à altura do Brasil – sentenciou. – Mas são o resultado dessa elite gananciosa e desprovida de valores morais.

Fez uma pausa para limpar o balcão. – E de onde não sai caráter… geralmente sobra boleto para os outros pagarem.

No fim, não é o sobrenome que pesa. São os laços que herdaram, falei, estendendo o cartão de crédito para Juvenal cobrar a conta.

Publicado originalmente em Divã no Boteco – XCIII. Enviado pelo autor.

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