Copel privatizada repassou R$ 6 bilhões a acionistas, enquanto conta aumentou mais de 20%

Copel foi privatizada pelo governo Ratinho Junior - Foto: Cauê Diniz/B3/Divulgação

Em menos de três anos, valor pago supera em 89,5% a arrecadação obtida pelo Governo do Paraná com a venda do controle da estatal

Menos de três anos após a privatização da Companhia Paranaense de Energia (Copel), os acionistas da empresa já receberam R$ 5,87 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio (JCP). O valor é 89,5% superior aos cerca de R$ 3,1 bilhões arrecadados pelo Governo do Paraná com a venda das ações que retirou o controle estatal da companhia, em agosto de 2023.

Os números foram divulgados pela deputada federal e pré-candidata ao Senado Gleisi Hoffmann (PT-PR), que afirma que a privatização favoreceu o mercado financeiro enquanto consumidores passaram a enfrentar tarifas mais altas, piora na prestação do serviço e redução do quadro de funcionários da empresa.

“Venderam a Copel, um dos maiores orgulhos dos paranaenses, dizendo que era um grande negócio para o Estado. A verdade é que a privatização foi ótima para os acionistas e péssima para a população”, afirmou.

A comparação evidencia uma das principais críticas feitas à privatização da companhia. Enquanto o Estado recebeu um valor único pela venda da empresa, os investidores privados passaram a receber sucessivas distribuições de lucros, que já superam com folga o montante obtido pelo governo com a operação.

PRIVATIZAÇÃO MUDOU PRIORIDADE DA EMPRESA

A privatização também alterou a forma como a Copel utiliza seus lucros.

Quando era uma empresa controlada pelo Estado, a companhia distribuía entre 25% e 65% do lucro líquido aos acionistas, conforme seu nível de endividamento. A política buscava preservar recursos para investimentos na expansão e manutenção do sistema elétrico.

Após a privatização, essa lógica foi abandonada. Em maio de 2025, a empresa aprovou uma nova política que determina a distribuição mínima de 75% do lucro líquido aos acionistas todos os anos, com pagamentos realizados ao menos duas vezes por ano.

Na prática, a remuneração do mercado financeiro passou a ocupar posição central na estratégia da companhia. O resultado aparece nos números: desde agosto de 2023, os acionistas já receberam R$ 5,87 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio.

Dividendos crescem enquanto consumidores enfrentam aumento nas contas

O avanço da remuneração aos acionistas ocorre ao mesmo tempo em que os consumidores passaram a pagar mais caro pela energia.

Em junho deste ano, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou um reajuste médio de 20,51% nas tarifas da Copel Distribuição, índice muito superior à inflação prevista para o período. O aumento atingiu aproximadamente 5,3 milhões de unidades consumidoras em todo o Paraná.

Poucos dias depois da entrada em vigor do reajuste, a companhia realizou mais um pagamento bilionário de dividendos aos acionistas e manteve o cronograma de novas distribuições de juros sobre capital próprio.

Para Gleisi Hoffmann, a situação demonstra que as promessas feitas durante o processo de privatização não se concretizaram.

“A população e o setor produtivo do Paraná estão enfrentando reajustes abusivos, demora no atendimento, precarização dos serviços e apagões prolongados que causam prejuízos às famílias, aos produtores rurais, granjas, piscicultura e indústrias”, declarou.

RECLAMAÇÕES SOBRE QUALIDADE DO SERVIÇO AUMENTAM

Além do aumento das tarifas, a deputada também aponta piora na qualidade do fornecimento de energia.

Segundo Gleisi, a Copel ocupa apenas a 27ª colocação entre as 33 distribuidoras de grande porte avaliadas pela Aneel no ranking nacional de continuidade do fornecimento, indicador que mede a frequência e a duração das interrupções de energia.

Consumidores e produtores rurais também têm relatado demora para o restabelecimento do serviço após apagões, situação que gera prejuízos para famílias, comércios e atividades econômicas que dependem do fornecimento contínuo de energia.

CORTE DE METADE DOS FUNCIONÁRIOS

As mudanças promovidas após a privatização também atingiram os trabalhadores da empresa.

Segundo o Sindicato dos Técnicos Industriais no Estado do Paraná (Sintec-PR), mais de 1.400 empregados deixaram a Copel por meio de programas de demissão voluntária. A entidade afirma que, desde o início do processo de privatização, o quadro de funcionários foi reduzido em 53,5%.

Para o sindicato, a diminuição do número de trabalhadores concursados e o aumento da terceirização refletem a transformação da empresa em uma companhia voltada prioritariamente para a geração de lucro aos acionistas, o que pode comprometer a qualidade dos serviços prestados.

PRIVATIZAÇÃO NO CENTRO DA DISPUTA POLÍTICA

As críticas à privatização também ganharam espaço na disputa eleitoral de 2026.

Gleisi relembrou que o projeto enviado pelo governador Ratinho Junior (PSD) à Assembleia Legislativa do Paraná foi aprovado em apenas três dias, sob regime de urgência. No segundo turno, a proposta recebeu 35 votos favoráveis e 13 contrários, com apoio de parlamentares do PL.

“Uma decisão desse tamanho foi aprovada em três dias. O PL de Bolsonaro apoiou a entrega do controle da Copel. Agora o partido do candidato Sergio Moro e seus representantes precisam responder por essa escolha”, afirmou.

Paralelamente, o diretório estadual do PT lançou uma campanha pela reestatização da Copel. A iniciativa pretende reunir cerca de 90 mil assinaturas para apresentar um projeto de iniciativa popular na Assembleia Legislativa propondo que a companhia volte ao controle público.

Para Gleisi, os R$ 5,87 bilhões já distribuídos aos acionistas em menos de três anos representam o saldo da privatização. Enquanto o Estado abriu mão do controle de uma empresa estratégica por cerca de R$ 3,1 bilhões, investidores privados passaram a receber valores que já superam amplamente o montante arrecadado pelo governo, ao mesmo tempo em que consumidores enfrentam aumento nas tarifas, reclamações sobre a qualidade do serviço e uma empresa cada vez mais orientada pela remuneração do mercado financeiro.

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