O Peru volta às urnas neste domingo (7) para eleger o novo presidente, com os dois candidatos tecnicamente empatados, Roberto Sánchez, defensor da democracia e da soberania, e Keiko Fujimori, pró-Trump e herdeira política da ditadura de dez anos de seu pai, com respectivamente 43,8% a 43,2% segundo pesquisa Ipsos. O mandato é de cinco anos.
É a quarta vez que Keiko disputa. 27 milhões estão aptos a votar. Na pesquisa anterior, de 31 de maio, a filha de Fujimori ainda estava um pouco na frente, por 38% a 35%. No primeiro turno, Keiko e Sánchez tiveram, respectivamente, 17% e 12%.
Nos últimos 10 anos, o Peru já teve oito presidentes – a maioria presos depois de sofrerem impeachment -, evidenciando a crise política deixada pelo escândalo Odebrecht, e só no último ano foram três.
O fato de os dois candidatos que disputam o segundo turno terem, somados, menos de 30% dos votantes, por si só revela a fragmentação e impasses da sociedade peruana.
Psicólogo por formação, deputado e ex-ministro do presidente Pedro Castilho, Sánchez concorre pelo partido Juntos pelo Peru, chama a industrializar o país, fortalecer o mercado interno, ampliar direitos e convocar uma Constituinte que revogue a constituição imposta pela ditadura Fujimori e permita ao país superar o neoliberalismo ainda vigente.
Nas últimas eleições presidenciais, em 2011, 2016 e 2021, Keiko Fujimori foi ao segundo turno para bater na trave, em razão da persistente reprovação da ditadura. O ditador Fujimori esteve preso até 2023, por crimes contra a humanidade, corrupção e esterilização em massa de mulheres indígenas, e morreu no ano seguinte.
POBREZA AUMENTA 38% EM CINCO ANOS
Apesar do turbilhão político desses dez anos, o país cresceu em média a 3,5%, enquanto a China se tornou seu principal parceiro comercial, com investimentos em setores estratégicos como mineração, geração e distribuição de energia e infraestrutura, como o megaporto de Chancay, que escoa produção do continente para Ásia.
Ancorado na alta dos preços do ouro e do cobre, as duas principais fontes de divisas, a economia tem crescido em torno de 3%, mas 60% da força de trabalho vive na informalidade.
O país sequer conseguiu retornar aos níveis de pobreza e emprego formal anteriores à pandemia de Covid, segundo o diretor do BC peruano, Diego Maceda, citado pela BBC.
Em 2019, 20% dos peruanos viviam em situação de pobreza e este índice atingiu 27,6% em 2024. E o Instituto Nacional de Estatísticas e Informática do país indica que a renda real formal em 2024 também não retornou aos níveis de 2019.
TRUMPISMO EXPLÍCITO
Keiko Fujimori não mediu esforços para se mostrar a mais solícita trumpista do Peru, apesar de todo o empenho do ex-prefeito de Lima, Rafael López Arriaga, de extrema-direita, que, aliás, ficou fora do segundo turno por ter 21.000 votos a menos que Sánchez.
“O que pedem é um Fujimori e aqui estou eu”, assim fez campanha a fascista, que focou na expulsão imediata dos “imigrantes” – macaqueando Trump -, no retorno das transnacionais americanas ao Peru e manutenção da subserviência à Casa Branca sob o “Escudo das Américas”, o clube de fantoches ciceroneado por Marco Rubio.
Meu papel, caso seja eleita presidente, Keiko reiterou, “será motivar os Estados Unidos a voltarem a participar mais ativamente na economia peruana”, manifestando sua prontidão em agir “contra influência da China na região”.
Ela tem asseverado que “a América Latina está girando para uma corrente na qual se prioriza a liberdade, os investimentos e recuperar o controle e a segurança”, a exemplo de Javier Milei, Daniel Noboa e Rodrigo Paz, só faltando “Colômbia e Peru”.
Como denunciou a ex-candidata Veronika Mendoza (no pleito de 2021), os EUA estão tentando “recuperar terreno com uma política intervencionista descarada. Eles vão ‘modernizar’ a Base Naval de El Callao, nos obrigaram a comprar US$ 3,5 bilhões em aviões de guerra e nos fizeram assinar um memorando de entendimento para garantir a eles nossos minerais estratégicos”.
REVOGAR A CONSTITUIÇÃO DA DITADURA
Ao enfatizar a refundação constitucional do país em sua campanha, com a proposta de um referendo para convocar uma Constituinte, Sánchez condenou o fato de o Estado peruano “só legislar para os poderosos” e chamou a industrializar o país, a promover uma segunda revolução agrária para garantir a segurança alimentar e vencer a anemia e desnutrição.
Enquanto Keiko quer “tolerância zero” contra a juventude, o candidato progressista defende a realização de reformas estruturais no sistema judiciário e a participação comunitária.
No encerramento da campanha, Sánchez afirmou que, a partir de 7 de junho, seu governo trabalharia para recuperar a democracia, restabelecer o equilíbrio entre os poderes, revogar as chamadas “leis pró-crime” e recuperar o direito ao referendo.Ele declarou ainda que sua coalizão aceitará o resultado das urnas e instou Keiko Fujimori a assumir o mesmo compromisso público.
FRENTE AMPLA
Diversas forças políticas manifestaram seu apoio a Sánchez para barrar o retorno do fujimorismo. O ex-candidato Alfonso López Chau, do Ahora Nación, disse que decidiu se unir a Sánchez para contribuir com um processo de transformação histórica voltado “à defesa da soberania popular e ao crescimento econômico”.
Ele disse, ainda, que a separação de poderes deve ser preservada. “Não quero que, no meu país, o poder tenha todo o poder. Se nossa aliança vencer, a senhora Keiko e seus seguidores controlarão o Congresso, mas haverá divisão de poderes; se Keiko vencer, ela controlará tudo e não haverá divisão de poderes. Para mim, a divisão de poderes é o centro de toda Constituição e de todo país”, destacou.
George Forsyth, do Somos Perú, pediu aos peruanos que não votem em partidos que estiveram no poder nos últimos anos, que definiu como integrantes de um “pacto mafioso”. “Não quero ver mais ocupação das instituições pelo fujimorismo”, afirmou.
Ele também lembrou que, desde que o fujimorismo conquistou maioria parlamentar em 2016, o Peru mergulhou em um ciclo de caos e instabilidade.
Também engrossaram a campanha por Sánchez os dirigentes do Obras, Ricardo Belmont e Daniel Barragán, e Mesías Guevara, do Partido Morado, e Yhony Lescano, da Cooperación Popular.











