Com desgoverno Milei, não pagamento de dívidas atinge os maiores percentuais em mais de duas décadas. Porta-voz presidencial culpa a população por “estourar o limite do cartão de crédito e depois se encontrar em apuros financeiros”
O arrocho salarial, o aumento do desemprego e as altas taxas de juros provocaram uma inadimplência recorde na Argentina, atingindo os mais altos percentuais em mais de duas décadas, apontou um levantamento realizado pelo jornal Página12. Soma-se a esta catástrofe, o aumento abusivo na jornada de trabalho.
Segundo dados do Banco Central da República Argentina (BCRA), as taxas de não pagamento alcançaram 15% nos empréstimos pessoais e 11% nos cartões de crédito, representando os piores índices no sistema bancário. A situação é ainda mais crítica entre credores não bancários, onde a inadimplência chega a 26% nas carteiras digitais, sendo 48% nas redes de varejo de eletrodomésticos e 58% nas empresas de crédito rápido (“instant cash” ou “dinheiro instantâneo”).
Frente à calamidade em que se encontram mergulhadas mais de 5,7 milhões de pessoas, o governo Milei decidiu culpar a população pelo endividamento excessivo, ignorando o desastre das suas políticas de emprego e renda – as verdadeiras causas do fenômeno.
De acordo com o porta-voz presidencial, Adrián Javier, “as pessoas precisam conhecer seus limites de endividamento”, não devendo simplesmente “estourar o limite do cartão de crédito e depois se encontrar em apuros financeiros”.
SALÁRIO MÍNIMO PERDEU QUASE 40% DO SEU PODER DE COMPRA
Integrante do grupo Paridade Macroeconômica, Lucia Crimi Obón ironizou a alegação governamental, recordando que, logo após o governo federal assumir, o limite legal para os juros de mora – penalidades cobradas pelo atraso no pagamento de uma dívida – do cartão de crédito foi eliminado, enquanto o salário mínimo perdeu quase 40% de seu poder de compra. Nesse mesmo período, as taxas de inadimplência das famílias subiram de 2% para 12% nos empréstimos bancários e de 8% para 27% nas carteiras digitais. “A explicação oficial implicaria acreditar que todos, de repente, ficaram insensatos no mesmo dia, precisamente durante os dois anos de mandato de Javier Milei”, condenou Lucia.
Um relatório do BC revelou que entregadores de aplicativos acumularam uma dívida média de 900.000 pesos (USD$ 610 ou R$ 3.106), sendo obrigados a recorrer às próprias plataformas para financiar reparos em seus veículos. Trabalhadores e sindicatos denunciam que esses aplicativos oferecem empréstimos quando os prestadores de serviço enfrentam dificuldades financeiras, apenas para cobrar taxas de juros anuais que chegam a 700% (setecentos por cento!).
AUMENTO DA JORNADA DE TRABALHO
“Temos colegas estendendo suas jornadas de trabalho para pagar empréstimos”, explicou Belén D’Ambrosio, secretária-geral do Sindicato dos Trabalhadores de Entrega por Aplicativo (Sitrarepa), ressaltando que o sistema de empréstimos cria uma forte dependência em relação às empresas. “Trabalhamos entre 10 e 12 horas apenas para cobrir os custos fixos. Esses empréstimos não são regulamentados, e deveria haver algum tipo de fiscalização estatal”, defendeu.
Para Martín Burgos, economista do Departamento de Economia Política do Centro Cultural de Cooperação, além da queda de renda, “o aumento da inadimplência se deve à forte alta das taxas de juros, que permaneceram bem acima da inflação após a desregulamentação financeira”.
“O governo atribuiu a deterioração desses indicadores a um suposto erro das famílias ao contraírem dívidas além de suas possibilidades. Essa interpretação transfere a responsabilidade para aqueles que sofrem com o problema, ignorando o impacto da queda na renda e no emprego formal causada pelas políticas da atual administração”, assinala o Página12.
Na realidade, apontam os especialistas, “o crédito deixou de financiar o consumo ou projetos de investimento, tornando-se, em vez disso, um mecanismo de sobrevivência usado para cobrir os custos de alimentação, contas de serviços públicos e saúde”. Na prática, ressaltam, “longe de refletir uma melhoria no padrão de vida, a expansão dos empréstimos destaca as dificuldades que milhares de famílias enfrentam para arcar com as despesas essenciais”.
Insistindo em repassar a responsabilidade do governo para as famílias, o porta-voz presidencial relacionou o aumento das taxas de inadimplência a um suposto – e mentiroso – “ciclo virtuoso de recuperação do crédito”. Javier vai além, alegando que quando há uma retomada da economia – que só Milei e sua equipe veem – “é normal que a inadimplência surja”.
O problema é que o fenômeno “normal” mencionado não havia sido visto em terras argentinas durante as últimas duas décadas.
POLÍTICAS NEOLIBERAIS E MEDIDAS DE AUSTERIDADE
Não é a primeira vez que o governo culpa a população pelos efeitos das suas políticas neoliberais e de subserviência às transnacionais e ao sistema financeiro. Há alguns dias, sugeriu que, diante do aumento das tarifas de gás, as famílias deveriam “se agasalhar” em vez de ligar o aquecimento.
A economista Delfina Rossi asseverou que o executivo “insiste em responsabilizar as famílias por um problema que é estrutural”. Na sua opinião, “o crédito funcionou como um placebo diante da crise de renda e emprego, mas, quando essa crise se torna permanente, nenhuma ponte financeira consegue se sustentar”. Além disso, “é muito difícil para as famílias escaparem dos algoritmos das fintechs [empresas inovadoras que utilizam tecnologia como inteligência artificial e nuvem para oferecer serviços financeiros mais rápidos, acessíveis e sem a burocracia dos bancos tradicionais] e dos mecanismos que incentivam o endividamento”.
A socióloga Luci Cavallero, da plataforma de ação social e política Movida Cidade, acredita que o governo Milei está sendo “forçado a enfrentar a questão do endividamento, pois as taxas crescentes de inadimplência minaram a narrativa oficial de melhora nas condições de vida cotidiana”.
Na opinião do diretor da consultoria Sarandí, Sergio Chouza, o aumento das taxas de inadimplência decorre de uma combinação de fatores: das altas taxas de juros, que “permaneceram muito acima da inflação, da cotação do dólar e dos salários, com custos financeiros superiores a 100%, tanto em bancos quanto em fintechs”; de muitas famílias substituirem parte de sua renda por crédito para manter os níveis de consumo, uma vez que uma parcela cada vez maior de seus salários é destinada a cobrir serviços públicos e outros serviços essenciais e as estratégias comerciais agressivas adotadas pelas instituições financeiras, nas quais “obter um empréstimo está ao alcance de qualquer pessoa que possua um celular”.











