Quando o centro de gravidade do petróleo muda de lugar, a geopolítica mundial se desloca com ele
Poucas forças moldaram tanto a história contemporânea quanto a migração do centro de gravidade do petróleo. No início do século 20, o eixo energético mundial eram os Estados Unidos. Os campos da Pensilvânia, do Texas e de Oklahoma sustentaram a industrialização americana e contribuíram decisivamente para transformar o país na principal potência econômica do planeta.
A partir da segunda metade daquele século, entretanto, esse centro se deslocou para o Golfo Pérsico. As gigantescas reservas da Arábia Saudita, do Kuwait, do Iraque e dos Emirados Árabes Unidos passaram a exercer influência decisiva sobre a economia mundial, moldando alianças estratégicas, conflitos regionais e a própria dinâmica dos mercados de energia.
A mudança do centro de gravidade energético para o Golfo coincidiu com a perda gradual de protagonismo do tradicional coração industrial estadunidense. Estados como Michigan, Ohio e Pensilvânia, que durante décadas simbolizaram a força manufatureira dos Estados Unidos, passaram a enfrentar processos de desindustrialização, perda de empregos e declínio relativo.
A ascensão da exploração do xisto nos EUA merece atenção especial porque introduz um elemento frequentemente ignorado nas análises sobre a geopolítica contemporânea. Como mostra a figura abaixo, a produção estadunidense cresceu de forma acelerada a partir da década de 2010, permitindo ao país ocupar a posição de maior produtor mundial de petróleo por volta de 2015.

Não por acaso, a recuperação da liderança petrolífera estadunidense coincide com a crescente preocupação de Washington em fortalecer cadeias produtivas estratégicas, reduzir vulnerabilidades externas e se recolocar no cenário internacional, seja na guerra Ucrânia X Rússia ou no conflito recente com o Irã, junto com Israel, além de redesenhar a relação com os países da Europa.
Bom relembrar que aproximadamente um quinto do petróleo comercializado internacionalmente atravessa aquele corredor marítimo entre o Irã e a Península Arábica, tornando-o um dos pontos mais sensíveis da economia global –o Estreito de Ormuz.
Sempre que tensões militares ameaçavam interromper esse fluxo, governos, empresas, bancos centrais e mercados financeiros avaliam cenários de inflação, desaceleração econômica e insegurança energética.
Importa destacar uma consequência particularmente relevante desse conflito recente no Oriente Médio: a destruição e a vulnerabilização da infraestrutura energética do Golfo, incluindo refinarias, oleodutos, gasodutos, terminais de exportação e outras instalações críticas da cadeia de petróleo e gás.
Agora, o que parece emergir é uma configuração complexa, na qual os Estados Unidos, de forma articulada, recuperam parte da centralidade energética que possuíam no início do século 20, ao mesmo tempo em que novos produtores ao longo do Oceano Atlântico ampliam sua relevância.
O resultado dessa configuração será o fortalecimento dos países atlânticos, com a formação gradual de um espaço energético mais diversificado, menos concentrado, mais estável política e juridicamente, além de potencialmente mais resiliente do que aquele que caracterizou a era dos grandes campos terrestres do Oriente Médio.
Essa percepção começa a aparecer de forma explícita na literatura especializada. Estudos recentes do Center on Global Energy Policy da Universidade Columbia destacam que a América Latina se encontra entre as regiões mais bem posicionadas para liderar a expansão da oferta mundial de petróleo fora da OPEP. Na mesma direção, análises da Reuters mostraram que Brasil, Guiana e Venezuela responderam por parcela relevante do crescimento das exportações globais durante os episódios recentes de instabilidade no Oriente Médio.
O século 20 foi construído sobre a geologia do Golfo. O século 21 será moldado pela geografia do Atlântico. Os principais vetores de expansão da produção mundial se encontram hoje distribuídos entre o xisto estadunidense, as areias betuminosas canadenses, os campos offshore da Guiana, as descobertas do Suriname, os novos projetos da Namíbia e da África Ocidental e, sobretudo, a extraordinária expansão da produção brasileira.
Mais ainda, os dois grandes ciclos geopolíticos do petróleo foram dominados por campos terrestres. O novo ciclo possui forte caráter “ offshore ”, ou seja, parte do petróleo está migrando para o oceano. Guiana, Suriname, Namíbia, Angola e Brasil representam diferentes expressões de uma mesma tendência: a expansão da produção em águas profundas e ultraprofundas.
Houve um momento em que o mundo se surpreendeu com o surgimento de uma indústria aeronáutica brasileira – a Embraer – capaz de competir com as maiores fabricantes do planeta. Décadas depois, o espanto repetiu-se no fundo do oceano.
Quando a Petrobras anunciou as descobertas do Pré-sal, não estava apenas encontrando petróleo. Demonstrou que era possível atravessar espessas camadas de sal e alcançar reservatórios localizados a mais de cinco mil metros da superfície do mar. O que muitos consideravam uma barreira geológica transformou-se em uma das maiores conquistas tecnológicas da indústria petrolífera mundial!
Assim como a Embraer mostrou que o Brasil podia voar entre os gigantes da aviação, a Petrobras demonstrou que o Brasil podia mergulhar onde ninguém ousava chegar.
É nesse contexto que o Brasil assume uma posição singular. Segundo dados apresentados pela Pré-Sal Petróleo S.A. (PPSA) e por estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o país se consolidou como uma das maiores potências “ offshore” do planeta e figura entre os maiores produtores marítimos de petróleo do mundo.
O Pré-sal transformou o Brasil de importador vulnerável em exportador relevante e alterou profundamente sua inserção geopolítica. Durante os choques do petróleo de 1973 e 1979, o país figurava entre as vítimas da geopolítica energética internacional. Hoje, pela primeira vez em sua história, encontra-se entre os atores capazes de influenciá-la.
Essa transformação ajuda a compreender o papel estratégico assumido pela Petrobras. Frequentemente discutimos a companhia a partir de indicadores financeiros, políticas de preços ou questões de governança. Todos esses temas são importantes, mas insuficientes para compreender sua importância atual no cenário internacional.
Se a saudita Saudi Aramco simbolizou a geopolítica dos grandes campos terrestres do Golfo durante boa parte do século 21, a Petrobras emerge como um dos símbolos da nova geopolítica offshore do Atlântico nos dias de hoje.
A Margem Equatorial insere-se exatamente nesse contexto. O debate costuma se concentrar em reservas, royalties, arrecadação ou licenciamento ambiental. Todas essas questões são legítimas e devem ser tratadas cientificamente. Entretanto, a crise de Ormuz sugere uma pergunta adicional: qual o valor estratégico de uma província petrolífera localizada fora dos principais gargalos geopolíticos do planeta?
Talvez seja cedo para afirmar que o centro de gravidade da energia já se deslocou para o Atlântico. Mas não parece prematuro reconhecer que um novo polo de segurança energética esteja emergindo. O século 20 foi marcado pela concentração da oferta em poucas regiões estratégicas. O século 21 será caracterizado pela busca de maior diversificação geográfica, resiliência logística e segurança do abastecimento.
Se essa trajetória se confirmar, o Pré-sal, a Margem Equatorial e a Petrobras deixarão de ser apenas temas da agenda brasileira. Passarão a integrar uma discussão muito maior: a reorganização da geografia global da energia e do poder no século 21.
Afinal, quando o centro de gravidade do petróleo muda de lugar, a geopolítica mundial se desloca com ele.
(*) É doutor em engenharia da informação pela Universidade de Nagoya (Japão). É professor titular da UFMA (Universidade Federal do Maranhão). Foi diretor da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) e atualmente é presidente da Gasmar (Companhia Maranhense de Gás). Publicado originalmente no site Poder360.











